De olhos bem abertos

Por Theotonio de Paiva

Casa onde morou Mário de Andrade, na Rua Lopes Chaves

“Casa minha”, podemos ler no verso da imagem. Lá morou Mário de Andrade, na Rua Lopes Chaves – Foto M. A.

Há muito não ia a São Paulo. Devia ter pelo menos uns quatro anos que não andava pelas ruas daquela cidade. Em outros tempos, geralmente ao chegar, ali pelo Tietê, embicando na rodoviária, me recordava dos versos famosos: “São Paulo! Comoção de minha vida…” e me deixava iluminar por dentro. E vinha um compasso trinado daquilo que a distante cidade significava em mim, desde a primeira visita com meu pai até resvalar nas idas constantes para as minhas pesquisas e alguns projetos.

Era uma sexta-feira e eu acabara de almoçar na Rua Augusta. Estava ali, num misto de trabalho, contatos e, sobretudo, interessado em realizar finalmente uma espécie de visita sentimental.

Uma chuva contínua dera o ar de sua graça lá pelo final da tarde do dia anterior. As calçadas molhadas pareciam insistir para que os meus sensores mais vagabundos ganhassem uma atenção redobrada. Nada poderia escapar daquela vigília realizada com os olhos bem abertos. Absolutamente nada.

Como ia dizendo, acabara de almoçar num restaurante com um jornalista amigo meu. Estávamos acompanhados de uma senhora encantadora, igualmente jornalista, que eu conhecera ali, naquela ocasião.

Na verdade, havia uma sutileza nesse encontro. Efetivamente, eu acabara de conhecer esse meu amigo, naquele exato momento. É claro que isso se explica com algumas poucas palavras. Muito embora nos correspondêssemos há uns três anos, embalados pelas facilidades do mundo virtual, e, nesses contatos, fosse fácil perceber uma certa intimidade, éramos, contudo, ainda distantes um para o outro. Por conta de um trabalho em comum, passamos a nos comunicar com certa frequência, através de emails e mensagens. A mulher, ao contrário, seria desde sempre uma presença real, linda nos seus movimentos e capacidade de perguntar o que ficara em construção pelo pensamento. E ambos me ajudavam a pensar São Paulo como uma cidade, cuja tradução “a berrar nos desertos da América”, se faz necessária emergir em novas equivalências nas suas sensíveis diferenças.

De todo modo, havia uma expressão de segurança, de velhos conhecidos, cujas antigas afinidades se deixavam acontecer. Com um pouco de ironia, dali a algum tempo, ao me afastar deles, esse estado de segurança iria desaparecer em mim, quase sem deixar vestígios.

Há alguns anos, sob um sol escaldante, estive em Barra Funda, antigamente considerada periferia da cidade, a fim de visitar a casa onde morou Mário de Andrade. Era uma visita para a qual me preparara desde sempre. Começou quando, ainda adolescente, vi algumas fotos de uma São Paulo antiga que embalara a existência do escritor. E aquilo crescera comigo, em meus modestos estudos e num desejo de quem mitifica o mundo, e, nesse compasso, ambiciona trazer para dentro de si aquele mesmo quadrante que os olhos sonolentos abrigavam.

Esforço inútil. Era um sábado e o local, já na época transformado em centro de cultura, a Oficina da Palavra, não abria aos sábados. Fechava-se no seu mobiliário pela voz do guarda aos visitantes desavisados.

Atualmente a situação, parece, mudou bastante. De qualquer maneira, talvez fosse capaz de dizer que apenas aquela lembrança ainda me deixa sem ação. Preso à calçada, contava uma derrota que me retorcia inteiro. Impossibilitado de gerar uma reação tímida que fosse, procurava, com os meus olhos, um sentido qualquer para aquela situação de desalento.

Acreditando ou não, naquele momento, eu fora privado de olhar pela mesma janela por onde o poeta via o mundo. Coisa talvez sem importância, num culto desnecessário ao passado, embora não se tratasse de um poeta qualquer. As horas de dedicação e pesquisa, ao menos para mim, há muito tinham gerado uma intimidade distante e próxima. Diria mesmo perversa, quando, ao final de algum tempo, acabamos por travar com os nossos objetos de estudo uma afeição necessária, porém desmedida. E, nessa curiosa relação, o poeta modernista era alguém que se infiltrava pelas minhas retinas, em seu terno de casimira inglesa, como aqueles que meu pai também usava.

No entanto, a situação agora era integralmente nova. E aquela visita programada voltava a existir enquanto uma modesta possibilidade.

Saímos do almoço, os meus dois amigos jornalistas e eu, conversando sobre amenidades. Os guarda-chuvas se esbarravam e queriam pedir passagem, apressados. Naquele descompasso, o tempo parecia não deixar ver direito o vai-e-vem de ricos e brancos, que bem de perto ficam pobres e pretos.

Passamos novamente pelo local onde fica o bunker da redação. Faço uma pequena hora, despeço-me, e, ansioso, dirijo-me ao metrô.

Ao comprar o bilhete, pensava naquelas distantes ruas da Barra Funda. É para lá que eu ia.

Os anos passados e o tempo chuvoso tornavam o lugar pouco familiar. Não me recordava direito da topografia. Queria me lembrar daquela rua íngreme, por onde imaginava o poeta subindo à noite. Talvez procurasse por algum vizinho próximo a escutar os ecos, às duas horas da manhã, do piano tocando Bach, enquanto os trabalhadores dormiam profundamente.

No entanto, naquela tarde, a rua parecia ter sumido de suas próprias cercanias. Ante o meu desespero, procurei um ambulante que pudesse me informar onde ficava a Rua Lopes Chaves. Avisto um rapaz negro, meio alto, vendendo algumas guloseimas numa esquina, próxima de um enorme viaduto. Daquele lugar, com construções antigas, que soavam estranhas à cidade, ele também não distinguia muito bem o mundo que o rodeava.

Um pouco distante, vejo se aproximar um homem ainda jovem. Os passos contidos ajudavam a organizar os pontilhados da imagem que lentamente se formavam. Era visivelmente um morador de rua. As roupas encardidas, o cabelo, meio gruvinhado, e as mãos que se afagavam mostravam um aspecto visivelmente miserável. No entanto, aquela aparência, veria logo, desdizia o homem. À parte deixar transparecer uma generosidade incomum, exercia um comando meio heróico dos seus seres imaginários e da sua solidão inconclusa, além de efetivamente parecer disposto a encontrar a rua e assim me ajudar.

Naquele passo de alma cambaleante me deixei levar por aquela situação e concordei com a sua oferta. Não tinha muito que perder. Num ato contínuo, o homem vai até uma birosca e retorna decidido. Já sabia onde ficava o local.

Aquilo dura pouco. Logo em seguida, descubro que está enganado. Era um outro Lopes, ou um outro Chaves, que lhe informaram. Mas isso agora não fazia uma diferença significativa.

A princípio, aquilo para mim não estava claro, mas aquele homem, com cerca de seus trinta e poucos anos, via em mim alguém com quem pudesse conversar e, provavelmente, conseguir alguma ajuda, o que logo se confirmaria.

No entanto, o que assoma do nosso amigo é a sua capacidade de entreter o outro. Assim, como um malabarista das palavras, se desdobra em encontrar assuntos e meios para conduzir o tempo. Comentava pelos cotovelos a importância da educação, da cultura e daqueles outros conceitos distantes que ele possuía e, ao mesmo tempo, invejava por não ter, ao menos por não ter da maneira que desejava. E contava de sua compreensão sobre o Príncipe, de Maquiavel. Evidentemente, Emerson, vamos chamá-lo assim, não frequentara uma escola formal, no entanto, lera aquele clássico da ciência política por duas vezes, expondo em detalhes uma concepção bem formada que me nocauteava.

Falava de Napoleão. E apressava-se em discorrer sobre Maquiavel e Sun Tzu, os autores de cabeceira do corso, cuja dedicatória à Heróica fora implacavelmente riscada pelo músico alemão quando aquele se fizera Imperador. E emendava os assuntos. E cantava romanticamente uma espécie de lírica sobre a sua mulher, a doce Elisa, que mais parecia se erguer como um simulacro de Dulcineia. Entretanto, tudo leva a crer, Elisa não ocultava a verdade praquele Quixote das quebradas. Era ela a verdadeira dama.

Num repente, assim de chofre, se revela: – Nós somos soropositivos.

Mais um golpe. Previsível nocaute. Mas de todo modo, constrangedor, apesar da inteligência em falar de si mesmo com uma espécie de distanciamento o que dava às palavras daquele homem uma certa leveza.

Feliz com a atenção que eu lhe dedicava, pedia para tocar as mãos em sinal de amizade. E gentilmente dizia: – Se eu não lhe incomodasse, receberia de bom grado um presente. Que presente seria? Fraldas para ele e a sua mulher. Rapidamente, sem me deixar raciocinar, informava que os recursos dados pelo governo haviam terminado e o coquetel os fragilizava terrivelmente.

Enquanto nos dirigíamos a uma farmácia próxima, observava melhor aquele sujeito. Cruzávamos um viaduto. E as roupas encardidas, os dentes mal conservados, e a verve de um intelectual que poderia ter sido e não foi, gritavam em toda a sua plenitude. Cuido para que não seja importunado no estabelecimento, ouça frases que venham a agredi-lo, ou, quem sabe ainda, seja convidado a se retirar. Nesse sentido, adoto uma postura meio paternal, que me dói um pouco ter de lançar mão, mas julgo necessária assim mesmo.

E nos despedimos mais à frente. Numa confusão vulcânica, encaminhava-me à Rua Lopes Chaves, naquele momento, já devidamente mapeada. A casa, encantadora, não mais pertencia a ninguém, mas à memória de uma cidade e do mundo. E poderá ser compreendida como um patrimônio cultural dos nossos desejos e das nossas tradições mais fecundas.

De volta à minha cidade, um outro amigo, ao ouvir o relato, colocava um reparo. E nele deixava estremecer toda a sorte do mundo, que se apresentava como uma injunção terrível. Aquele homem parecia um espelhamento, uma versão dolorosamente invertida do poeta. Enquanto este seguia morto e reconhecido, às vezes de um modo incompreensivelmente tão antimodernista, por uma sociedade com a qual mantivera conflitos intensos, aquele outro, morador de rua, soropositivo, apesar do sangue ainda lhe correr pelas veias, visto de perto, permanecia uma sombra fugidia de si mesmo, desenhando a cada movimento a sua própria exclusão. Parecia se perguntar como o poeta: “Onde está o insofrido?”

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

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O delírio e a cegueira

Por Theotonio de Paiva

Trono de sangue – Macbeth, por Antunes Fº

Experiência que tem animado, com o mais profundo interesse, algumas grandes expressões da história do pensamento, a idéia de conhecer aqueles desejos e motivações terríveis, que alguns personagens possuem como eixo central em suas criações, tem mobilizado, ao longo dos tempos, tanto estudos da literatura, quanto da dramaturgia. E, exatamente pela sua condição de serem figuras invariavelmente contraditórias, tais criações, apesar de encerrarem um princípio mobilizador determinante em suas condutas, não necessariamente revelam seus objetivos de imediato. E é exatamente isso o que as torna sedutoras e pontos de partida para toda a sorte de reflexão sobre os habitantes dessa rocha que gira em torno de uma bola de fogo.

Na medida em que nos aproximamos daquelas motivações e objetivos, somos levados a entender melhor, ainda que muito modestamente, acerca daquele homem, palpável, concreto. Contudo, aí temos um outro problema: ainda é possível afirmar, sem nenhum alcance da dúvida, que tal ser assim exista nesse início de século, após tantas transformações, tantos descentramentos, como sabidamente sintetizou Stuart Hall? Posto o devido reparo, caro leitor, precisamos seguir adiante.

De todo modo, resta a especulação: como proceder a essa façanha, de procurar as mais difíceis traduções da alma humana, se não for através da arte? Das coisas que aprendemos e não aprendemos nos discos, não seria difícil esquadrinhar, por exemplo, aquilo que se acha perdido nas conversas mais ou menos íntimas ou nos conchavos, bem como a indecisão ou o medo nas falas interditas. E contaríamos, talvez, as choramingas entre grandes conhecidos, assim como os comentários ignominiosos e patéticos da internet, até desemborcarmos nos julgamentos públicos, e a redenção através da cicuta ou do choro do discípulo. Evidentemente, desde que este tenha talento suficiente para deixar o legado de uma grande obra.

Não é difícil perceber, pois, que nada lhe tira o mérito e a mediação segue como o grande encantamento da arte: aprender a ver e a transver, como dizia o poeta, é um exercício profundo.

E a arte jamais se furtou. A literatura, o teatro, o cinema, em suas mais distintas concepções, deram asas a algumas das criações mais notáveis do espírito humano. E, ao conceberem personagens-símbolos, chegaram muito perto do inferno e do maravilhoso.

Neste sentido, a aproximação com parte daquele imaginário, mais ou menos fantasioso, possibilita que, em nosso ato de decompor sistemas, através do qual o texto se fundamenta, possamos também estabelecer uma visada que ambiciona compreender mais detidamente os novos/velhos enigmas que porventura estejam surgindo. E é essa uma porta de entrada para a reinvenção da própria tradição literária.

Portanto, com grande engenho, não foram poucos os autores que conseguiram apresentar-nos algumas criações especialíssimas. Em muitas delas, alguns traços deixavam claro que a sua aposta substantiva se afirmava no “mundo dos homens”. Desse modo, objetivava-se compreender melhor o mundo real. E, nesse quadro, destacavam-se personagens que se definiam por guardarem algumas ambições a qualquer preço.

Aquieta o coração, leitora, pois não é tão simples encontrar sujeito que se preste a determinados serviços. A concretização de alguns objetivos, sabemos, encobre uma aceitação mais ou menos tácita de outras ordens de princípios, de composições de poder muito bem administradas, que incluem, paradoxalmente, em determinados casos, uma evidente subserviência a um outro mando, pois ninguém governa sozinho, diz o adágio. No frigir dos ovos, o elogio da vassalagem requer talento e arte.

Mas isso ainda não é nada. Na verdade, uma aceitação plena dessa nova condição, qualifica esse hipotético personagem-síntese, a um duplo movimento de auto-afirmação e fechamento em si mesmo. E estará pronto a entregar a própria alma aos princípios mais abjetos, enquanto acredita, na verdade, que dedica a própria vida a uma consagração perpétua, dentro do espírito de uma auto-representação idealizada.

Evidentemente, compreenderá o leitor, parte significativa da sociedade, presente naquele mundo imaginário, está pronta, pelo menos, a intuir a natureza daqueles movimentos de poder. Desse modo, não seria difícil encontrar nas descrições, nas rubricas do autor, nas observâncias dos coros, a intensidade daquelas manobras.

Entretanto, assim como existem as coisas dizíveis, aconselhava-se, por uma outra medida, a não ir além de um silêncio constrangedor. Quantas vezes, os membros da sociedade, regidos por um Corifeu, não se detêm em suas angústias e se afastam de si mesmos? Quase sempre, nesse abandono, entregam ao destino aquela difícil medida de decisão – imprecisão da vida e de todos os governos.

Muitas das vezes, não é difícil vislumbrarmos, por detrás daqueles contornos terríveis, compreendidos como personagens de grande intensidade dramática, uma fantástica capacidade de desvelar o não compreendido. Naquelas jornadas, somos apresentados aos infortúnios. Profecias, motivações para crimes, assassinatos, golpes, perversões de toda ordem, bailam numa dança macabra, leitor inquieto, e nos conduzem a uma espécie de tragicidade plasmada na solidão, ou na loucura.

Contudo, no campo da grande arte, seja erudita ou popular, é preciso avançar até o fim. E então se constata que não há meios da imaginação dar meia volta e se aquietar intimidada. Ela avança e se pronuncia de um modo violento sobre os aspectos mais aflitivos. E cobra do leitor que lhe decifre o enigma. Mas, como se valer para tamanha empreitada? Qual a chave que se emprega?

Para entender a lógica das motivações de certas criações, muitas das vezes, é comum nos surpreendermos agindo como se fôssemos um ator. Como assim? Foi exatamente isso o que você leu, leitora. É uma lógica tão simples: o que eu faria se ali estivesse? De pronto, a roda do mistério começa a girar mais intensamente.

Nesse instante, nos orientamos mentalmente para compor um personagem. Rapidamente o abraçamos como uma partitura, que devesse ser construída a fim de chegar à arte da representação. E nos imaginamos, curiosos, em condições de tocar, ainda que de leve, a natureza difícil que nos causava admiração e perplexidade, medo e ira.

Ao mobilizar tantas mulheres e homens, essa roda do mistério é dona de uma intuição singular. Por qual motivo? É que ela mesma carrega, bem lá no alto, um raro instrumento de orientação, a antena da raça.

Para chegarmos a determinadas percepções, e o leitor já deve ter percebido há tempos, precisamos dispor igualmente de instrumentos, que nos permitam adivinhar aquilo que se esconde no outro canto do mundo. E, às vezes, para que se realize, esse encontro necessita apenas atravessar uma porta estreita a fim de se maravilhar. No outro lado de um muro, o olhar se depara com uma diversidade estupenda, não de respostas precisas, mas de novas e inquietantes perguntas.

Num jogo absolutamente lúdico, somos capazes de manejar alguma espécie de bússola, com feição diversa. Nessa nova condição, nos tornamos senhores de novos movimentos e percepções. No entanto, cuidado. Esse instrumento sensível pode confundir as direções das vagas no meio de uma tempestade, encobrindo a verdadeira vontade humana. Mergulhados nas aparências, chegam até nós, as surpresas e os encantamentos, como chegaram até Ulysses os cantos durante a travessia. E tal assombro pode ser revelador ou simplesmente fatal.

Mundo que segue, não é difícil qualificar como uma experiência superior os sentimentos encontrados nas fibras internas daquelas construções literárias e teatrais, mesmo quando entendidas como as mais perversas e ignóbeis, semeaduras da cólera e do ódio. E, ao fazermos a incursão por aquela dimensão simbólica, somos levados a procurar o sentido ou a ausência de sentido da experiência humana.

Com qual objetivo tudo isso? – voltará a um ponto de retorno o nosso infatigável leitor. De algum modo, ao nos virarmos para esse problema, valendo-nos de uma curiosidade que não conseguimos aplacar, procuramos, com maior ou menor consciência, tentar desvendar algumas dimensões veladas, escondidas, escamoteadas, cuja força celebra algum tipo de conhecimento superior. O mal precisa ser re-conhecido.

Fundamentalmente, aceitamos o difícil hábito de nos deixar impactar, sobressaltar mesmo, pelas manifestações mais terríveis. E com elas, próximo a elas, somos tentados a entender o que a simples colocação de uma máscara na expressão do outro o transforma inexoravelmente. Às vezes, enquanto expressão de poder, em outras, como inapelável submissão à condição de servilismo. Em outras, as duas formas conjuminadas.

Mas não fiquemos somente nisso. Uma experiência dessa natureza – chegar próximo das motivações mais complexas de seres ficcionais – nos faz entender melhor em relação àquele que se apresenta como um estranho. E, de algum modo, paradoxalmente, tem-se aí também uma porta de entrada para si mesmo.

Algumas daquelas personas, feito máscaras construídas por mãos capazes de esculpir com todo o esmero um ríctus de estranha perversidade – aonde nos conduziriam? Pois bem, diria a leitora preocupada em entender o espírito humano, que tais personas surgiram curiosamente já imbuídas de uma confrontação categórica. Que tipo de confrontação? – me aproximo para entender melhor.

Elas precisam do conflito e da dor, responde afirmativamente. E argumenta, balançando-se com o corpo, como se através dele duvidasse daquilo que o hálito deixa escapar: essas mesmas personagens são ditadas por suas condições sociais e opções políticas. Emerge a condição de serem escravos de uma espécie de delírio, pois incapazes de reservarem alguma medida que ilumine a lenta agonia noite adentro.

Não conseguiriam voltar atrás? – provoco. É bem mais do que isso: não há como voltar atrás. Inflexíveis até a medula, não aprenderam a prescindir da espantosa violência que a espécie carrega como um sinal de Caim. E conclui: não seria difícil encontrar naqueles conflitos apresentados uma proposição maniqueísta de um mundo dividido rigorosamente entre homens bons e maus – e os maus evidentemente estariam sempre do outro lado, na mais desprezível aliança.

Com efeito, faço pelo meu lado algumas ponderações. Defendo que é comum, procurar, por todos os meios, especializados ou não, denegrir o outro como um mal que mereça ser extirpado inapelavelmente.

Ora, num mundo que historicamente apresenta uma grande dificuldade em ser mais bem compreendido – responde timidamente – algumas manifestações de ódios e violência soam como se acontecessem numa esfera que dificilmente encontra o seu sentido. Se quisermos ampliar o nosso entendimento, poderemos conjeturar sobre os verdadeiros responsáveis pela percepção de um mundo confuso. No entanto, é curioso notar o quanto ainda somos inundados por uma espécie de cegueira.

Por outro lado, algumas angustiantes observações notadas, aqui e ali, poderiam nos levar a especular se não estaríamos, diante do delírio e da cegueira, na condição de reféns. Eles serviriam como excelentes pontos de fuga a uma realidade tão hostil quanto encantadora. Contudo, é melhor parar por aqui, pois essa forma de ver as coisas talvez seja julgar de um modo muito cruel as ciências dos homens.

De todo modo, como responder à natureza de um quadro tão complexo e angustiante? E, nesse momento, talvez cedesse à tentação de chegar perto não apenas daqueles personagens ficcionais, mas de outros ainda, de outra sorte e natureza, porque reais. Mas isso eu deixarei por conta da minha atenta leitora.

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

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Teoria e prática

Por Theotonio de Paiva

Depois de quase um mês, retomamos as atividades aqui no blog. Posso garantir que essa experiência me faz muita falta. Concretamente falando, a possibilidade de rascunhar, pensar em voz alta, talvez obter alguns retornos impensáveis, e, sobretudo, lutar por uma democratização não apenas da informação, mas do conhecimento como um todo, se traduz de uma maneira cada vez mais surpreendente. E isso não acontece só aqui. Mas posso e devo falar do meu quintal.

O domínio da linguagem, a construção de uma crônica desses nossos tempos, permite-nos elaborar cotidianamente algumas questões. Esse é um aspecto decisivo dos termos desse blog do qual não devemos nos afastar.

Assim, o conhecimento vai se depurando. Às vezes se sofistica, mas no instante seguinte volta atrás, erra, por conta de um embrutecimento da sensibilidade. Mas isso não importa. Em outros momentos se projeta com saltos incríveis, a partir de entendimentos mais profundos sobre esse tempo memorável em que vivemos.

São tantas as crises, as mesquinharias, os desacertos, os retrocessos, que nos imaginamos numa época grotescamente caótica. E é. No entanto, há essa outra dimensão curiosa do pensamento, que nos impulsiona a intuir novas percepções. E então somos pegos naquele embate com causas imprevisíveis e independentes entre si que sabiamente nos oferece um outro punhado mais generoso da expressão humana.

Shakespeare, em seu Hamlet, talvez tenha chegado perto daquela síntese memorável sobre o homem, ao percebê-lo capaz dos vôos mais sublimes e, paradoxalmente, senhor das mais abjetas criações. E, ao anunciar esse homem moderno, o poeta parece falar para os séculos futuros em tons premonitórios. Muita coisa mudou, porém outro tanto se manteve preso à roda do tempo.

De todo modo, a crise em que vivemos se afigura como uma manifestação perene do mundo. Não há escapatória. Não há motivo para vocalizar um tempo pretérito de uma fábula de ouro, tampouco supor que o fato de termos estado atrás daqueles seres que se saciavam com os restos de carniça dos exímios caçadores, nos obrigue a uma fatalidade única de desespero e dor.

A representação daquele princípio vida e morte se traduz nas nossas criações, em nossos modos de operação, enfim, em nosso destempero, e naquela inatingível, posto que reconhecida, serenidade. A vida é curta, não há escapatória. Sempre foi e sempre será. Mas o flagrante maior do cotidiano, aquela expressão simbólica da vida em suas contradições mais delicadas e sutis são vocalizações supremas de um mundo que insiste em transver o próprio olhar e comunicar aos outros a condição suprema de cada um de nós, a minha e a sua. Voltemos aos tempos de caça.

A diferença entre seis e meia dúzia

Por Theotonio de Paiva

Recebo mensagem de Vera, amiga lá de Minas.

Dizia mais ou menos o seguinte:  ontem, em visita diária à casa paterna, a fim de filar a comida da Nazareth, que é deliciosa, ouvi o explosivo comentário de meu pai, a propósito das eleições:

– Pra mim tanto faz, que é trocar seis por meia dúzia!

(Em tempo: o pai dessa amiga tem 80 anos. Talvez para alguns isso ainda signifique um “apesar de”, ou um “muito embora”. No entanto, pelo visto, ele continua muito ativo: é ligado ao seu tempo. Tanto assim, que lhe pediu links onde pudesse ler sobre o momento atual.)

Cena que segue.

Claro, pau na hora do almoço. Depois a pergunta cheia de incredulidade:

– Onde na internet tem estes artigos que você tá falando?!

No dia seguinte, acessaram juntos algumas indicações para salvar nos favoritos. Vera sugeriu que ele começasse justamente pelo meu blog.

Caramba! Caíram os meus arqueados ombros por terra. Senti o peso da responsabilidade: o meu internauta  agora tem nome e sobrenome.  Preciso começar a dialogar com alguém do outro lado da tela que bem poderia ser meu pai, o que muito me honra, diga-se de passagem. De fato, esse não é o problema. Contudo, ele exige do alto de sua experiência soluções rápidas. E em bom português.

Vira o rosto e segue, recomendou Virgílio a Dante.

O meu desgraçado poeta torto me obriga a pensar na mudança radical de conceito, e exclama: seis não é igual a meia dúzia!

Meia dúzia você encontra na feira, nas vendas de rua, nas bibocas, nas falas do povo.

Meia dúzia é gostoso de dizer. Cabe na boca que nem bombom oferecido pela namorada, beijo roubado, palavrão a mancheias para se livrar de uma praga lançada pelo vizinho.

Seis é pernóstico. Meio metido a besta, como se fosse algo diferente daquilo que verdadeiramente é.  Num fraque azul apertado sentencia para a vida, esquecido das suas origens.

É professoral. Pelo cachimbo usado não admite ser contrariado. E passa pito nos outros. Se deixar, emprega a palmatória  para não deixar dúvida de que ele – e somente ele! – é conhecedor da verdade. E assim encerra qualquer diálogo.

Frequenta as altas rodas, escravo dessa gente,  que só cultiva a hipocrisia, como cantava Noel.

Repara só: você já viu gente metida a ilustrada falar meia dúzia? Jamais!

Seisss… sibila como a fala de quem precisa gastar as consoantes desnecessariamente. Consoantes postas fora, como o dinheiro que se tem,  ou não se tem. Ou mais provavelmente ainda o que se amealhou dos outros. Porém – ah, porém!… – não, não foi um caso diferente: foi o mesmo dinheiro que não compra a alegria.

Meia dúzia é pachorrento, simpático, e não admite ser redundante. Simplesmente é. Correu mundo afora e foi reconhecido como uma medida diversa daquela que normalmente se usava para fazer as contas de achego. Talvez sussurrassem no seu ouvido de que ele é o cara. E ele riu. Em meio canto da boca.

Ao contrário, seis, às vezes, se põe de ponta a cabeça para enganar que é outra coisa. E quando faz a conta é nove vezes fora.

Vou ser franco, pai de minha amiga: seis parece a hora da vez. Mas a hora não tem vez. E você sabe disso. Ela faz parte do tempo . E este , diziam os antigos, não passa de uma criança brincalhona.

Meia dúzia acatou como poucos a sabedoria de que é apenas uma metade incompleta que precisa do outro. E do que precisa? Ora, meu caro,  necessita da fala das ruas, da alegria estrepitosa do balé pernóstico e licencioso de quem anseia urgentemente ter a sua vida espalmada na mão para ser dono de seu próprio destino.

E quando isso acontecer,  a nossa meia dúzia poderá gargalhar, pois o confundiram com uma máscara de ocasião. Ora se pode, logo ele, que morou na filosofia.