Verdade versus análise

Por Alexandre Pilati*, no Outras Palavras

Martinha versus Lucrécia (Cia das Letras, 2012), último livro do crítico literário Roberto Schwarz, chegou às livrarias mês passado e abasteceu os cadernos culturais de alguns de nossos periódicos com um saudável bafejo de polêmica, embora esta não tenha nem duração e nem aprofundamento garantidos, pois, nesses tempos pra lá de pós-modernos, de pauperização encefálica da grande imprensa, polemizar a sério é algo desconectado da fruição irrestrita do “curti/não-curti”, cada vez mais arraigada nos “melhores talentos” intelectuais brasileiros. De qualquer forma, a polêmica se justificou basicamente por dois motivos: 1) pela análise cerrada do ambíguo livro Verdade Tropical de Caetano Veloso e 2) pela, segundo alguns, injustificada insistência do crítico em interpretar a experiência histórica brasileira a partir de suas experiências culturais, especialmente aquelas provindas do campo da literatura, atualmente muito combalida como atividade estética de escavação do real. Se desde o título o livro de Schwarz carrega a marca do acirramento do debate, em chave dialética, não haveríamos de esperar outra coisa. Talvez esteja aí um pouco do seu mérito.

Para além do inquietar do Narciso pop tropical (Caetano deu entrevistas e aproveitou o espaço na mídia como sói acontecer desde a Tropicália) e dos narcisos da intelligentsia conservadora tropicaleira (que usaram a imprensa para esbravejar contra o vitupério que é um crítico literário ousar pensar sobre o país de um ângulo diferente do dos proprietários), o livro carrega o desafio de manter em dia e em boa forma o olhar dialético e prenhe de negatividade de Schwarz, após uma década ou duas que o tornaram quase um clássico da crítica literária acadêmica no Brasil. Diga-se, aliás, que nada poderia ser mais contrário à sua disposição antimetódica do que tornar-se jargão universitário. Esse é um dos motivos fortes para saudarmos a obra; motivo este que, é claro, o polemismo atacanhado dos últimos dias não captou nem de longe. Martinha versus Lucrécia dá ao leitor o velho crítico adorniano, em uma prosa amadurecida nos melhores exercícios da reflexão dialética. A sintaxe está elegante, irônica e alimentada impiedosamente pelas contradições, como se fosse uma chave que se adequa aos problemas novos que se impõem. A escolha dos textos contempla tanto a crítica literária, como entrevistas e “textos de intervenção” (prefácios, saudações, arguições). O painel é vário, mas a sua força está na unidade de disposição, que poderíamos resumir recorrendo a um meio de parágrafo do autor, em que se trata da tomada de partido histórica na análise da forma estética, a qual “seria um princípio ordenador individual, que tanto regula um universo imaginário como um aspecto da realidade exterior”.

No que se refere à crítica especificamente literária, o volume nos reconcilia com velhas “ideias fixas do crítico”, por meio da leitura de Machado de Assis em tratamento adensado noutro plano, pois que armado para o debate literário cosmopolita, como nos ensaios “Leituras em competição” e “A viravolta machadiana”. É basilar nesses dois textos a disposição para debater internacionalmente sobre a validade da obra machadiana, tentando fazer ver, em que medida radicalmente política, “os rearranjos em matéria e forma operados por Machado faziam que um universo ficcional modesto e de segunda mão subisse à complexidade da arte contemporânea mais avançada”. Com esses dois textos, Schwarz revisa Machado para o leitor de fora, escarafunchando um pouco os motivos falsos e frágeis de sua bela e recente aceitação no exterior. Mas revisando-o para o leitor estrangeiro, o crítico acaba por revisá-lo também para o leitor brasileiro, às vezes estranho ao Brasil, de tão emaranhado que está na mais nova moda crítica exógena.

É, todavia, o conjunto de textos que se segue à entrevista “Sobre Adorno” que esconde o detonador da polêmica que cercou saudação do livro. São três textos sobre literatura brasileira contemporânea, entre os quais o violento ensaio inédito sobre Verdade tropical. Por si só, o texto sobre o narrador volúvel de Caetano vale o ingresso e se sustenta sozinho. Contudo, bem pensado o seu lugar na economia do livro, ele funciona bem melhor quando se leem os dois ensaios que lhe fazem fila. Seria um despropósito pensar que os ensaios sobre O elefante, de Chico Alvim (“Um minimalismo enorme”), e sobre Leite derramado, de Chico Buarque (“Cetim laranja sobre fundo escuro”), estão colocados em sequencia como complementos críticos da análise sobre Verdade tropical? Creio que não, se pensarmos que nesses dois Chicos, Alvim e Buarque, paradigmas de um realismo vigente e furioso na literatura brasileira contemporânea, encontra-se uma correção em acorde negativo da mimese do contemporâneo diagnosticada por Schwarz na forma narrativa de Caetano. Se, no narrador deste, a posição de privilégio de classe atua em favor de uma postura narrativa que mescla diretrizes contrárias, em prejuízo da pesquisa estética das contradições da experiência (ou da verdade) tropical, naqueles, segundo o crítico, esta mesma posição se remonta, para ouvir e rearranjar, em ritmo derrisório e desencantado, as contradições brasileiras. Tudo engendrado a partir de uma perspectiva literária capaz de fender o sorriso ignóbil da farsa proprietária, tornando-o irremediavelmente escandaloso no país miserável do século XXI. Diria Chico Alvim: “Quer ver/ escuta”.

Com isso, estão ligadas “as duas pontas do novelo”: Machado e as letras do Brasil contemporâneo. A análise de Schwarz acerca do fenômeno machadiano baseia-se fortemente na capacidade que a viravolta formal dos romances de segunda-fase apresenta de dramatizar as contradições da perspectiva proprietária da história brasileira (e todas as suas implicações que tanto conhecemos intimamente). Não é difícil aproximar as leituras de Verdade tropical, O elefante e Leite derramado pois elas são faces da tendência do crítico a analisar a comédia de classes no Brasil a partir da equação literária da voz narrativa ou lírica dos protagonistas. Em Caetano, temos o bom e velho narrador conciliador, desejoso de ativar as potências e riquezas que jazem no Brasil atrasado, desde que isso não implique em democratização e socialização da cultura, pois seu ponto de vista dúbio caminha sempre a depender do sucesso de instauração de mecanismos intensificadores da indústria do espetáculo em terra periférica. De defensor da liberdade individual destinado a contar uma verdade (tropical?) a porta-voz refinado do neoliberalismo (é bom lembrar que o livro é de 1997) e da regressão artística, apresentada sempre em chave cínica de avanço e emancipação da arte tornada artigo pop: eis uma possível interpretação do caminho do narrador de Verdade tropical na perspectiva de Schwarz. O trocadilho é infame, mas irresistível – a verdade tropical é no fundo a verdade do-capital. Embora seja cáustico, não deixa de ser revelador da experiência brasileira pós-golpe. Assim se dá também no caso de Alvim e Buarque. Entretanto, as formas literárias aqui estão fazendo pouco do refinamento intelectual da nossa elite e reagindo à miséria periférica (aparatada com pseudomodernização), tornando problemáticas as próprias possibilidades de representação da história universal sob os mecanismos miméticos que essa mesma história legitimou e consolidou ao longo da formação brasileira. Sem verdade disponível, pois que ela está apropriada pelos impropérios da classe dominante, Buarque e Alvim buscam um mínimo, que no caso é enorme: como representar o irremediável da modernização à brasileira.

Monta-se assim o poliedro do duro problema da leitura do país a partir da literatura e vice-versa, com o selo da crítica dialética, comprometida com a materialidade das formas e da história, malgrado o pouco apreço de algumas “estrelas-alfa” (Bandeira em “Nova poética”) da nossa crítica. No ritmo da arenga criada por sua vinda a lume, a verdade dos proprietários literatizada vis-à-vis a análise da cultura brasileira interessada no conflito de classes, Martinha versus Lucrécia deve ser acolhido como ponto a favor desta; e com júbilo, por reativar, em diversos campos, algumas pulsões obscuras latentes no tropicalíssimo “legado de nossa miséria”.

*Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília, autor, entre outros, de A nação drummondiana (7Letras, 2009).

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Crônica / A Semana

Carnaval de 1881, por Ângelo Agostini

A crônica que você irá ler agora foi escrita há exatos 119 anos. Nela, Machado de Assis celebra o carnaval carioca e sua expressão popular. Mas ele não fica nisso. Assim, chamo a atenção para a forma como ele cruza vários temas ao longo do texto.

Desse modo, além do reinado de Momo, ele nos fala da lenda do tesouro no Morro do Castelo – mais tarde, Lima Barreto dedicaria algumas crônicas deliciosas ao tema –, e ao problema da esterilização de mulheres.

Mesmo que alguns tópicos soem distantes, vale a pena ver como ele amarra os temas, a partir de uma semelhança com o eixo ficcional que ele utilizara magistralmente nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Boa leitura.

Por Machado de Assis

FALECI ONTEM, pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho; mas tão perfeita a sensação da morte, a despegar-me da vida tão ao vivo o caminho do céu, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventurança.

Ia subindo, ouvia já os coros de anjos, quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procissões que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela dizia enquanto ia entornando a ânfora:

— Esta gente vai sair três dias à rua com o furor que traz toda a restauração. Convidada a divertir-se no inverno, preferiu o verão não por ser melhor, mas por ser a própria quadra antiga, a do costume, a do calendário, a da tradição, a de Roma, a de Veneza, a de Paris. Com temperatura alta, podem vir transtornos de saúde, — algum aparecimento de febre, que os seus vizinhos chamem logo amarela, não lhe podendo chamar pior… Sim, chovamos sobre o Rio de Janeiro.

Alegrei-me com isto, posto já não pertencesse à terra. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval, — velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dous anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d’água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d’água despejadas a traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses.

Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários.

Cheguei a lembrar-me, apesar de ir caminho do céu, dos episódios de amor que vinham com o entrudo. O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das moças; era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente . . .

Um dia veio, não Malesherbes, mas o carnaval, e deu à arte da loucura uma nova feição. A alta roda acudiu de pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital entrou na dança. Os personagens históricos e os vestuários pitorescos, um doge, um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia às mãos dos alfaiates, diante de figurinos, à força de dinheiro. Pegou o custo das sociedades, as que morriam eram substituídas, com vária sorte, mas igual animação.

Naturalmente, o sufrágio universal, que penetra em todas as instituições deste século, alargou as proporções do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto carnavalesco invadiu todos os espíritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evohé! Bacchus est roi! dizia um coro de não sei que peça do Alcazar Lírico, — outra instituição velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta simples emenda: Evohé! Momus est roi!

Não obstante as festas da terra, ia eu subindo. Subindo, até que cheguei à porta do céu, onde S. Pedro parecia, aguardar-me, cheio de riso.

— Guardaste para ti tesouros no céu ou na terra? perguntou-me.

Se crer em tesouros escondidos na terra é o mesmo que escondê-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que estão no morro do Castelo, como nos cento e cinqüenta contos fortes do homem que está preso em Valhadolide. São fortes; segundo o meu criado José Rodrigues, quer dizer que são trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mistério. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade; morri com ela, e agora mesmo ainda a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro, mas a crença nos tesouros do Castelo não a perdi. Imaginei a chegada da ordem que expulsava os jesuítas. Os padres do colégio não tinham tempo nem me os de levar as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterrâneo, venham os ricos cálices de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobrões, os vastos sacos cheios de moeda, cem, duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este Santo Inácio de ouro maciço, com olhos de brilhantes, dentes de pérolas, toca a esconder, a guardar, a fechar…

— Pára, interrompeu-me S. Paulo; falas como se estivesses a representar alguma cousa. A imaginação dos homens é perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem são os que se guardam no céu, onde a ferrugem os não come.

— Não era o dinheiro que me fascinava em vida, era o mistério. Eram os trinta ou quarenta milhões de cruzados escondidos, há mais de século, no Castelo; são os trezentos contos do preso de Valhadolide. O mistério, sempre o mistério.

— Sim, vejo que amas o mistério. Explicar-me-ás este de um grande número de almas que foram daqui para o Brasil e tornaram sem se poderem incorporar?

— Quando, divino apóstolo?

— Ainda agora.

— Há de ser obra de um médico italiano, um doutor … esperai… creio que Abel, um doutor Abel, sim Abel… É um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres. Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode já conceber; estão prontas.

— As pobres almas voltavam tristes e desconsoladas; não sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual é o fim do processo esterilizador? — Político. Diminuir a população brasileira, à proporção que a italiana vai entrando; idéia de Crispi, aceita por Giolitti, confiada a Abel …

— Crispi foi sempre tenebroso.

— Não digo que não; mas, em suma, há um fim político, e os fins políticos são sempre elevados … Panamá, que não tinha fim político …

— Adeus, tu és muito falador. O céu é dos grandes silêncios contemplativos.

Publicado originalmente, em 12.02.1893, na coluna A Semana.

A Caixa Econômica Federal, a política do branqueamento e a poupança dos escravos

Por Ana Maria Gonçalves*, do Blog do Idelber Avelar

São tanto mais de admirar e até de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de bom gosto, em suma de elegância, na vida e na arte de Machado de Assis, que elas são justamente as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito particularmente, aos mestiços como ele. […] Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra.”

O trecho acima é de um artigo do jornalista, professor, crítico e historiador literário José Veríssimo, em artigo no Jornal do Comércio, um mês depois da morte de Machado. Causou espanto em muita gente, inclusive em Joaquim Nabuco, que lhe enviou uma carta: “Seu artigo no jornal está belíssimo, mas essa frase causou-me arrepio: ‘Mulato, foi de fato um grego da melhor época’. Eu não teria chamado o Machado mulato [itálico no original] e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tornava [sic]; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória com a devassa sobre suas origens”. É interessante perceber que o que causa espanto a Nabuco é Veríssimo ter chamado Machado de mulato, e não ter dito que as qualidades de medida, tato, bom gosto e elegância, na vida e na arte, eram alheias aos mestiços como ele, um neto de escravos. Pensamento condizente com um governo brasileiro que discutia a nossa condenação ao atraso e à pobreza de espírito, adquirida via mestiçagem. A solução seria tentar reproduzir, nos trópicos, a pureza de sangue europeia, sonho de consumo antigo das elites portuguesa, na época do Brasil colônia, e brasileira, pelo que parece, até os dias atuais.

A ideia de embranquecimentos dos brasileiros é antiga, e muitos eram abolicionistas não por questões humanitárias, mas porque acreditavam ser necessário estancar o quanto antes a introdução de sangue negro entre os nacionais. Em um ensaio publicado em Lisboa, em 1821, o médico e filósofo Francisco Soares Filho aponta a heterogeneidade do Brasil como o grande empecilho para o país se tornar um Estado Moderno: “Hum povo composto de diversos povos não he rigorosamente uma Nação; he um mixto de incoherente e fraco”. O livro de Andreas Hofbauer, Uma história do branqueamento ou o negro em questão, transcreve vários trechos do artigo de Francisco Soares Filho, “Ensaio sobre os melhoramentos de Portugal e do Brasil”, entre os quais destaco o que fala da necessidade e das vantagens de se promover a miscigenação controlada:

Os africanos, sendo muito numerosos no Brasil, os seus mistiços o são igualmente; nestes se deve fundar outra nova origem para a casta branca. (…) Os mistiços conservarão só metade, ou menos, do cunho Africano; sua côr he menos preta, os cabellos menos crespos e lanudos, os beiços e nariz menos grossos e chatos, etc. Se elles se unem depois à casta branca, os segundos mistiços tem já menos da côr baça, etc. Se inda a terceira geração se faz com branca, o cunho Africano perde-se totalmente, e a côr he a mesma que a dos brancos; às vezes inda mais clara; só nos cabellos he que se divisa huma leve disposição para se encresparem. (…) E deste modo teremos outra grande origem de augmento da população dos brancos, e quasi extinção dos pretos e mistiços desta parte do Mundo; pelo menos serão tão poucos que não entrarão em conta alguma nas considerações do Legislador.”

Hofbauer também cita o artigo de António d’Oliva de Souza Sequeira, “Addição ao projeto para o estabelecimento politico do reino-unido de Portugal, Brasil e Algarves”, de 1821, no qual, além de reforçar as ideias do benefício da mestiçagem de seu conterrâneo, aponta a necessidade de promover a imigração: “Como o Brasil deve ser povoado da raça branca, não se concederão benefícios de qualidade alguma aos pretos, que queirão vir habitar no paiz. (…) E como havendo mistura da raça preta com a branca, (…) terá o Brasil, em menos de 100 annos todos os seus habitantes da raça branca. (…) Havendo casamentos de brancos com indígenas, acabará a côr cobre; e se quizerem apressar a extinção das duas raças, estabeleção-se premios aos brancos, que se casarem com pretas, ou indígenas na primeira e segunda geração: advertindo, que se devem riscar os nomes de “mulato, crioulo, cabôco” e “indígena”; estes nomes fazem resentir odios, e ainda tem seus ressaibos de escravidão (…) sejão todos ‘Portuguezes!”.

(Um breve parênteses: não sei se sou apenas eu que consigo ver semelhanças entre o discurso acima, de 1821, com o de “esqueçamos isso de brancos, negros, amarelos etc… somos todos Brasileiros!”, muito comumente encontrados em artigos de Ali Kamel, Demétrio Magnoli e Yvonne Maggie, por exemplo, apoiados pelo requentamento da teoria da mestiçagem, feito por Gilberto Freyre.)

A ideia de que, em 100 anos, os brasileiros seriam todos brancos, foi atualizada em 1911 por João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional. Nessa época o cientificismo já tinha biologizado o conceito de raça, e o racismo brasileiro se dividia entre duas correntes de pensamento. A segregacionista, que dizia que a mestiçagem já nos tinha posto a perder e que nunca seríamos uma nação desenvolvida; e a assimilacionista, que apostava na salvação através do processo de branqueamento, com imigrantes europeus. Apostando sempre no seu povo, essa última tornou-se a posição oficial do governo brasileiro, que tentava vender, no exterior, a ideia de um país com grande futuro à espera dos europeus; ou à espera de europeus, para ser mais exata. Participávamos de feiras e congressos internacionais, disputando imigrantes com Argentina, Chile e Estados Unidos, e o discurso de Lacerda, representante brasileiro no I Congresso Universal de Raças, em Londres, tenta aplacar o medo dos europeus de compartilharem o Brasil com uma raça inferior: “(…) no Brasil já se viram filhos de métis (mestiços) apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca […]. Alguns retêm uns poucos traços da sua ascendência negra por influência dos atavismos (…) mas a influência da seleção sexual (…) tende a neutralizar a do atavismo, e remover dos descendentes dos métis todos os traços da raça negra (…) Em virtude desse processo de redução étnica, é lógico esperar que no curso de mais um século os métis tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso meio“.

A elite intelectual brasileira, formada por literatos, políticos, cientistas e empresários, indignada com as declarações do diretor do Museu Nacional, foi debater nos jornais e revistas. Alguns clamavam que 100 anos era um absurdo de tempo, que o apagamento do negro se daria em muito menos. Outros debochavam do otimismo de Lacerda, como o escritor Silvio Romero, que acreditava que o processo, que todos concordavam ser irreversível, levaria, pelo menos, uns seis ou oito séculos. Mas todos concordavam que era apenas uma questão de tempo, desde que o Brasil continuasse a promover a entrada de brancos europeus, a não fazer nada para integrar os negros que já estavam no país ou para baixar a taxa de mortalidade entre eles, e a dificultar a entrada de novos africanos. De fato, o governo brasileiro financiou a vinda de imigrantes europeus, não fez absolutamente nada que ajudasse escravos e libertos e proibiu a entrada de africanos. Um decreto de 28 de junho de 1890 diz que estava proibida a entrada de africanos no Brasil, e é reforçado por outros em 1920 e 1930, quando os banidos não necessariamente precisam ser africanos, mas apenas parecer. Em 1945, um decreto lei não mais proíbe, mas diz que:

Art. 1o – Todo estrangeiro poderá entrar no Brasil desde que satisfaça as condições estabelecidas por essa lei.

Art. 2o – Atender-se-á, na admissão de imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia, assim como a defesa do trabalhador nacional.

Imigração europeia

Tal decreto, me parece que foi revogado apenas em 1980. Mas as “características mais convenientes” da nossa ascendência europeia ainda são as desejáveis e estimuladas pelo governo, como nos mostra, exatamente 100 anos depois do pronunciamento de João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional, esse comercial da Caixa Econômica Federal (ver comercial do mês de setembro).

O fato mais visível é o branqueamento de Machado de Assis. Sobre esse assunto, que é longo e complexo, sugiro a entrevista com o professor Eduardo de Assis Duarte e, para quem quiser se aprofundar um pouco mais, a leitura de seu livro “Machado de Assis Afrodescendente: escritos de caramujo.” Veríssimo, atendendo ao apelo de Nabuco, nunca incluiu o artigo em seus livros; e para acabar com qualquer dúvida quanto à mulatice, a certidão de óbito de Joaquim Maria Machado de Assis diz que o grande escritor, da “cor branca”, faleceu de “arteriosclerose”. Questionada pelo ato falho, a assessoria de imprensa da Caixa se manifestou, dizendo que “o banco sempre se notabilizou pela sua atuação pautada nos princípios da responsabilidade social e pelo respeito à diversidade. Portanto, a Caixa sempre busca retratar em suas peças publicitárias toda a diversidade racial que caracteriza o nosso país”. Mas há também outro fato interessante no universo europeizado do comercial: no Rio de Janeiro de 1908, circulam apenas brancos. O comercial, assinado por “Caixa – 150 anos” e “Governo Federal – País rico é país sem pobreza”, apaga completamente as presenças negra e mestiça da capital federal do início do século. Tais atitudes colocam o governo como propagador e vítima das políticas oficiais de branqueamento da população e de ensino deficiente, voltado para o descaso com o esquecimento do passado escravocrata brasileiro. Tivessem os profissionais envolvidos na criação, produção e aprovação de tal comercial estudado um pouco mais a vida dos africanos no Brasil, não teriam cometido erros tão banais. E tão graves, porque em nome de um governo e de uma instituição que diz ter uma história construída por todos os brasileiros, mas que parece, nesse caso, retratar apenas aqueles brasileiros que sempre foram mais brasileiros do que os outros. A nossa desigualdade entre iguais.

Tivessem esses profissionais dado uma olhada nos levantamentos demográficos da época (embora “raça” não tenha entrado nas estatísticas entre 1890 e 1940 – porque “éramos todos brasileiros”…) ou nas crônicas publicadas em jornais e revistas da época, ou o interesse de conhecerem um pouco melhor o assunto em questão, saberiam que a população negra e mestiça do Rio de Janeiro deveria ser, no mínimo, 30 e 40% do total, mas aparentava ser muito mais. A então capital federal, onde já era numerosa a presença de escravos e libertos, recebeu grandes contingentes de negros e mulatos após a assinatura da Lei Áurea, chegados das áreas rurais e de diversas partes do Brasil. Eles eram, então, a maioria a circular pelas ruas, em busca de emprego, que não havia, ou fazendo bicos, tentando se adaptar à nova realidade. Uma “sociedade movediça e dolorosa”, como nos contam as crônicas de João do Rio, entre tantas outras tão fáceis quantos de achar, caso houvesse interesse.

E por falar em “movediça e dolorosa”, é interessante também perceber como o governo retrata os escravos em outro comercial (ver mês de maio) referente à comemoração dos 150 anos da Caixa, o “Libertos”.

O comercial nos faz acreditar que a “poupança dos escravos” havia sido uma iniciativa progressista da Caixa quando, na verdade, foi um retrocesso nas “leis informais” que regulavam as iniciativas de compra de liberdade, e uma forma de o governo brasileiro, já no final da escravidão, lucrar um pouco mais com a exploração do trabalho escravo. Há um estudo interessante sobre essa poupança, A poupança: alternativas para a compra da alforria no Brasil (2ª metade do Século XIX), da historiadora e professora Keila Grinberg, que vou tentar resumir aqui, em meio a outras informações. É importante entender o cenário em que a “poupança dos escravos” foi lançada.

Após a Revolução Industrial, a Inglaterra buscava novos mercados consumidores para seus produtos e, vendo a escravidão com um dos grandes entraves, promulgou unilateralmente o Slave Trade Suppression Act de 1845, conhecido no Brasil como Bill Aberdeen. O ato considerava como sendo pirataria o comércio de escravos entre a África e as Américas, e a Inglaterra poderia abordar qualquer navio em atividade suspeita e liberar a carga humana. Muitos desses africanos foram levados para colônias inglesas no Caribe, onde trabalharam sob condições bem parecidas com a escravidão. Vários navios brasileiros foram aprendidos e destruídos, gerando uma série de incidentes diplomáticos que, em conjunção com outros fatores, levaram o Brasil a parar com o tráfico. Na verdade, a pressão era para que o Brasil obedecesse a Lei Feijó, também conhecida como “lei para inglês ver”, promulgada em 7 de novembro de 1831, que dizia:

A Regência, em nome do Imperador o Senhor Dom Pedro Segundo, faz saber a todos os súditos do Império, que a Assembléia Geral decretou, e ela sancionou a Lei seguinte:

Art. 1º. Todos os escravos que entrarem no território ou portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres.

Essa lei nunca foi obedecida e precisou ser reforçada com a Lei Eusébio de Queirós, aprovada em 4 de setembro de 1850:

Art. 1: As embarcações brasileiras encontradas em qualquer parte, e as estrangeiras encontradas nos portos, enseadas, ancoradouros ou mares territoriais do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação é proibida pela lei de 7 de novembro de 1831, ou havendo-os desembarcado, serão apreendidas pelas autoridades, ou pelos navios de guerra brasileiros, e consideradas importadoras de escravos. Aquelas que não tiverem escravos a bordo, nem os houverem proximamente desembarcado, porém que se encontrarem com os sinais de se empregarem no tráfego de escravos, serão igualmente apreendidas e consideradas em tentativa de importação de escravos.

Inicialmente, a Lei Eusébio de Queirós também teve pouquíssimo efeito, fazendo inclusive com que o tráfico se intensificasse. Como a vida útil de um escravo era curta, e as condições dos cativeiros brasileiros nunca foram ideais para a reprodução, como acontecia, por exemplo, nos EUA, os exploradores de trabalho escravo trataram de garantir um bom estoque de peças, começando a pensar, inclusive, que a escravidão, algum dia, poderia ter fim. Quando a Inglaterra intensificou o controle nos mares, começou então o aumento do comércio interno, com as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, ancoradas na lucrativa economia cafeeira, importando peças do norte e nordeste. Possuir escravos que se tornavam cada vez mais caros, então, começou a ser coisa de “gente grande”, com a diminuição da entrada de peças de reposição e a crescente demanda da indústria cafeeira, base da economia brasileira da ápoca. O Brasil passava por grandes transformações, e outras duas leis importantes também foram promulgadas em 1850, a Lei das Terras e a lei do Código Comercial, ambas com profundas ligações com a escravatura.

Começando a se pensar pela primeira vez em um Brasil sem escravos, a Lei das Terras defendia os interesses dos grandes latifundiários, garantindo-lhes o direito de regularizar a posse das terras que ocupavam. As terras não ocupadas passaram a ser do Estado e só poderiam ser adquiridas em leilões, com pagamento à vista, impossibilitando que ex-escravos (e possíveis colonos, porque já se discutia uma política de imigrações), quando libertados, se tornassem proprietários através de ocupações.

O Código Comercial regulamentava a criação de sociedades anônimas e comerciais, uma necessidade por causa das reorientações na economia brasileira. Não tendo mais condições de comprar escravos, a gente “média” e “miúda” começou a ter outras necessidades de crédito e a se interessar por outros bens de consumo, aumentando a importação de bens estrangeiros. Em 1851, por exemplo, surgiu no Rio de Janeiro o Banco do Commercio e da Indústria que, junto com outros bancos, passou a receber depósitos e a emprestar dinheiro. Foi esse banco que, em 1853, depois de uma fusão com o Banco Commercial do Rio de Janeiro, deu origem ao Banco do Brasil. Segundo Keila Grinberg, “(…) Com isso, o crescimento das atividades comerciais no país, devido principalmente à prosperidade dos negócios do café, foi facilitado pelo aumento da emissão de moeda, e pela autorização, por parte do governo imperial, da realização de várias operações comerciais pelos bancos”. Em 1857 já havia vários bancos oferecendo esses serviços, mas a crise no setor cafeeiro e o grande número de instituições privadas, levou o governo a centralizar a atividade bancária, principalmente as de poupança e crédito, através da Lei dos Entraves, de 1860. Foi através dessa lei que o Governo Imperial criou a Caixa Econômica, que entrou em atividade em 1861 como o primeiro banco que receberia “as pequenas economias das classes menos abastadas”, nos moldes de várias instituições privadas de grande sucesso nos EUA e na Europa.

As Caixas prestariam os serviços de depósito em poupança e de empréstimos tendo como garantia a penhora de bens. Com isso, o governo buscava “centralizar no Estado as economias dos poupadores, de pequenos a grandes, de modo que o montante arrecadado pudesse contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país, como aconteceu nos Estados Unidos, onde a poupança alavancou o investimento em ferrovias, centros de tratamento de água e esgoto e canais”. A princípio, a arrecadação não foi muito grande, ao contrário da procura por empréstimos, e só melhorou um pouco a partir de 1864, com a quebra de várias instituições concorrentes.

A Lei do Ventre Livre, de 1871, reconheceu, entre outras coisas, o direito do escravo formar pecúlio. Na verdade isso já acontecia havia muito tempo. Escravos se reuniam em associações (Juntas ou Irmandades) auto-regulamentadas e contribuiam para um fundo comum que, entre outras coisas, servia para a compra de cartas de alforrias de seus associados. A novidade da lei é que, diferente do que acontecia antes, se o escravo tivesse dinheiro suficiente a carta de alforria não poderia mais ser negada pelo seu dono. A Caixa Econômica então passou a aceitar depósitos de escravos, mas a caderneta de poupança teria que ser aberta em nome dos seus donos, porque o decreto de fundação, de 1861, dizia:

“Não serão admittidos, como depositantes ou abonadores, os menores, escravos, e mais indivíduos que não tiverem a livre administração de sua posse e bens”

E para que o escravo tivesse certeza disso, de que não era dono daquele dinheiro e daquela “poupança do escravo”, Keila Grinberg nos conta que “todas as cadernetas de escravos eram riscadas onde aparecia a palavra ‘senhor’ antes do espaço destinado à redação do nome do poupador. Para que não restasse dúvidas de que poupar não fazia de nenhum escravo, um senhor.

Isso significa que a “poupança dos escravos” criada pela Caixa Econômica Federal não é nenhuma novidade entre as modalidades de se juntar dinheiro para a compra da carta de alforria, e ainda é um retrocesso, no sentido de proibir depósitos em nome de escravos. Caixas Econômicas não estatais, surgidas na década de 1830 na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro, seguindo o modelo das caixas existente em outros países escravistas das Américas, não tinham essa proibição. Então, o que a Caixa Econômica Federal fez, em 1872, ao oficializar a “poupança dos escravos”, foi permitir e reafirmar que o controle do dono sobre o escravo, com a tutela do Estado, fosse exercido inclusive sobre algo que, de comum acordo entre dono e escravo poderia ficar, anteriormente, sob a responsabilidade do escravo. Antes de oficializar essa proibição, inclusive, a própria Caixa “aceitava” depósitos de escravos, como prova a existência da caderneta de poupança de número 12.729: “mesmo à margem da lei, entre 1867 e 1869, a escrava Luiza depositou religiosamente 5 mil réis por mês com o aval de D. Antonia Luiza Simonsen, sua senhora’, escreve Grinberg. A poupança dos escravos de ganho coloca-os novamente sob a tutela de seus senhores.

Escravos de ganho nas ruas do Rio, por Debret

Luiz Carlos Soares nos dá uma ideia da vida de um escravo de ganho no Rio de Janeiro, em sua tese “Urban Slavery in Nineteenth Century Rio de Janeiro”: “Uma parcela considerável desses cativos [que andavam pelas ruas do Rio] era constituída pelos escravos de ganho. Estes desenvolviam as mais diversas modalidades de comércio ambulante, carregando as suas mercadorias em cestos e tabuleiros à cabeça, ou transportavam, sozinhos ou em grupos, os mais variados tipos de cargas, ou ainda ofereciam os seus serviços em quaisquer eventualidades, até mesmo no transporte de pessoas em seus ombros pelas ruas da cidades nos dias chuvosos ou carregando em suas cabeças barris com os dejetos das residências que à noite eram jogados ao mar.” Profissões mais especializadas, como sapateiros, barbeiros, joalheiros, ou até mesmo mendicância e prostituição, estavam entre as atividades exercidas pelos escravos de ganho. São esses os escravos retratados no comercial “Liberdade” da Caixa, todos saudáveis, “higienizados”, sorridentes e bem tratados. A realidade, no entanto, era bem outra. Alguns realmente conseguiam se dar bem, sendo capazes de juntar boa quantidade de dinheiro; mas eram exceções. O que valia a pena, nessa modalidade, era o escravo ter um pouco mais de liberdade em relação aos escravos rurais ou domésticos, sob maior vigilância. Os escravos de ganho eram mandados para a rua por seus senhores, onde deveriam trabalhar para pagar o “jornal”, ou seja, uma quantia diária, semanal ou mensal estipulada pelo dono. Era o excedente desse jornal, se houvesse, que os escravos poderiam poupar para empregar no que bem quisessem, desde o complemento à alimentação deficiente, roupas, aluguel de um cômodo para morar longe do senhor, ou a carta de alforria. E era esse excedente que, em nome do dono, poderia ser depositado na “poupança dos escravos”, na esperança de, um dia, ser suficiente para comprar a liberdade; o que se tornava cada vez mais difícil.

A partir de 1850, com a venda maciça de escravos para as zonas cafeeiras, o número de escravos diminuiu consideravelmente na cidade do Rio de Janeiro. O recenseamento realizado em 1872, ano de lançamento da poupança de escravos, conta que eles eram, ao todo, 37.567, dos quais 5.785 eram criados (escravos de aluguel para serviços domésticos) e jornaleiros (de ganho). Escravos de ganho já não eram bom negócio. Em alguns setores mais lucrativos, como o de transporte, eles estavam perdendo espaço para trabalhadores livres, melhor organizados e de melhor aparência; em sua maioria imigrantes pobres portugueses. Esse é o cenário quando a Caixa Econômica Federal decide aceitar dinheiro de trabalho escravo – desde que em nome do donos, é sempre bom lembrar -. Com a alta sucessiva do preço, e com seus donos usando métodos legais e ilegais para manter os escravos que possuíam, as compras de cartas de alforria se tornaram raríssimas depois da Lei de 1871. “Que não restem dúvidas: a alforria custava caro. Para se ter uma ideia, entre 1860 e 1865 o preço médio pago por um escravo para ficar livre variou entre 1:350.000 réis e 1:400.000 réis, mas chegou a mais de 1:550.000 réis em 1862. Evaristo, depois de três anos de poupança acumulou irrisórios 8.100 réis. Luiza, aquela que depositava com consentimento da sua senhora Antonia Luiza Simonsen, chegou a pouco mais de 200.000 réis”, lembra Grinberg.

Provavelmente, foram raríssimos os que conseguiram comprar suas cartas de alforria através das cadernetas dos escravos, como a escrava Joana do comercial. Aplicados no banco, os recursos destinados à compra de sonho serviam para aumentar os lucros da Caixa que, segundo o estatuto de criação, podia utilizar o dinheiro das poupanças para fazer empréstimos, a juros, através do Monte de Socorro, com as penhoras. Talvez isso também pudesse ser chamado de exploração de mão de obra escrava. Da qual, hoje, a Caixa se orgulha, a ponto de apresentar como um dos grandes feitos a ser comemorado em seus 150 anos de existência. Ironicamente, ou não – pois realmente quero acreditar que é fruto da profunda ignorância histórica e da falta de sensibilidade -, o confessional foi exibido no mês de maio, para ser potencializado e remetido à Lei Áurea. Coisas da propaganda, que talvez pudesse ser usada para nos responder duas perguntas:

– O que foi feito do dinheiro dessas cadernetas de poupança quando aconteceu a abolição? O dinheiro era dos escravos, o excedente do que tinham que pagar ao dono, mas não estava no nome deles. Eles conseguiram recuperar essas economias?

– Em 1872, quando foi criada a “caderneta dos escravos”, dirigida aos escravos de ganho, já fazia 41 anos que o tráfico atlântico de escravos estava proibido. Visto que a maioria dos escravos de ganho era composta por africanos (Luiz Carlos Soares nos informa que, na segunda metade do XIX, na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, dos 2.869 pedidos de concessão de licença para trabalhar ao ganho, 2.195 eram para africanos), a Caixa, antes de aceitar a abertura das cadernetas, checava se tinham entrado legalmente no Brasil (é bom lembrar que, em 1900, a expectativa de vida do brasileiro era de 33,4 anos, sendo a dos escravos bem menor que a dos não-escravos), ou era cúmplice dos que tinham sequestrado, capturado e mantido ilegalmente africanos em cárcere privado e trabalhos forçados, conforme as leis de 1831 e 1850?

Seria bom que a Caixa Econômica Federal investigasse a possibilidade de ter cometido erros e, se for o caso, se retratasse. Pelo branqueamento de Machado e por ter lucrado, talvez ilegalmente, com o dinheiro dos escravos, e fazer disso motivo de orgulho. Se não por toda a população afrodescendente brasileira, pelos seus mais de 14.000 funcionários homenageados em um belíssimo comercial comemorando o Dia da Consciência Negra.

Para que eles não se sintam usados. Para que nós não nos sintamos enganados por meras e belas campanhas de marketing. Para que este país comece a conhecer e respeitar sua História. Para que as palavras de sua assessoria não sejam propaganda enganosa: “O banco sempre se notabilizou pela sua atuação pautada nos princípios da responsabilidade social e pelo respeito à diversidade.” Que assim seja!

* Ana Maria Gonçalves é autora do romance Um defeito de cor.

Quase ministro

 

Nestes tempos de escolhas e cotações para o ministério do próximo governo, publico uma pequena comédia de Machado de Assis. Nesta peça mais literária do que teatral, o bruxo do Cosme Velho zomba das moscas de padaria do poder: o articulista de jornais, o poeta sem talento, o genial inventor de coisa alguma, e por aí vai. Ao final, uma moralidade atemporal.

Boa leitura!

QUASE MINISTRO

de Machado de Assis

Comédia em 1 ato

 

 

NOTA PRELIMINAR

Esta comédia foi expressamente escrita para ser representada em um sarau literário e artístico dado a 22 de novembro do ano passado (1862), em casa de alguns amigos na rua da Quitanda. […]

PERSONAGENS

LUCIANO MARTINS, deputado

Dr. SILVEIRA

JOSÉ PACHECO

CARLOS BASTOS

MATEUS

LUIZ PEREIRA

MÜLLER

AGAPITO

Ação – Rio de Janeiro

EM CASA DE MARTINS

Sala elegante

CENA I

MARTINS, SILVEIRA

SILVEIRA (entrando) – Primo Martins, abraça este ressuscitado!

MARTINS – Como assim!

SILVEIRA – Não imaginas. Senta-te, senta-te. Como vai a prima!

MARTINS – Está boa. Mas que foi!

SILVEIRA – Foi um milagre. Conheces aquele meu alazão!

MARTINS – Ah! basta; história de cavalos… que mania!

SILVEIRA – É um vício, confesso. Para mim não há outros: nem fumo, nem mulheres, nem jogo, nem vinho; tudo isso que muitas vezes se encontra em um só homem, reuni-o eu na paixão dos cavalos; mas é que não há nada acima de um cavalo soberbo, elegante, fogoso. Olha, eu compreendo Calígula.

MARTINS – Mas, enfim…

SILVEIRA – A história! É simples. Conheces o meu Intrépido! É um lindo alazão! Pois ia eu a pouco, comodamente montado, costeando a praia de Botafogo; ia distraído, não sei em que pensava. De repente, um tílburi, que vinha em frente, esbarra e tomba. O Intrépido espanta-se; ergue as patas dianteiras, diante da massa que ficara defronte, donde saíam gritos e lamentos. Procurei contê-lo, mas qual! Quando dei por mim rolava muito prosaicamente na poeira. Levantei-me a custo; todo o corpo me doía; mas enfim pude tomar um carro e ir mudar de roupa. Quanto ao alazão, ninguém deu por ele; deitou a correr até agora.

MARTINS – Que maluco!

SILVEIRA – Ah! mas as comoções… E as folhas amanhã contando o fato: “DESASTRE. – Ontem, o jovem e estimado Dr. Silveira Borges, primo do talentoso deputado Luciano Alberto Martins, escapou de morrer… etc.” Só isto!

MARTINS – Acabaste a história do teu desastre!

SILVEIRA – Acabei.

MARTINS – Ouve agora o meu.

SILVEIRA – Estás ministro, aposto!

MARTINS – Quase.

SILVEIRA – Conta-me isto. Eu já tinha ouvido falar na queda do ministério.

MARTINS – Faleceu hoje de manhã.

SILVEIRA – Deus lhe fale n’alma!

MARTINS – Pois creio que vou ser convidado para uma das pastas.

SILVEIRA – Ainda não foste!

MARTINS – Ainda não; mas a coisa já é tão sabida na cidade, ouvi isto em tantas partes, que julguei dever voltar para casa à espera do que vier.

SILVEIRA – Muito bem! Dá cá um abraço! Não é um favor que te fazem; mereces, mereces… Ó primo, eu também posso servir em alguma pasta!

MARTINS – Quando houver uma pasta dos alazões… (Batem palmas). Quem será!

SILVEIRA – Será a pasta!

MARTINS – Vê quem é.

(Silveira vai à porta. Entra Pacheco).

CENA II

Os mesmos, José Pacheco

PACHECO – V. Excia. dá-me licença?

MARTINS – Pode entrar.

PACHECO – Não me conhece?

MARTINS – Não tenho a honra.

PACHECO – José Pacheco.

MARTINS – José…

PACHECO – Estivemos há dois dias juntos em casa do Bernardo. Fui-lhe apresentado por um colega da Câmara.

MARTINS – Ah! (A Silveira, baixo). Que me quererá?

SILVEIRA (baixo) – Já cheiras a ministro.

PACHECO (sentando-se) – Dá licença?

MARTINS – Pois não (Senta-se).

PACHECO – Então que me diz à situação! Eu já previa isto. Não sei se teve a bondade de ler uns artigos meus assinados – Armand Carrel. Tudo o que acontece hoje está lá anunciado. Leia-os e verá. Não sei se os leu!

MARTINS – Tenho uma idéia vaga.

PACHECO – Ah! pois então há de lembrar-se de um deles, creio que é o IV, não, é o V. Pois nesse artigo está previsto o que acontece hoje, tim tim por tim tim.

SILVEIRA – Então V. S. é profeta!

PACHECO – Em política, ser lógico é ser profeta. Apliquem-se certos princípios a certos fatos, a conseqüência é sempre a mesma. Mas é mister que haja os fatos e os princípios…

SILVEIRA – V. S. aplicou-os!…

PACHECO – Apliquei, sim, senhor, e adivinhei. Leia o meu V artigo e verá com que certeza matemática pintei a situação atual. Ah! ia-me esquecendo (a Martins), receba V. Excia. os meus sinceros parabéns.

MARTINS – Por que?

PACHECO – Não foi chamado para o ministério?

MARTINS – Não estou decidido.

PACHECO – Na cidade não se fala em outra coisa. É uma alegria geral. Mas, por que não está decidido? Não quer aceitar?

MARTINS – Não sei ainda.

PACHECO – Aceite, aceite! É digno; e digo mais, na atual situação, o seu concurso pode servir de muito.

MARTINS – Obrigado.

PACHECO – É o que lhe digo. Depois dos meus artigos; principalmente o V, não é lícito a ninguém recusar uma pasta, só se absolutamente não quiser servir o país. Mas nos meus artigos está tudo, é uma espécie de compêndio. De mais, a situação é nossa; nossa, repito, porque eu sou do partido de V. Excia.

MARTINS – É muita honra.

PACHECO – Uma vez que se compenetre da situação, está tudo feito. Ora, diga-me, que política pretende seguir?

MARTINS – A do nosso partido.

PACHECO – É muito vago isso. O que eu pergunto é se pretende governar com energia ou com moderação. Tudo depende do modo. A situação exige um, mas o outro também pode servir…

MARTINS – Ah!

SILVEIRA (à parte) – Que maçante!

PACHECO – Sim, a energia é… é isso, a moderação, entretanto… (Mudando o tom). Ora, sinto deveras que não tivesse lido os meus artigos, lá vem tudo isso.

MARTINS – Vou lê-los… Creio que já os li, mas lerei segunda vez. Estas coisas devem ser lidas muitas vezes.

PACHECO – Não tem duvida, como os catecismos. Tenho escrito outros muitos; há doze anos que não faço outra coisa; presto religiosa atenção aos negócios do Estado e emprego-me em prever as situações. O que nunca me aconteceu foi atacar ninguém; não vejo as pessoas, vejo sempre as idéias. Sou capaz de impugnar hoje os atos de um ministro e ir amanhã almoçar com ele.

SILVEIRA – Vê-se logo.

PACHECO – Está claro!

MARTINS (baixo a Silveira) – Será tolo ou velhaco?

SILVEIRA (baixo) – Uma e outra coisa. (Alto) Ora, não me dirá, com tais disposições, por que não segue a carreira política? Por que se não propõe a uma cadeira no parlamento?

PACHECO – Tenho meu amor próprio, espero que ma ofereçam.

SILVEIRA – Talvez receiem ofendê-lo.

PACHECO – Ofender-me?

SILVEIRA – Sim, a sua modéstia…

PACHECO – Ah! modesto sou; mas não ficarei zangado.

SILVEIRA – Se lhe oferecerem uma cadeira… está bom. Eu também não; nem ninguém. Mas eu acho que se devia propor; fazer um manifesto, juntar os seus artigos, sem faltar o V…

PACHECO – Esse principalmente. Cito aí boa soma de autores. Eu, de ordinário, cito muitos autores.

SILVEIRA – Pois é isso, escreva o manifesto e apresente-se.

PACHECO – Tenho medo da derrota.

SILVEIRA – Ora, com as suas habilitações…

PACHECO – É verdade, mas o mérito é quase sempre desconhecido, e enquanto eu vegeto nos – a pedidos dos jornais, vejo muita gente chegar à cumeeira da fama. (A Martins). Ora, diga-me, o que pensará V. Excia. quando eu lhe disser que redigi um folheto e que vou imprimi-lo?

MARTINS – Pensarei que…

PACHECO (metendo a mão no bolso) –Aqui lho trago (tira um rolo de papel). Tem muito que fazer?

MARTINS – Alguma coisa.

SILVEIRA – Muito, muito.

PACHECO – Então não pode ouvir o meu folheto?

MARTINS – Se me dispensasse agora…

PACHECO – Pois sim, em outra ocasião. Mas, em resumo, é isto: trato dos meios de obter uma renda três vezes maior do que a que temos sem lançar mão de empréstimos, e mais ainda, diminuindo os impostos.

SILVEIRA – Oh!

PACHECO (guardando o rolo) – Custou-me muitos dias de trabalho, mas espero fazer barulho.

SILVEIRA (À parte) – Ora espera… (Alto) Mas então, primo…

PACHECO – Ah! é primo de V. Excia.?

SILVEIRA – Sim, senhor.

PACHECO – Logo vi, há traços de família; vê-se que é um moço inteligente. A inteligência é o principal traço da família de Vs. Excias. Mas dizia…

SILVEIRA – Dizia ao primo que vou decididamente comprar uns cavalos do Cabo magníficos. Não sei se os viu já. Estão na cocheira do major…

PACHECO – Não vi, não, senhor.

SILVEIRA – Pois, senhor, são magníficos! É a melhor estampa que tenho visto, todos do mais puro castanho, elegantes, delgados, vivos. O major encomendou trinta; chegaram seis; fico com todos. Vamos nós vê-los?

PACHECO (aborrecido) – Eu não entendo de cavalos. (Levanta-se). Hão de dar-me licença. (A Martins) V. Excia. janta às cinco?

MARTINS – Sim, senhor, quando quiser…

PACHECO – Ah! hoje mesmo, hoje mesmo. Quero saber se aceitará ou não. Mas se quer um conselho de amigo, aceite, aceite. A situação está talhada para um homem como V. Excia. Não a deixe passar. Recomendações a toda a sua família. Meus senhores. (Da porta). Se quer, trago-lhe uma coleção dos meus artigos?

MARTINS – Obrigado, cá os tenho.

PACHECO – Bem, sem mais cerimônia.

CENA III

Martins, Silveira

MARTINS – Que me dizes a isto?

SILVEIRA – É um parasita, está claro.

MARTINS – E virá jantar?

SILVEIRA – Com toda a certeza.

MARTINS – Ora esta!

SILVEIRA – É apenas o começo; não passas ainda de um quase-ministro. Que acontecerá quando o fores de todo?

MARTINS – Tal preço não vale o trono.

SILVEIRA – Ora, aprecia lá a minha filosofia. Só me ocupo dos meus alazões, mas quem se lembra de me vir oferecer artigos para ler e estômagos para alimentar? Ninguém. Feliz obscuridade!

MARTINS – Mas a sem-cerimônia.

SILVEIRA – Ah! querias que fossem acanhados? São lestos, desembaraçados, como em suas próprias casas. Sabem tocar a corda.

MARTINS – Mas, enfim, não há muitos como este. Deus nos livre! Seria uma praga! Que maçante! Se não lhe falas em cavalos ainda aqui estava! (Batem palmas). Será outro?

SILVEIRA – Será o mesmo?

CENA IV

Os mesmos, Carlos Bastos

BASTOS – Meus senhores…

MARTINS – Queira sentar-se. (Sentam-se). Que deseja?

BASTOS – Sou filho das musas.

SILVEIRA – Bem, com licença.

MARTINS – Onde vais?

SILVEIRA – Vou lá dentro falar à prima.

MARTINS (baixo) – Presta-me o auxílio dos teus cavalos.

SILVEIRA (baixo) – Não é possível, este conhece o Pégaso. Com licença.

CENA V

Martins, Bastos

BASTOS – Dizia eu que sou filho das musas… Com efeito, desde que me conheci, achei-me logo entre elas. Elas me influíram a inspiração e o gosto da poesia, de modo que, desde os mais tenros anos, fui poeta.

MARTINS – Sim, senhor, mas…

BASTOS – Mal comecei a ter entendimento, achei-me logo entre a poesia e a prosa, como Cristo entre o bom e o mau ladrão. Ou devia ser poeta, conforme me pedia o gênio, ou lavrador, conforme meu pai queria. Segui os impulsos do gênio; aumentei a lista dos poetas e diminui a dos lavradores.

MARTINS – Porém…

BASTOS – E podia ser o contrário? Há alguém que fuja á sua sina? V. Excia. não é um exemplo? Não se acaba de dar às suas brilhantes qualidades políticas a mais honrosa sanção? Corre ao menos por toda a cidade.

MARTINS – Ainda não é completamente exato.

BASTOS – Mas há de ser, deve ser. (Depois de uma pausa). A poesia e a política acham-se ligadas por um laço estreitíssimo. O que é a política? Eu a comparo a Minerva. Ora, Minerva é filha de Júpiter, como Apolo. Ficam sendo, portanto, irmãos. Deste estreito parentesco nasce que a minha musa, apenas soube do triunfo político de V. Excia., não pude deixar de dar alguma cópia de si. Introduziu-me na cabeça a faísca divina, emprestou-me as suas asas e arrojou-me até onde se arrojava Pindaro. Há de me desculpar, mas agora mesmo parece-me que ainda por lá ando.

MARTINS (á parte) – Ora dá-se.

BASTOS – Longo tempo vacilei; não sabia se devia fazer uma ode ou um poema. Era melhor o poema, por oferecer um quadro mais largo, e poder assim conter mais comodamente todas as ações grandes da vida de V. Excia.; mas, um poema só deve pegar do herói quando ele morre; e Vossa Excia., por fortuna nossa, ainda se acha entre os vivos. A ode prestava-se mais, era mais curta e mais própria. Desta opinião foi a musa que me inspirou a melhor composição que até hoje tenho feito. V. Excia. vai ouvi-la. (Mete a mão no bolso).

MARTINS – Perdão, mas agora não me é possível.

BASTOS – Mas…

MARTINS – Dê cá; lerei mais tarde. Entretanto, cumpre-me dizer que ainda não é cabida, porque ainda não sou ministro.

BASTOS – Mas há de ser, deve ser. Olhe, ocorre-me uma coisa. Naturalmente hoje à tarde já isso está decidido. Seus amigos e parentes virão provavelmente jantar com V. Excia.; então no melhor da festa, entre a pêra e o queijo, levanto-me eu, como Horácio à mesa de Augusto, e desafio a minha ode! Que acha? É muito melhor, é muito melhor.

MARTINS – Será melhor não a ler; pareceria encomenda.

BASTOS – Oh! modéstia! Como assenta bem em um ministro!

MARTINS – Não é modéstia.

BASTOS – Mas quem poderá supor que seja encomenda? O seu caráter de homem público repele isso, tanto quanto repele o meu caráter de poeta. Há de se pensar o que realmente é: homenagem de um filho das musas a um aluno de Minerva. Descanse, conte com a sobremesa poética.

MARTINS – Enfim…

BASTOS – Agora, diga-me, quais são as dúvidas para aceitar esse cargo?

MARTINS – São secretas.

BASTOS – Deixe-se d’isso; aceite, que é o verdadeiro. V. Excia. deve servir o país. É o que eu sempre digo a todos… Ah! não sei se sabe: de há cinco anos a esta parte, tenho sido cantor de todos os ministérios. É que, na verdade, quando um ministério sobe ao poder, há razões para acreditar que fará a felicidade da nação. Mas nenhum a fez; este há de ser exceção: V. Excia. está nele e há de obrar de modo que mereça as bênçãos do futuro. Ah! os poetas são um tanto profetas.

MARTINS (levantando-se) – Muito obrigado. Mas há de me desculpar. (Vê o relógio). Devo sair.

BASTOS (levantando-se) – Eu também saio e terei muita honra de ir à ilharga de V. Excia.

MARTINS – Sim… mas, devo sair daqui a pouco.

BASTOS (sentando-se) – Bem, eu espero.

MARTINS – Mas é que eu tenho de ir para o interior de minha casa escrever umas cartas.

BASTOS – Sem cerimônia. Sairemos depois e voltaremos… V. Excia. janta às cinco?

MARTINS – Ah! quer esperar?

BASTOS – Quero ser dos primeiros que o abracem, quando vier a confirmação da notícia; quero, antes de todos, estreitar nos braços o ministro que vai salvar a nação.

MARTINS (meio zangado) – Pois fique, fique.

CENA VI

Os mesmos, Mateus

MATEUS – É um criado de V. Excia.

MARTINS – Pode entrar.

BASTOS (à parte) – Será algum colega? Chega tarde!

MATEUS – Não tenho a honra de ser conhecido por V. Excia., mas, em poucas palavras, direi quem sou…

MARTINS – Tenha a bondade de sentar-se.

MATEUS (vendo Bastos) – Perdão; está com gente; voltarei em outra ocasião.

MARTINS – Não, diga o que quer, este senhor vai já.

BASTOS – Pois não! (À parte) Que remédio! (Alto) Às ordens de V. Excia.; até logo… não me demoro muito.

CENA VII

MARTINS, MATEUS

MARTINS – Estou às suas ordens.

MATEUS – Primeiramente deixe-me dar-lhe os parabéns; sei que vai ter a honra de sentar-se nas poltronas do Executivo e eu acho que é do meu dever congratular-me com a nação.

MARTINS – Muito obrigado. (À parte) É sempre a mesma cantilena.

MATHEU5 – O país tem acompanhado os passos brilhantes da carreira política de V. Excia. Todos contam que, subindo ao ministério, V. Excia. vai dar à sociedade um novo tom. Eu penso do mesmo modo. Nenhum dos gabinetes anteriores compreendeu as verdadeiras necessidades da pátria. Uma delas é a idéia que eu tive a honra de apresentar há cinco anos, e para cuja realização ando pedindo um privilégio. Se V. Excia. não tem agora muito que fazer, vou explicar-lhe a minha idéia.

MARTINS – Perdão; mas como eu posso não ser ministro, desejava não entrar por ora no conhecimento de uma coisa que só ao ministro deve ser comunicada.

MATEUS – Não ser ministro ! Vossa Excia. não sabe o que está dizendo… Não ser ministro é, por outros termos, deixar o país à beira do abismo com as molas do maquinismo social emperradas… Não ser ministro! Pois é possível que um homem, com os talentos e os instintos de V. Excia., diga semelhante barbaridade? É uma barbaridade. Eu já não estou em mim… Não ser ministro!

MARTINS – Basta, não se aflija desse modo.

MATEUS – Pois não me hei de afligir?

MARTINS – Mas então a sua idéia?

MATHEUS (depois de limpar a testa com o lenço) – A minha idéia é simples como água. Inventei uma peça de artilharia; coisa inteiramente nova; deixa atrás de si tudo o que até hoje tem sido descoberto. É um invento que põe na mão do país que o possuir a soberania do mundo.

MARTINS – Ah! Vejamos.

MATHEUS – Não posso explicar o meu segredo porque seria perdê-lo. Não é que eu duvide da discrição de V. Excia.; longe de mim semelhante idéia; mas é que Vossa Excia. sabe que estas coisas têm mais virtude quando são inteiramente secretas.

MARTINS – É justo; mas, diga-me lá, quais são as propriedades da sua peça?

MATHEUS – São espantosas. Primeiramente, eu pretendo denominá-la: O raio de Júpiter, para honrar com um nome majestoso a majestade do meu invento. A peça é montada sobre uma carreta, a que chamarei locomotiva, porque não é outra coisa. Quanto ao modo de operar, é aí que está o segredo. A peça tem sempre um deposito de pólvora e bala para carregar, e vapor para mover a máquina. Coloca-se no meio do campo e deixa-se… Não lhe bulam. Em começando o fogo, entra a peça a mover-se em todos os sentidos, descarregando bala sobre bala, aproximando-se ou recuando, segundo a necessidade. Basta uma para destroçar um exército; calcule o que não serão umas doze, como esta. É ou não a soberania do mundo?

MARTINS – Realmente, é espantoso. São peças com juízo.

MATHEUS – Exatamente.

MARTINS – Deseja então um privilégio?

MATEUS – Por ora… É natural que a posteridade me faça alguma coisa… Mas tudo isso pertence ao futuro.

MARTINS – Merece, merece.

MATEUS – Contento-me com o privilégio… Devo acrescentar que alguns ingleses, alemães e americanos que, não sei como, souberam deste invento, já me propuseram, ou a venda dele ou uma carta de naturalização nos respectivos países; mas eu amo à minha pátria e os meus ministros.

MARTINS – Faz bem.

MATEUS – Está V. Excia. informado das virtudes da minha peça. Naturalmente daqui a pouco é ministro. Posso contar com a sua proteção?

MARTINS – Pode; mas eu não respondo pelos colegas.

MATEUS – Queira V. Excia. e os colegas cederão. Quando um homem tem as qualidades e a inteligência superior de V. Excia., não consulta, domina. Olhe, eu fico descansado a este respeito.

CENA VIII

Os mesmos, Silveira

MARTINS – Fizeste bem em vir. Fica um momento conversando com este senhor. É um inventor e pede um privilégio. Eu vou sair; vou saber novidades. (À parte) Com efeito, a coisa tarda. (Alto) Até logo. Aqui estarei sempre às suas ordens. Adeus, Silveira.

SILVEIRA (baixo a Martins) – Então, deixas-me só?

MARTINS (baixo) – Agüenta-se. (Alto) Até sempre!

MATEUS – Às ordens de V. Excia.

CENA IX

Mateus, Silveira

MATEUS – Eu também me vou embora. É parente do nosso ministro?

SILVEIRA – Sou primo.

MATEUS – Ah!

SILVEIRA – Então V. S. inventou alguma coisa? Não foi a pólvora?

MATEUS – Não foi, mas cheira a isso… Inventei uma peça.

SILVEIRA – Ah!

MATEUS – Um verdadeiro milagre… Mas não é o primeiro; tenho inventado outras coisas. Houve um tempo em que me zanguei; ninguém fazia caso de mim; recolhi-me ao silêncio, disposto a não inventar mais nada. Finalmente, a vocação sempre vence; comecei de novo a inventar, mas nada fiz ainda que chegasse a minha peça. Hei de dar nome ao século XIX.

CENA X

Os mesmos, Luiz Pereira

PEREIRA – S. Excia. está em casa?

SILVEIRA – Não, senhor. Que desejava?

PEREIRA – Vinha dar-lhe os parabéns.

SILVEIRA – Pode sentar-se.

PEREIRA – Saiu?

SILVEIRA – Há pouco.

PEREIRA – Mas volta?

SILVEIRA – Há de voltar.

PEREIRA – Vinha dar-lhe os parabéns. e convidá-lo.

SILVEIRA – Para que, se não é curiosidade?

PEREIRA – Para um jantar.

SILVEIRA – Ah! (À parte) Está feito. Este oferece jantares.

PEREIRA – Está já encomendado. Lá se encontrarão várias notabilidades do país. Quero fazer ao digno ministro, sob cujo teto tenho a honra de falar neste momento, aquelas honras que o talento e a virtude merecem.

SILVEIRA – Agradeço em nome dele esta prova…

PEREIRA – V. S. pode até fazer parte da nossa festa.

SILVEIRA – É muita honra.

PEREIRA – É meu costume, quando sobe um ministério, escolher o ministro mais simpático e oferecer-lhe um jantar. E há uma coisa singular: conto os meus filhos por ministérios. Casei-me em 50; daí para cá, tantos ministérios, tantos filhos. Ora, acontece que de cada pequeno meu é padrinho um ministro e fico eu assim espiritualmente aparentado com todos os gabinetes. No ministério que caiu, tinha eu dois compadres. Graças a Deus, posso fazê-lo sem diminuir as minhas rendas.

SILVEIRA (á parte) – O que lhe come o jantar é quem batiza o filho.

PEREIRA – Mas o nosso ministro, demorar-se-á muito?

SILVEIRA – Não sei… ficou de voltar.

MATEUS – Eu peço licença para me retirar. (À parte, a Silveira) Não posso ouvir isto.

SILVEIRA – Já se vai?

MATEUS – Tenho voltas que dar; mas logo cá estou. Não lhe ofereço para jantar, porque vejo que S. Excia. janta fora.

PEREIRA – Perdão, se me quer dar a honra.

MATHEUS – Honra… sou eu que a recebo… aceito, aceito com muito gosto.

PEREIRA – É no Hotel Inglês, às cinco horas.

CENA XI

Os mesmos, Agapito, Müller

SILVEIRA – Oh! entra, Agapito!

AGAPITO – Como estás?

SILVEIRA – Traze parabéns?

AGAPITO – E pedidos.

SILVEIRA – O que é?

AGAPITO – Apresento-te o Sr. Müller, cidadão hanoveriano.

SILVEIRA (a Müller) – Queira sentar-se.

AGAPITO – O Sr. Müller chegou há quatro meses da Europa e deseja contratar o teatro lírico.

SILVEIRA – Ah!

MÜLLER – Tenho debalde perseguido os ministros, nenhum me tem atendido. Entretanto, o que eu proponho é um verdadeiro negócio da China.

AGAPITO (a Müller) – Olhe que não é ao ministro que está falando, é ao primo dele.

MÜLLER – Não faz mal. Veja se não é negócio da China. Proponho fazer cantar os melhores artistas da época. Os senhores vão ouvir coisas nunca ouvidas. Verão o que é um teatro lírico.

SILVEIRA – Bem, não duvido.

AGAPITO – Somente, o Sr. Müller pede uma subvenção.

SILVEIRA – É justo. Quanto?

MÜLLER – Vinte e cinco contos por mês.

MATEUS – Não é má; e os talentos do país? Os que tiverem à custa do seu trabalho produzido inventos altamente maravilhosos? O que tiver posto na mão da pátria a soberania do mundo?

AGAPITO – Ora, senhor! A soberania do mundo é a música, que vence a ferocidade. Não sabe a história de Orfeu?

MÜLLER – Muito bem!

SILVEIRA – Eu acho a subvenção muito avultada.

MÜLLER – E se eu lhe provar que não é?

SILVEIRA – É possível, em relação ao esplendor dos espetáculos; mas, nas circunstâncias do país…

AGAPITO – Não há circunstâncias que procedam contra a música… Deve ser aceita a proposta do Sr. Müller.

MÜLLER – Sem dúvida.

AGAPITO – Eu acho que sim. Há uma porção de razões para demonstrar a necessidade de um teatro lírico. Se o país é feliz, é bom que ouça cantar, porque a música confirma as comoções da felicidade. Se o país é infeliz, é também bom que ouça cantar, porque a música adoça as dores. Se o país é dócil, é bom que ouça música, para nunca se lembrar de ser rebelde. Se o país é rebelde, é bom que ouça música, porque a música adormece os furores e produz a brandura. Em todos os casos a música é útil. Deve ser até um meio do governo.

SILVEIRA – Não contesto nenhuma dessas razões; mas meu primo, se for efetivamente ministro, não aceitará semelhante proposta.

AGAPITO – Deve aceitar; mais ainda, se és meu amigo, deves interceder pelo Sr. Müller.

SILVEIRA – Por quê?

AGAPITO (baixo, a Silveira) – Filho, eu namoro a prima-dona! (Alto) Se me perguntarem quem é a prima-dona, não saberei responder; é um anjo e um diabo; é a mulher que resume as duas naturezas, mas a mulher perfeita, completa, única. Que olhos! que porte! que donaire! que pé! que voz!

SILVEIRA – Também a voz?

AGAPITO – Nela não há primeiros ou últimos merecimentos. Tudo é igual; tem tanta formosura, quanta graça, quanto talento! Se a visses! Se a ouvisses!

MÜLLER – E as outras? Tenho uma andaluza… (levando os dedos à boca e beijando-os) divina! É a flor das andaluzas!

AGAPITO – Tu não conheces as andaluzas.

SILVEIRA – Tenho uma que me mandaram de presente.

MÜLLER – Pois, senhor, eu acho que o governo deve aceitar com ambas as mãos a minha proposta.

AGAPITO (baixo, a Silveira) – E depois, eu acho que tenho direito a este obséquio; votei com vocês nas eleições.

SILVEIRA – Mas…

AGAPITO – Não mates o meu amor ainda nascente.

SILVEIRA – Enfim, o primo resolverá.

CENA XII

Os mesmos, Pacheco, Bastos

PACHECO – Dá licença?

SILVEIRA (á parte) – Oh! aí está toda a procissão.

BASTOS – S. Excia.?

SILVEIRA – Saiu. Queiram sentar-se.

PACHECO – Foi naturalmente ter com os companheiros para assentar na política do gabinete. Eu acho que deve ser a política moderada. É a mais segura.

SILVEIRA – É a opinião de nós todos.

PACHECO – É a verdadeira opinião. Tudo o que não for isto é sofismar a situação.

BASTOS – Eu não sei se isso é o que a situação pede; o que sei é que S. Excia. deve colocar-se na altura que lhe compete, a altura de um Hércules. O deficit é o leão de Neméia; é preciso matá-lo. Agora, se para aniquilar esse monstro é preciso energia ou moderação, isso não sei; o que sei é que é preciso talento e muito talento, e nesse ponto ninguém pode ombrear com Sua Excia.

PACHECO – Nesta última parte concordamos todos.

BASTOS – Mas que moderação é essa? Pois faz-se jus aos cantos do poeta e ao cinzel do estatuário com um sistema de moderação? Recorramos aos heróis… Aquiles foi moderado? Heitor foi moderado? Eu falo pela poesia, irmã carnal da política, porque ambas são filhas de Júpiter.

PACHECO – Sinto não ter agora os meus artigos. Não posso ser mais claro do que fui naquelas páginas, realmente as melhores que tenho escrito.

BASTOS – Ah! V. S. também escreve?

PACHECO – Tenho escrito vários artigos de apreciação política.

BASTOS – Eu escrevo em verso; mas nem por isso deixo de sentir prazer, travando conhecimento com V. S..

PACHECO – Oh! senhor.

BASTOS – Mas pense e há de concordar comigo.

PACHECO – Talvez… Eu já disse que sou da política de S. Excia.; e contudo ainda não sei (para falar sempre em Júpiter…), ainda não sei se ele é filho de Júpiter Libertador ou Júpiter Stator; mas já sou da política de S. Excia.; e isto porque sei que, filho de um ou de outro, há de sempre governar na forma indicada pela situação, que é a mesma já prevista nos meus artigos, principalmente o V…

CENA XIII

Os mesmos, Martins

BASTOS – Aí chega S. Excia.

MARTINS – Meus senhores…

SILVEIRA (apresentando Pereira) – Aqui o senhor vem convidar-te para jantar com ele.

MARTINS – Ah!

PEREIRA – É verdade; soube da sua nomeação e vim, conforme o coração me pediu, oferecer-lhe uma prova pequena da minha simpatia.

MARTINS – Agradeço a simpatia; mas o boato que correu hoje, desde manhã, é falso… O ministério está completo, sem mim.

TODOS – Ah!

MATEUS – Mas quem são os novos?

MARTINS – Não sei.

PEREIRA (à parte) – Nada, eu não posso perder um jantar e um compadre.

BASTOS (à parte) – E a minha ode? (A Mateus) Fica?

MATEUS – Nada, eu vou. (Aos outros) Vou saber quem é o novo ministro para oferecer-lhe o meu invento…

BASTOS – Sem incômodo, sem incômodo.

SILVEIRA (a Bastos e Mateus) – Esperem um pouco.

PACHECO – E não sabe qual será a política do novo ministério? É preciso saber. Se não for a moderação, está perdido. Vou averiguar isso.

MARTINS – Não janta conosco?

PACHECO – Um destes dias… obrigado… até depois…

SILVEIRA – Mas esperem: onde vão? Ouçam ao menos uma história. É pequena mas conceituosa. Um dia anunciou-se um suplício. Toda gente correu a ver o espetáculo feroz. Ninguém ficou em casa: velhos, moços, homens, mulheres, crianças, tudo invadiu a praça destinada à execução. Mas, porque viesse o perdão à última hora, o espetáculo não se deu e a forca ficou vazia. Mais ainda: o enforcado, isto é, o condenado, foi em pessoa à praça pública dizer que estava salvo e confundir com o povo as lágrimas de satisfação. Houve um rumor geral., depois um grito, mais dez, mais cem, mais mil, romperam de todos os ângulos da praça, e uma chuva de pedras deu ao condenado a morte de que o salvara a real clemência. – Por favor, misericórdia para este (apontando para Martins). Não tem culpa nem da condenação, nem da absolvição.

PEREIRA – A que vem isto?

PACHECO – Eu não lhe acho graça alguma!

BASTOS – Histórias da carochinha!

MATEUS – Ora adeus! Boa tarde.

OS OUTROS – Boa tarde.

CENA XIV

Martins e Silveira

MARTINS – Que me dizes a isto?

SILVEIRA – Que hei de dizer? Estavas a surgir… dobraram o joelho: repararam que era uma aurora boreal, voltaram as costas e lá se vão em busca do sol… São especuladores!

MARTINS – Deus te livre destes e de outros…

SILVEIRA – Ah! livra… livra. Afora os incidentes como o de Botafogo… ainda não me arrependi das minhas loucuras, como tu lhes chamas. Um alazão não leva ao poder, mas também não leva à desilusão.

MARTINS – Vamos jantar.