Eu não vou me mover – curta metragem

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Mitos tucanos 2

Por Ricardo Carneiro*

Embalados pela campanha eleitoral, os tucanos resolveram ressuscitar um tema polêmico: o das privatizações da era FHC. A tese é a de que elas foram benéficas à economia e ao povo brasileiro e precisam ser defendidas. Os argumentos têm sido poucos e simplistas, recorrendo-se amiúde à ampliação do número de telefones celulares como exemplo do sucesso das privatizações. Claro, esse é o segmento no qual os resultados mais aparecem em grande medida, impulsionados pela revolução tecnológica havida no setor. Contudo, a questão é bem mais complexa e envolve variados aspectos. No balanço dos prós e dos contras esses últimos se impõem na maioria dos casos. Vejamos um deles, o dos preços dos serviços.

Não se pode afirmar que a qualidade dos serviços nas empresas privatizadas melhorou de forma generalizada – a lembrança do apagão é indelével. Porém, mesmo que isto fosse verdadeiro haveria que se considerar o que ocorreu com os seus preços. O gráfico abaixo traz as informações relativas à evolução do índice amplo de inflação e dos preços administrados. Esses últimos envolvem um conjunto variado de serviços,** cujo peso no IPCA é de cerca de 30%. Desses, o conjunto produzido pelas empresas privatizadas abrange 15% do índice ou metade do total respondendo assim por uma parcela significativa da variação de preços no Brasil.

Os dados do gráfico são impressionantes e mostram uma verdadeira revolução nos preços relativos. Ao longo dos últimos quinze anos houve um significativo encarecimento dos bens e serviços públicos: para o período como um todo, enquanto a inflação geral ao consumidor foi de aproximadamente 150% acumulados, este sub-grupo subiu o dobro, cerca de 300%.  Esses números apenas traduzem o que é sentido no dia a dia pelo cidadão: o peso no orçamento dos pagamentos das contas de luz, água, telefone, pedágio, etc.

Há ainda nos dados do gráfico um aspecto que merece ser destacado. O grande aumento de preços relativos, ou o encarecimento desses bens públicos ocorre durante os anos 1996 a 2002. A recomposição tarifária imediatamente antes e após as privatizações e as regras de indexação das tarifas por um índice de preços que reflete com maior proximidade a variação do dólar (o IGP-DI), foram os responsáveis por essa trajetória.

O Governo Lula herda esses contratos, mas logra obter um melhor resultado na evolução desses preços, por uma negociação dos seus termos, nas suas revisões periódicas, mais favoráveis ao cidadão. Isto para não falar da administração de preços cruciais como os dos combustíveis, que tiveram no passado recente uma alta significativa decorrente do contexto internacional favorável. Ou seja, prevaleceu no Governo Lula, a despeito da herança recebida, uma gestão que colocou os interesses da cidadania em outro patamar.

* Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP

** O índice de preços administrados engloba: IPTU, taxa de água e esgoto, gás de bujão, gás encanado, energia elétrica residencial, ônibus urbano, ônibus intermunicipal, ônibus interestadual, ferry-boat, avião, metrô, navio, barco, táxi, trem, emplacamento e licença, pedágio, gasolina, álcool, óleo, óleo diesel, plano de saúde, cartório, jogos lotéricos, correios, telefone fixo, telefone público e telefone celular.

 

Inflação (IPCA) e Preços Administrados

Inflação (IPCA) e Preços Administrados

 

Fonte: Luis Nassif Online

Mitos tucanos 1

Por Ricardo Carneiro*

Os dados relativos ao desempenho da economia brasileira diante das crises internacionais que constam do documento da ABDIB “DOIS ANOS DEPOIS: O impacto da crise financeira no PIB, nos investimentos e na produção de bens de capital” põem por  terra uma das mais  caras teses tucanas, a de que o crescimento econômico foi medíocre durante a era FHC por conta dessas  crises.

Nunca é demais lembrar que o PIB cresceu em média 2% a.a na era FHC contra 4% a.a. na era Lula.

Como se pode ver nos dois gráficos abaixo, a crise de maior impacto foi a de 2008, como seria de esperar, pois ela é sabidamente a maior crise do capitalismo desenvolvido desde a Grande Depressão. Mas, dada a sua  intensidade, chama a atenção a rapidez com a qual a economia brasileira se recupera: tanto no PIB quanto no investimento, são apenas dois trimestres de queda seguida de recuperação com o nível pré-crise sendo atingido em pouco mais de um ano no caso do PIB e em um ano e meio no do investimento. A amplitude e sucesso da política anticíclica posta em prática pelo Governo Lula são, à luz desses dados, indiscutíveis. O uso  adequado da política  econômica,  com menor  importância da política cambial, fiscal e monetária mas com apelo maior à política creditícia por meio dos bancos públicos, jogou um papel decisivo.

Em contraste com a crise de 2008, tanto a crise da Ásia quanto a crise sucedânea da Rússia têm efeitos bem menos relevantes sobre a economia brasileira. Assim, a crise da Ásia que se inicia no quarto trimestre de 1997, faz declinar o PIB em 2% apenas em um trimestre, com impacto quase nulo no investimento. Na seqüência, a crise da Rússia tem efeito menos pronunciado ainda sobre o PIB, embora mais intenso duradouro sobre o investimento. De qualquer modo, a recuperação do Investimento se faz após quatro trimestres do início da crise e de maneira muito lenta a despeito da melhoria das condições internacionais, e da mudança do regime cambial. Aliás, cabe recordar que a retomada do crescimento observada em 2000 (um ano e meio após a crise) é interrompida, em 2001, pelo apagão. Diante desses fatos as conclusões são inescapáveis: fatores domésticos, dentre eles a política econômica posta em prática na era FHC foram muito mais importantes para explicar o medíocre desempenho da economia naquele período do que fatores internacionais.

* Professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP

Fonte: Luis Nassif Online