A revolução e a aurora

Chegança do Almirante Negro no Mar da Pequena África, com a Cia. de Mysterios e Novidades

Chegança do Almirante Negro no Mar da Pequena África, com a Cia. de Mysterios e Novidades

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Por Theotonio de Paiva

Seria toda revolução uma aurora?
Oswald de Andrade, Um homem sem profissão

Ao longe, vemos se aproximar um grande cortejo. São atores, bailarinos, músicos, que surgem da direção do cais. São tantos que a vista se perde em contar. Em seus passos cadenciados, embalados por uma velha melodia, atravessam uma larga via expressa. Talvez nos queiram dizer que aquela caminhada começou nos desvãos do mundo. No alto, trazem um caixão envolto com a bandeira do Brasil. Parece tratar-se de um herói. Mas que herói seria esse que entidades míticas reverenciam dessa maneira, a ponto de virem à frente, abrindo os caminhos?

O destino do teatro é andar. Assim, muitos se erguem às alturas, caminhando em pernas de pau, equilibristas de um destino, como os gigantes das velhas fábulas. Observados mais de perto, julgamos, pela doçura dos seus olhares, dos seus meneios, que, ao trazerem costumes religiosos antiquíssimos, aliados às fontes pagãs, não reverenciam uma personagem qualquer.

E isso nos faz pensar que também o tempo é outro e precisa ser mais bem compreendido, pois se divide em diversas possibilidades e criações. Desse modo, na narrativa da Chegança do Almirante Negro no Mar da Pequena África, sobressai de imediato o tempo da celebração.

Dança dramática revisitada pela Grande Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, sob a direção de Ligia Veiga, numa dramaturgia a partir de textos da diretora em parceira com Edmilson Santini, espetacularmente a ela se une um outro tempo, aquele da história concreta.

O primeiro é um tempo arcaico, ao passo que, no último, estamos distante apenas de um século, num Rio de Janeiro, capital do país na época, que se transformava rapidamente. E é por aí que o sagrado e o profano se entrelaçam.

Naqueles primeiros anos de uma era dos extremos, a cidade, capital de uma jovem república, tendo dobrado a sua população na década anterior, contabilizava a marca de um milhão de habitantes. O impacto disso no papel a que se destinava o Rio de Janeiro irá se potencializar com as obras da reforma do porto e a construção do cais.

E essa ação não acontecia de forma a levar em consideração os interesses de amplos setores da população, sobretudo das classes subjugadas. Muito ao contrário. E se dava a conhecer através dos morros arrasados, das avenidas cortadas para darem vez somente aos moços e moças bem trajados da belle époque, pela destruição de abrigos e casas populares, curiosamente no suporte da lei que constrangia cidadãos.

Essa calculada ação do Estado, que ficou conhecida como bota-abaixo, foi ordenada a partir de um conceito visando a implantação do progresso e da civilização em termos definitivos. Se quisermos entender um pouco mais o que estava acontecendo, precisaremos levar em consideração o processo que as regiões periféricas ao desenvolvimento industrial iriam experimentar, num quadro que consagrava a hegemonia européia por todo o planeta.

Assim, ao se transformar numa capital que se queria majestosa, com ares parisienses, abandonando os antigos contornos mouriscos, herdados da cultura ibérica, a cidade, inconsequentemente, via seus filhos serem expulsos do seu próprio mundo.

Num contraponto a esse estado de coisas, curiosamente se ergue o cortejo na antiga porta de entrada da cidade. Exatamente ali, naquele trecho da nossa costa, onde os navios estrangeiros outrora atracavam e despejavam levas de homens e mulheres d’outras terras. Interessante lembrar que foi exatamente essa condição uma das armas de convencimento para a grande transformação urbanística daqueles primeiros anos.

Encenado numa tarde de outono, num domingo, na antiga Praça Mauá, em frente ao Museu de Arte do Rio – MAR, a Chegança do Almirante Negro deixa claro que irá nos revelar, melhor, tirar o véu das nossas sabenças confusas e mais estupidamente imediatas. E é aí, quando aquela rude pergunta repousa de novo: quem é esse almirante negro? Talvez fosse melhor começar sabendo o que ele não é.

Estamos distantes daquelas figuras que, num passado não muito remoto, rapidamente se transformavam em efígies de poderosos, lambidas pelos dedos infantis nas páginas dos livros escolares. Nada de presidentes engalanados, donos da pátria, acadêmicos, marechais de ferro, poetas de sobrecasaca, ou heróicos bandeirantes que se glorificaram em “adquirir o tapuia gentio-brabo e comedor de carne humana”. Nada disso encontraremos nas vestes brancas de um estranho chamado João. A bem da verdade, a imagem do herói é cerzida no manto de uma fidalguia popular.

E o espanto que nos faz admirar tão velha criação humana, em parte, se dá por conta dos seus realizadores tomarem para si o papel de presentificar o mito, numa vasta e portentosa celebração/representação. E, assim, na sua alegria descomunal, acenam todos aqueles marujos de araque, dando vivas como quem re-apresenta o que poderia ter sido e não foi. Orgulhosos de si e da fantasia que expulsam do ventre. Nela, veremos, adernando em navios espetaculares, o episódio da Revolta da Chibata e de seu líder João Cândido Felisberto, o almirante negro.

Trata-se, provavelmente, de um dos movimentos políticos mais significativos da era moderna do Brasil. Como se sabe, a Revolta foi organizada por militares da Marinha do Brasil, cujo planejamento, por cerca de dois anos, viria a explodir num intenso motim, durante a semana de 22 a 27 de novembro de 1910, na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Fundamentalmente, ocorre numa reação aos intensos castigos corporais e ao oferecimento forçado do consumo de carne podre a que eram submetidos os marujos.

Não é difícil entrever, nesse quadro, uma espécie de renitência dos tempos do escravismo. Curiosamente, o escritor Oswald de Andrade, uma das mais expressivas testemunhas daquela revolta, irá comparar, em seu livro de memórias, Um homem sem profissão, a experiência narrada no filme Encouraçado Potemkim, de Sergei Eisenstein, às reivindicações dos marujos brasileiros. Vamos lá.

Chegança

Como se fossem pelos ares, em galopes de pernas de pau, os atores e bailarinos criam embates, em danças e contradanças. Igualmente pelo ar, os músicos plantados no chão fazem revoar uma antiga toada dos marinheiros. Por anos seguidos, a canção fora associada a um verde amarelismo ufanista, espécie de devotamento cívico, que mascarava dores e chibatas, quando não ostentava toda a sorte de opressão. No entanto, agora, toma-se novamente gosto por ela. Como se a velha melodia fosse devolvida aos seus legítimos senhores, duramente arrancada que fora por mãos inábeis, para dela cuidar de forma perversa e molestá-la. Isso talvez equivaleria a dizer que o nosso navio, ao menos numa vaga esperança, também flutua.

Mais à frente, desce o corpo à terra. Se o almirante está morto, é nesse momento que a sua história tem início. Contada por bufões, que se desdobram em inúmeros atores-narradores, é essa reinvenção que dará suporte ao mito, levando-nos a pensar naquela linha tênue, a separar toda a fantasia da história, e retornando pela imaginação em voos surpreendentes.

Mas, do quê exatamente eles falam? A chegança, que serve de suporte à narrativa, ao invés de contar a história de mouros e cristãos, como versa a tradição dos folguedos, inverte a roda. Dessa maneira, a tradição imemorial é posta a serviço de uma recriação sensível daquilo que originalmente pertencia a um mundo ibérico e que nos chegou pela audácia, o destemor e a violência dos colonizadores, abrasileirando-se indelevelmente, unificada que fora pelo trabalho marítimo.

Quando paramos para observar a Chegança do Almirante Negro, notamos, contudo, em sua narrativa, a presença de uma história de tempos profanos misturados a uma transcendência que se liga aos ritos dos antepassados negros, negros assim como o nosso herói. E exatamente por isso se diferencia, ainda mais, das cartilhas e murais canônicos. Cândido, aliás, nos é apresentado ainda menino, como um antigo negrinho do pastoreio, que um dia irá se juntar às armas, por força da precisão e de algum oculto desejo heróico.

Mas a sua história seria outra, de um outro heroísmo. Assim, nesse auto popular brasileiro ocorre toda a sorte de violências, castigos corporais, lutas e revoltas, compondo um quadro extremado e violentamente poético de esperanças de um novo tempo, naufragadas em novas esperanças desesperadoras. E será João o grande líder que irá conduzir aquela pequena frota e os homens.

O embate decisivo, quando as armas dos navios apontam para a cidade, trazem clamores e revoltas de toda sorte, em torno daquela epopéia. Parte da população civil se vê convidada a se envolver e a decidir de que lado está, ou identificados com os marinheiros, ou com o poder do Estado. Não há meio termo.

Dessa maneira, a cena é invadida por personagens que medem forças políticas e indiretamente repensam o estado civilizatório em que nos chafurdamos. São populares, jornalistas, políticos e artistas. E ditadores disfarçados, marechais, representantes do grande capital, altas patentes. Bem-intencionados, cretinos, puros d’alma, malfazejos, oportunistas e covardes. Alguns cabem na história como maioria. Outros têm os seus nomes reduzidos a lembranças incômodas.

E, em meio a todo esse conflito, surge como um bálsamo do futuro o relato sereno e vigoroso de Oswald de Andrade. Numa noite, ainda jovem, ao sair da casa de amigos, em meio à Avenida Central, mais tarde Rio Branco, o poeta ouviu falar em revolução. O coração maravilhado e sedento de aventuras, pergunta: onde? E apontaram o mar. E do mar se escutava um “prolongado soluço de sereia”.

E novamente no cais, ao admirar uma baía que “esplendia com seus morros e enseadas”, o escritor, lá pelas quatro da manhã, naquela hora shakespeariana em que tudo pode acontecer, qualquer levante, qualquer virada radical no enredo, é acordado por um reles ladrão.

Encontrava-se nos jardins da Glória, perto da Praça Paris. Em frente, navios de guerra, todos de aço. Naquele momento, reconhece o encouraçado Minas Gerais, que conduzia a marcha, o São Paulo e mais um outro. E, simbolicamente, todos ostentavam, “numa verga do mastro dianteiro, uma pequenina bandeira triangular vermelha”.

E, assim, conduzido por um destino zombeteiro, o poeta estava “diante da revolução”. E ali, muito provavelmente, ainda distante do que aquilo efetivamente significava para a história do país, semearia a pergunta que um diria conseguiria exprimir, numa notável poética: “Seria toda revolução uma aurora?”

Os dois movimentos se integravam. A esperança dos homens por uma radical transformação do mundo, ainda alicerçada, segundo alguns, numa categoria mítica, e a expressão do próprio mundo que se revigora em seus nascimentos e mortes, em suas noites de frio e suas manhãs ensolaradas. E aí, desembocamos nas cheganças.

Em alguma medida, as cheganças, duramente construídas por séculos de sabedoria popular e semi-erudita, se combinam com uma tradição muito antiga, que envolve a dialética vida e morte.

Espantosamente, nelas testemunhamos um registro humano das expressões dos ciclos vitais. Surgem enquanto possibilidade de compreensão do homem diante de um mundo tão fascinante quanto assombroso. E ele próprio, homem, sujeito e testemunha dessa transformação, chega (de chegança), para lutar e contemplar. E era (e ainda é) esse o mundo do folguedo popular, considerado como um ato divinatório, a considerar a própria criação como uma expressão que se perde em tempos arcaicos.

No entanto, se olharmos bem, na Chegança do Almirante Negro no Mar da Pequena África esse ciclo é diverso da tradição popular. Vai além. Nem melhor, nem pior, mas opera num minuano que sopra para outros lados, provocando um refazimento daquilo que herdamos para aquilo que potencialmente somos enquanto nação brasileira. E se deixa levar, ao final, num novo cortejo que se encaminha para um outro tempo, de ressurreição do herói, cujos cantos ensejam o romper de uma nova aurora.

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

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Oswald de Andrade: a última entrevista

Caderno ENSAiOS publica a entrevista de Oswald de Andrade, concedida na semana que antecedeu a sua morte, em outubro de 1954.

Por Marcos Rey

Oswald de Andrade

Oswald não sorriu, mas ficou satisfeito. Ergueu-se um pouco na cadeira da qual se levantava com dores e problemas. Talvez quisesse provar-se que ainda lhe restavam energia e agressividade. O que o plano exigia, para pegar, era um Oswald irônico, destruidor e com muito recheio, igual ao dos primeiros retratos. Balançou a cabeça, aprovando. A oportunidade de escrever mais um livro, sem muito esforço, entusiasmava-o. Bastaria respondendo às perguntas. Em sua portátil, eu funcionaria como repórter e secretário. Mas logo a princípio, tornou-se evidente que a longa reportagem não poderia obedecer a um esquema rígido. Nada de ordem cronológica. Oswald não lembrava mais datas e nomes. Às perguntas mais complexas, ficava mudo ou mandava as crianças se calarem. Como andava nervoso e quase sem nenhuma capacidade de concentração! E esperava ansiosamente por telefonemas de seu filho mais velho. Problemas de dinheiro, com toda certeza. Falei do plano com mais detalhes: três entrevistas por semana, no período da manhã. Duas horas no máximo. Se se sentisse indisposto, não precisaria responder nada. Um projeto de livro sob medida para um homem que ia morrer. Dias antes eu fizera uma longa com Oswald, publicada no suplemento literário do jornal “O Tempo”. Essa e mais outra, que apareceu simultaneamente no jornal “Quincas Borba”, foram as últimas que concederia. Mas ele queria falar mais. Podia, ainda, mas era necessário que lhe arrancassem as palavras. Sua esposa Maria Antonieta D’Alckmin, sempre ao lado, naqueles dias, ajudaria a fazer as perguntas e ainda mais a formular as respostas. Era a sua memória, além de tudo. Muita coisa que Oswald contou ou respondeu, nada tinha de inédito. Já estava em outras entrevistas e também no “Um Homem Sem Profissão”, sua autobiografia inacabada. Inclusive este, um verdadeiro coquetel Molotov:

Oswald de Andrade: Conhece Antoninho de Alcântara Machado? Eu que o inventei. Nós precisávamos de ídolos. Como um movimento artístico ou político pode vingar sem nomes de proa? Saquei um artigo elogioso, exagerado. Até a família de Antoninho estranhou. Um parente dele me procurou espantado: “Mas o garoto é bom mesmo? A gente não sabia disso”. Depois de meu artigo, os outros críticos continuaram a bater palmas e o moço virou gênio.

Aquela manhã deixei a rua Caravelas quase com a certeza de que iniciaria um livro que não chegaria ao fim, pois seu único personagem tinha os dias contados. Lamentava ter começado tão tarde. Já cogitara dele ao conhecer Oswald, alguns anos antes, quando pesava vinte quilos a mais e estava sempre na linha da polêmica. Naquela ocasião, eu publicara meu primeiro romance, “Um Ato no Triângulo”, pulverizado por um crítico azedo de “O Estado de São Paulo”, e Oswald ficou furioso. Conversamos algumas horas e fizemos uma grande amizade. A estrela de autor de “O Rei da Vela” já se apagava. Caía num esquecimento atroz. A bem da verdade, apenas Helena Silveira levava seu nome às colunas dos jornais. Para a minha geração, era um homem liquidado, modernoso e quase inofensivo. Pouca gente ria de suas pilhérias, e dizia-se com frequência que era inclusive inculto. Certamente, a ofensa que mais o irritava.

Oswald de Andrade: Nasci para professor. Quero ensinar até o que não sei.

Fazia-lhe perguntas sobre suas preferências literárias, mas ele gostava mais de falar de sua própria vida. Tínhamos diante dos olhos um exemplar de “Um Homem Sem Profissão” e um rascunho do segundo volume de suas memórias, “O Salão e as Selvas”, ainda inédito.

— Não vai continuar “O Salão e as Selvas”?

Oswald de Andrade: Acho que não terei tempo. Não faz mal, pois sempre fiz autobiografia. Minha vida está contada nos meus livros, embora misturada com um pouco de ficção.

A conversa tinha sempre a Semana de Arte Moderna como ponto de saída ou de chegada. Para ele, o grande nome havia sido mesmo Mário de Andrade.

Oswald de Andrade: Somente Mário fez coisa realmente boa, Machado, Euclides e Mário foram os melhores. Até hoje me arrependo da briga que tivemos. Fui o culpado. Fiz uma piada cruel: “razões morais de andrade”. Mário não me perdoou. E hoje eu também não me perdoo.

Não havia nada de formal nessa confissão. Sentimento puro, grande mágoa e vergonha que chegou a me encabular.

Oswald de Andrade: Éramos uns ignorantes. Apenas Mário de Andrade sabia de alguma coisa. Eu era capaz de discutir, mas ele sabia criar. Enquanto experimentávamos, Mário fazia livros definitivos.

— Sim, Mário foi grande, está certo. Mas ele já está descoberto. E você? 

Oswald de Andrade: O que quer dizer?

— Acho que não está descoberto.

Oswald de Andrade: Que besteira é essa?

— Sua poesia, por exemplo, é inédita. Isto é, foi lida em 1922, mas posta de lado. Um dia surge um crítico e diz: “Oswald é um grande poeta, um dos maiores da fase modernista”. E então os outros vão concordar.

Oswald de Andrade: Isso que você está me dizendo me interessa. No fundo também me acho bom poeta. Está falando a sério? Na acha que ela tem piada demais?

— Bem, é o que penso. Prefiro ler os versos de Oswald de Andrade a ler os da geração de 1945.

Oswald de Andrade: Acredite que são poucos que me consideram poeta. Antônio Cândido gosta de meus versos. Os outros nunca leram e não gostam deles. Vingam-se de mim, com minhas próprias piadas.

— O que me diz dos novos, dos novos poetas?

Oswald de Andrade: São uns chatões. Parnasianos às avessas. Estão enterrando a Revolução Modernista. Apegam-se à forma como a turma do Bilac. Você é capaz de lembrar algum verso deles? É?

— Não.

Oswald de Andrade: Então.

— E sobre os romancistas? 

Nesse ponto, Oswald fez umas críticas virulentas contra um escritor que ele chamava de “burro blanco”. Mas confessou que sua admiração por José Lins do Rego, que julgava o maior. Fazia restrições a Jorge Amado, embora o apreciasse, e negava quase totalmente o valor de Graciliano Ramos.

Oswald de Andrade: Graciliano é muito limitado. A crítica confunde pobreza com poder de síntese.

— Mas, e o “Vidas Secas”?  

Oswald de Andrade: Nosso “tabaco road”. Ele leu Caldwell.

Era um meio de mostrar-se vivo, de sentir a vida: atacar. Mas, evidentemente, havia sempre antipatias pessoais misturadas às suas críticas. Sua aversão à poesia de Cecília Meireles era prova disso. Num artigo já dissera: “Não vou nem com a cara nem com a poesia dessa senhora”. Porém se fosse mais coerente e equilibrado não seria o Oswald de Andrade que foi e revive hoje.

Oswald de Andrade: Vou lhe dar um presente. Só tenho dois exemplares, mas um será seu. Leia e diga-me depois o que pensa.

Era “A Morta” e “O Rei da Vela”, numa edição José Olympio de 1937. Li e reli as duas peças, inclinando-me logo para “O Rei da Vela”. Lá estava Oswald quase de corpo inteiro, num de seus momentos de maior autenticidade e lucidez. Ele era mesmo um intelectual de pequenos trabalhos (não de pequeno fôlego). Saía-se melhor na poesia, no teatro, nos artigos e na prosa miúda das memórias. Não tinha a fibra nem a paciência para a ficção de longo curso. Na próxima entrevista passei a manhã na sua casa e almoçamos juntos. Maria Antonieta D’Alckmin insistia para que se alimentasse bem, mas ele engolia a comida com má vontade. Só depois do almoço, com uma espécie de timidez, indagou:

Oswald de Andrade: O que achou do meu teatro?

— “O Rei da Vela” é uma de suas melhores coisas.

Oswald de Andrade: Mas não é para ser representado, não?

— Não conheço teatro, mas creio que é perfeitamente representável. Nem entendo como ainda não foi encenada nesses 23 anos.

Oswald de Andrade: Não foi e não será nunca. Nossos homens de teatro são muito primários. Dizem-se intelectuais, mas na verdade gostam mesmo é de espetáculo. Só aceitam o que é bom quando a peça traz o atestado de sucesso de outros países. Todos eles têm o meu “O Rei da Vela” nas estantes, mas não o leram, e se o leram não entenderam e se entenderam não gostaram. Para todos, é mais uma brincadeira do Oswald. Só compreendem o social, o político, quando o cenário é um cortiço. Ainda não encontrei um deles que se entusiasmasse com a encenação de minhas peças

Oswald andava amargurado. Condenava-se por deixar uma obra de proporções reduzidas, mas sentia-se recompensado por ter sido o relações públicas da Revolução Modernista. Certa manhã, Oswald sentiu-se enclausurado. Queria sair, apesar do seu mau estado. Fomos passear em seu Fiat, dirigido por Maria Antonieta. Com que interesse e avidez olhava pela janela do carro! Quase não falou a viagem toda. Queria ver apenas. Pude observá-lo e mais uma vez tive a certeza de que sua morte estava próxima. Na volta, largou-se numa poltrona e continuou por um largo espaço no mais completo silêncio. Seus filhos menores brincavam ao seu redor, e às vezes ele os olhava como se fossem estranhos. Custou a retomar contato com minha presença.

Volto outro dia, disse-lhe. Não, vamos continuar — pediu. E repetiu fatos e opiniões que eu ouvira no mesmo dia. Tudo já se baralhava em sua mente e as dores pelo corpo aumentavam — fui muito extravagante — confessou — e estou pagando agora.

— Amanhã estará melhor.

Oswald de Andrade: Estou no fim.

Não morreria ainda. Rudá Abramo, se não me engano, levou-o a um programa de televisão onde Oswald foi entrevistado envolto numa pesada manta. Esta entrevista lhe fez um bem imenso. Ainda se lembravam dele, no dia seguinte encontrei-o mais animado e disposto a falar. Havia uma luz nova nos seus olhos e o sinal de sua melhora estava nas críticas que tornou a fazer.

Oswald de Andrade: Erra quem diz que o Brasil já possui uma grande literatura. Temos, quando muito, valores isolados. José Lins do Rego, Jorge Amado e poucos outros. Alguns tinham sido, mas não foram. Rachel de Queiroz apagou-se inteiramente, Armando Fontes não fez mais nada, e os outros felizmente não escreveram mais.

— Mas há Cornélio Pena.

Oswald de Andrade: Você lembrou bem. É outro que só será redescoberto daqui a algumas décadas. Guarde o que estou dizendo. Mário de Andrade foi dos poucos que tomaram conhecimento dele, apesar dos reparos que lhe fez.

Perguntei-lhe sobre Guimarães Rosa, que começava a ser falado. A resposta foi demorada. Tive que repetir a pergunta.

Oswald de Andrade: O problema não é enriquecer o idioma, é enriquecer o Brasil. Não é mais tempo para ficarmos brincando com a sintaxe, inventando palavras, dormindo no estilo. Isso é beletrismo, é trabalho para diletante. Em suma, não me apaixona mais. Depois, a de Guimarães não é a língua brasileira, é uma invenção sua. Talentosa sim, mas sem raízes, e  que redunda numa lamentável perda de tempo.

— Que conselho daria a um poeta e a um escritor jovem?

Oswald de Andrade: Ao poeta diria que não fizesse mais poesia. Essa poesia tipo ação entre amigos não interessa mais. Mesmo a nossa poesia participante não participa mais. É hermética, pretensiosa, incomunicável. O povo poeta teria de falar a linguagem da revolução e esquecer definitivamente as escolas, panelas e modismos artísticos. Alguém como Vinícius, se Vinícius fosse capaz de sentir a grande miséria nacional.

— E Drummond?

Oswald de Andrade: É grande, imenso, mas apenas para as elites. Não se pode esperar mais nada dele.

— Mas, a mensagem ao escritor.

Oswald de Andrade: Gostaria de crer na nova geração, mas não acredito. Todos resolveram fazer da literatura um divã de psicanalista. Voltaram-se para dentro, e infelizmente o único que se exterioriza é o “burro blanco”. A minha geração tinha ao menos o que combater, o que destruir. Esta encontrou o terreno aplainado e não consegue construir nada. Todos bem comportadinhos, uns garotões precoces, querendo ganhar prêmios. É difícil dizer entre eles o que escreve mais corretinho. Mas vá remexer no fundo, vá procurar ideias, vá auscultar as inquietações. O críticos, por sua vez, limitaram-se às observações estilísticas. E julgam também que a literatura nada tem a ver com o país onde é produzida. Como todo povo subdesenvolvido, temos a mania de ser requintados. Ninguém se conforma em não ter nascido em Paris. Provavelmente teremos também literatura requintada, mas estranha a nós, inexpressiva, fria, reacionária. Mensagem aos jovens? Besteira! Não lerão minha mensagem. É muito mais cômodo romancear os complexos e fazer estilo. Isso dá prêmio, dá crítica e até emprego público.

Na entrevista seguinte, voltou à recordações. Sempre Mário de Andrade, mas o homem que o artista. Devia ter procurado Mário na hora da morte. Arrependia-se. Mas não só disso como de outras coisas. De não ter concluído o “Marco Zero”, por exemplo. Mas não se arrependia de ter vivido. Na penúltima entrevista, falou muito das mulheres que tivera. Amara a todas igualmente, e com a mesma volubilidade. Capítulos preciosos de sua vida. Com cada uma delas aprendera alguma coisa. Na última entrevista, fui encontrá-lo totalmente arrasado. Quis retirar-me imediatamente. Mas Oswald reconheceu-me e fez sinal para que ficasse. Fiquei, porém sem fazer perguntas. Algumas visitas entravam e saiam. Velhos conhecidos iam ver o doente. Escritores, poucos. A certa altura, num intervalo das visitas Oswald perguntou-me como se chamaria o livro.

— Que livro?

Oswald de Andrade: O livro de nossas entrevistas.

— Mas está ainda no começo.

Oswald de Andrade: Sim, está no começo.

Oswald tentou sorrir.

Oswald de Andrade: Mais um livro meu que não chega ao fim.

Voltou a ficar em silêncio. Maria Antonieta D’Alckmin pediu às crianças que não fizessem barulho. Deram-lhe um remédio que tomou com má vontade.

Um antropófago de cadillac

Ele lançara a antropofagia após os dias agitados da semana, no vale-tudo para impor ideias novas. Naquela época, tinha um cadillac verde. Gordo, lustroso e cheirando loções, vivera rodeado de amigos e inimigos. Dele sempre se esperava o máximo. Sua personalidade extravagante e única preenchera toda uma época de nossas artes. Fora o autêntico Papa do Modernismo. O rotundo espadachim de 1922. As últimas palavras que me dirigiu naquela manhã demonstravam a certeza de sua perenidade. Não acreditava que pudesse ser lembrado alguns anos mais tarde. E tinha a franqueza e a sinceridade de confessá-lo.

Oswald de Andrade: Tudo que eu fiz será esquecido logo. A não ser em alguém se lembre de falar em mim de vez em quando.

— Seus livros serão mais lidos amanhã do que quando foram publicados, profetizei para confortá-lo.

Oswald de Andrade: Você é camarada.

— Os novos o seguirão.

Oswald de Andrade: Onde estão eles?

Não disse mais nada, ofegante.

— Voltarei depois de amanhã, disse. Oswald sabia e eu também que aquela era a última entrevista. No dia seguinte, à noite, eu voltava à casa de Oswald para vê-lo morto. Lembro-me de Antonio Candido, Edgard Cavalheiro, Antônio Olavo, Mário Donato, que já estavam presentes. Maria Antonieta D’Alckmin, inconsolável, falava nervosamente. Outros amigos foram chegando. O corpo foi levado para a Biblioteca Pública Municipal, naquela noite. Tarsila do Amaral aproximou-se lentamente do caixão. Ficou a olhar o cadáver com olhar sereno, amigo e prolongado. Um mudo e profundo adeus.

No dia seguinte, uma enorme fila de automóveis acompanhou-o ao cemitério. Por notável coincidência, o túmulo, ao lado do seu, todo preto, é de um tal Serafim Del Ponte Grande. Isso chamou a atenção de todos. Menotti Del Picchia falou no último momento, comovido e comovendo.

Meses mais tarde, a União Brasileira de Escritores publicava o primeiro número de uma revista toda dedicada a Amadeu Amaral. O segundo número seria sobre Oswald de Andrade. Reuni minhas entrevistas para inserir na revista. Mas foi outra iniciativa da União que morreu no nascedouro. O que fizemos foi um caderno quase completo sobre Oswald de Andrade, no  Suplemento Literário de “O Tempo”, assinado por diversos colaboradores. Parte das entrevistas entreguei a Mario da Silva Brito, que escreve a “História do Modernismo”, e que talvez encontre nessas confissões alguma informação útil. Esta não havia sido publicada até hoje. Publico-a aqui, dosada com alguma recordação.  

Publicada originalmente no “Jornal da Senzala”, em fevereiro de 1968. Republicada no Jornal a “Voz do Escritor”, em 1992.

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Veja também no Caderno ENSAiOS:

“Nenhum país passa por mais de 300 anos de escravidão impunemente” / Entrevista com Eduardo de Assis Duarte

“Precisamos democratizar o elitismo” / Entrevista com Sérgio Augusto

“A indústria cultural nunca será inteligente” / Entrevista com Silviano Santiago

A última entrevista de Guimarães Rosa

Pós-Walds

Oswald de Andrade (sentado no chão), foi um dos líderes da Semana de 22

Oswald de Andrade, sentado no chão, foi um dos líderes da Semana de 22

Em artigo publicado n’O Estado de São Paulo, o poeta Augusto de Campos revê a extraordinária herança cultural do escritor Oswald de Andrade, o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty.

Por Augusto de Campos

Conheci “Oswáld” (não “Ôswald”) em 1949, na companhia de Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Eu tinha 18 anos, Décio, o mais velho, 22. Fomos apresentados a Oswald por Mário da Silva Brito, que nos levou ao apartamento do poeta. Estava ainda muito ativo, defendendo o Modernismo e combatendo a “geração de 45”, em conferências e desaforadas crônicas (Telefonemas), e às vezes aos risos e berros no Clube de Poesia, com o costumeiro sarcasmo e muitos trocadilhos.

Mesmo reconhecido como o último representante radical dos modernistas (Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo eram biacadêmicos), não era levado muito a sério nem pelos poetas dominantes nem pelos “chato-boys” da revista Clima, que chegou a botar fé no oposto da poesia oswaldiana, a oratória engajada de Rossine Camargo Guarnieri… Mas ele se dava com todos. Temido polemista, porém sociável e ridente, por certo contava que suas gozações públicas, de ferinas a ferozes, fossem perdoadas pelos inimigos com os quais facilmente se reconciliava sem propriamente se emendar.

Em memorável comunicação ao Congresso de Poesia, realizado em São Paulo, em 1948, tribuna da “geração de 45”, Patrícia Galvão, solidária com Oswald, o descreve “de facho em riste, bancando o Trotsky, em solilóquio com a revolução permanente”. Em 1982, eu trouxe à tona esse importante documento, desconhecido das novas gerações e de nós mesmos, no livro Pagu: Vida-Obra.

Contemporâneo do grupo de 45, porém marginalizado por sua paixão pelos modernistas, Mário da Silva Brito era amigo íntimo de Oswald. Nenhum de nós, os “novíssimos”, tinha livro publicado, mas as revistas e jornais literários já haviam estampado alguns dos nossos poemas. Oswald se entusiasmou tanto com a nossa visita que deu a cada um de nós, autografado, um volume dos poucos que ainda tinha de Poesias Reunidas O. Andrade (1945), edição especial de largo formato ilustrada por Tarsila, Segall e por ele (tiragem: 200 cópias). Mais adiante, presenteou-nos com um volume da esgotadíssima edição de Serafim Ponte Grande (1933) com a dedicatória: “aos Irmãos Campos (Haroldo e Augusto) – firma de poesia”. Guardo dele uma impressão de vulnerabilidade e solidão, sob a máscara galhofeira. Magoado com a ambígua amizade e o mal disfarçado desdém da intelectualidade da hora, apostava nos jovens. Depois nos encontramos várias vezes em reuniões em sua casa ou na de amigos comuns. Quando completou 60 anos, em 1950, época em que foram publicados O Auto do Possesso, de Haroldo, e O Carrossel, de Décio, saudamos Oswald em documento público, “Telefonema a Oswald de Andrade”, assinado por uns poucos escritores, no qual o poeta era apontado como “o mais jovem de todos nós”. Décio nos representou no famoso “banquete antropofágico” em homenagem ao poeta “sexappealgenário”, no Automóvel Clube.

Como que pressentindo que não o veria mais, Décio quis visitá-lo antes de partir em viagem para a Europa, marcada para 1954. Acompanhei-o nessa que foi a derradeira vez em que vi Oswald, já muito doente, em agosto de 1953. Recebeu-nos afundado numa poltrona, com a cabeça escalpelada encoberta por uma boina, e sempre assistido por sua amorosa esposa, Maria Antonieta d’Alkimin. Na ocasião, mostrei-lhe alguns dos poemas coloridos da série Poetamenos; Décio levou-lhe alguns textos inéditos. Revelou curiosidade e satisfação pelo nosso experimentalismo. Foi esse encontro que certamente inspirou a simpática menção que nos fez – “meninos que pesquisam” – na crônica Gente do Sul (que leva a rubrica dos seus “telefonemas”), estampada em 25 de agosto no Diário de S. Paulo. Em março de 1954, no convite impresso do espetáculo inaugural do Teatro de Cartilha, criado em Osasco por Décio Pignatari, este chegou a anunciar uma apresentação da peça O Rei da Vela (de que ninguém falava então), projeto interrompido pela sua viagem à Europa.

Oswald não sobreviveu para assistir à sua reabilitação pelos jovens em que apostara os escassos volumes de suas edições de minguada tiragem. Pouco se falava nele quando foi ressuscitado nos manifestos da poesia concreta, em 1956. Seus livros mofavam nos sebos. Numa entrevista que demos, Haroldo e eu, para o Jornal Popular, de São Paulo, em 22 de dezembro de 1956, proclamávamos: “Não é hábito, no Brasil, a obra de invenção. É verdade que, com o Modernismo, a literatura brasileira logrou atingir uma certa autonomia de voz, que, porém, acabou cedendo a toda sorte de apaziguamentos e diluições. Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de ‘clownismo’ futurista. Na realidade, seus poemas (Poesias Reunidas O. Andrade), seus romances-invenções Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos ou inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro. A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingindo sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional, a que não se furtaram, em derramamentos piegas, os próprios modernistas e que anula boa parte da obra de um Mário de Andrade, por exemplo.”

Hoje, como disse Décio Pignatari – o Oswald magro do Concretismo -, a Antropofagia “virou carne de vaca”… e a diluição e o consumo se encarregaram de banalizar o tema, que no entanto é mais sério do que parece. Terra de muitos estudantes e estudiosos de filosofia mas de poucos filósofos, o Brasil tem em Oswald um dos raros intelectuais a que esse termo, em sua acepção integral, pode ser aplicado sem constrangimento. Embora os seus escritos continuem a ser rejeitados pelo mundo acadêmico, evidenciam-no como um solitário pensador original. Suas provocações não ortodoxas, expressas em manifestos combativos, entrevistas e textos diversos, culminam com as de recorte mais normatizado, A Marcha das Utopias e A Crise da Filosofia Messiânica, tese com a qual se inscreveu em concurso para a cátedra de Filosofia da USP, em 1950, sem que lhe fosse dado assumi-la. Oswald não enrolava o pensamento em cipoais argumentativos. Era sintético e direto. Tinha o “defeito” literário de escrever bem. Mas não se apresentava como um meritório difusor ou questionador de doutrinas. Seu coquetel filosófico, temperado com novos fermentos dialéticos, continha ideias inovadoras. Também aqui não podia ser facilmente compreendido.

À medida que a sua obra, em parte ainda inédita, vai sendo republicada e até revelada, mais nos surpreende a atualidade de suas intervenções, apesar dos equívocos pontuais de que ninguém escapa. Oswald não era nenhum santo, nem queria ser canonizado. Fazia suas médias e às vezes decepcionava aos jovens “franciscanos” (apud Nelson Rodrigues) que éramos nós. O livro Estética e Política, organizado por Maria Eugenia Boaventura (Editora Globo, 1992), revelou-nos afinal o texto da conferência “Novas Dimensões da Poesia”, que o poeta proferiu em 19 de maio de 1949 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ali Oswald repete o inaceitável elogio que vinha fazendo ao ex-adversário Cassiano Ricardo, que ele insistia agora em considerar “o maior poeta brasileiro”, tendo chegado em outros textos a compará-lo até a Fernando Pessoa. Em compensação exalta Gôngora e Mallarmé, em claro desafio ao preconceito da crítica literária que chamava de “sociográfica”. A certa altura tem esta bela colocação, que continua válida em nossa era “pós-utópica”: “A poesia de hoje balança entre o mistério restaurado da vida e as estrelas quietas, entre a face kierkegaardiana do desespero, o deliquial e o perplexo. E mostra esse neutro avesso da utopia a que o homem se habituou, depois da frustração dos seus messianismos. Mas a revolta não acabou. E ainda se pergunta: Como cantar com a boca cheia de areia?” Sem ter ouvido as palavras do poeta, eu as ecoaria com a “areia areia arena céu e areia” do meu poema O Rei Menos o Reino, publicado no caderno literário do Jornal de São Paulo em 9 de abril de 1950. Oswald ainda reflete sobre “o caminho percorrido”: “Fizemos até os primeiros passos na direção de uma geometria do verso.” E acentua: “poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca.” Menciona, por fim, Kierkegaard, Nietzsche, Joyce e Lautréamont. Conclui com estas palavras: “Mallarmé chamou de poema em prosa o maior esforço versificado do século XIX: Un Coup de Dés Jamais n’Abolira le Hasard.”

Não basta Oswald ter “torcido o pescoço à eloquência” dos versos que nunca fez, criado não o poema-piada – como parecia à maioria dos seus contemporâneos -, mas o poema-palavra ou palavraprimal (amor/humor), arquitetado os seus romances-invenção, pensado, na síntese do matrianárquico “bárbaro-tecnizado”, a última utopia para a civilização ideal que imaginara, e lançado dois manifestos que ainda são a suma e o sumo do ideário poético da modernidade. Tudo isso que nos fez colocá-lo entre os nossos mentores. Sabemos agora que ele nos antecipou também na reavaliação do “lance de dados” mallarmaico, que seria tido por nós como o limiar da poesia do nosso tempo e era renegado na época até pela crítica francesa. E que ele, positivamente, nunca teve medo da palavra “geometria”.

Augusto de Campos é poeta, tradutor e ensaísta, autor, entre outros, de Viva Vaia (Ateliê), Não e Despoesia (ambos publicados pela Perspectiva) e do recém-lançado Poemas, de E.E. Cummings (Editora da Unicamp).

“Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, na França

Caderno ENSAiOS tem a honra de noticiar o lançamento da obra Pau-Brasil – Poesia e Manifesto, de Oswald de Andrade, em edição francesa.

O projeto é uma iniciativa de Antoine Chareyre, pesquisador francês do modernismo brasileiro, e saiu em primeira mão no blog Retalhos do Modernismo, do meu amigo Luiz de Almeida.

Passo contínuo, reproduzimos a apresentação do tradutor em que ele nos fala da sua aventura de idealizar esse projeto literário.

Boa leitura!

Bois Brésil, par Oswald de Andrade

Bois Brésil, par Oswald de Andrade

INTRODUÇÃO

Luiz de Almeida

O meu primeiro contato com o pesquisador e tradutor Antoine Chareyre (*), residente em Grenoble, França, foi após a postagem da matéria sobre o Poeta bissexto Luís Aranha, em março de 2009 – (Veja: http://literalmeida.blogspot.com/2009/03/luis-aranha-poeta-modernista-bissexto.html). Naquela ocasião, Antoine estava pesquisando o Poeta – e até hoje nos correspondemos mantendo constante permuta de informações literárias e ocasionais entre Brasil & França.

Recentemente recebi de Antoine, parte substancial da sua tradução bilíngue e crítica do “Pau Brasil”, do Oswald de Andrade, já editada pela “Editions de la Différence”, Paris: http://www.ladifference.fr/

Sem perda de tempo, solicitei àquele tradutor que elaborasse uma explanação a respeito do “Bois Brésil (Poésie et Manifeste)”, para postar no Retalhos, narrando o histórico dessa sua tradução e da edição francesa. E, gentilmente, Antoine enviou o solicitado, dando a honra ao Retalhos da divulgação inédita desse grande acontecimento para a Literatura Brasileira, como segue:

POESIA DE EXPORTAÇÃO… EXPORTADA!

Ao pedido de Luiz de Almeida, amigo dos amigos do Modernismo… venho com alegria apresentar, aos leitores do blog Retalhos do Modernismo, um pouco do que me levou a idealizar a tradução francesa do Pau Brasil de Oswald de Andrade que está chegando nas livrarias, e o que essa edição pode simbolizar no destino do Modernismo brasileiro fora do país.

Como se sabe, Oswald viveu ricos meses em Paris, durante o ano 1923. Lá encontrou, entre muitos outros, o poeta suíço-francês Blaise Cendrars, grande figura da vanguarda parisiense desde antes a primeira guerra mundial, e que ficaria mais tarde bem conhecido pela temática brasileira desenvolvida na sua obra narrativa ou ensaística (e aqui se deve lembrar o livro dele ultimamente traduzido em português do Brasil, O loteamento do céu, pela Companhia das Letras, em 2009). Foi de volta ao Brasil que Oswald publicou, já no início de 1924, o seu Manifesto da Poesia Pau Brasil, onde dava o nome de Cendrars como exemplo, e ainda se sabe que a escritura dos poemas a sair em livro pela editora parisiense Au Sans Pareil, em 1925, com dedicatória ao próprio Cendrars, se desenvolveu com a cumplicidade deste, que fazia sua primeira viagem no Brasil, em 1924… Todo isso, e mais outras considerações, significa que parte da vida e da obra poética do Oswald não se pode entender sem estudar essa relação com a modernidade francesa, o que também se deve considerar no âmbito do movimento modernista, que foi tão atento a atualidade cultural de Europa: os pesquisadores brasileiros já exploraram bastante essa história, pesquisa que resultou em alguns livros famosos, e que ainda pode ser desenvolvida. Mas significa também, mudando o ponto de vista, que em França um verdadeiro conhecimento da história literária e cultural deveria incluir essa presença de tantos jovens brasileiros no Paris da década 20… mas até hoje é coisa que interessa pouca gente. Em primeiro lugar, esse é o contexto no qual surge agora a edição francesa do Pau Brasil.

Eu mesmo desconhecia tudo do Modernismo antes de uma viagem em 2007. Já estudava havia tempo a poesia das vanguardas francesas e européias dos anos 1910 e 1920. Quem se interessa na questão das vanguardas históricas do século XX sabe que a dimensão internacional dos fatos é primordial. Então, quando parti para o Brasil, botei nas malas o livrinho de Cendrars, “Feuilles de route: I. Le Formose”, poemas da ida ao Brasil em 1924. Já representava, por isso, um bom guio simbólico para minha primeira viagem. Mas uma curiosidade do livro fica na dedicatória coletiva, onde Cendrars transcreveu (com muitos erros nas grafias…) os nomes dos amigos que lhe acolheram no Rio, em Santos e em São Paulo, e que não são outros do que os integrantes do então movimento modernista (nem todos, alias, passaram para a posteridade com igual sucesso…). Chegando lá, interroguei um amigo sobre quais eram os mais famosos desses nomes na literatura brasileira. Não me lembro bem da resposta, mas sem duvida o nome de Oswald obteve um dos primeiros lugares. Fui então às livrarias das cidades por onde passei: Brasília, São Paulo, Rio, e comecei uma pequena coleção de livros modernistas… Voltei com o “Pau Brasil”, que meses depois decidi traduzir, estimulado especialmente pelo longo estudo de Haroldo de Campos que ainda hoje se pode ler como prefácio na edição Globo, e que também acabei por traduzir, em edição avulsa (veja: http://www.lespressesdureel.com/home.php ), para acompanhar simultaneamente a do Pau Brasil, oferecendo assim, ao leitor francês, tanto uma obra fundamental como um gesto crítico que foi tão importante na sua redescoberta no próprio Brasil… Ora, foi então que começou, além do trabalho da tradução propriamente dita, uma pesquisa estupenda que cada vez mais me enlouqueceu; li tudo e descobri a riqueza das relações franco-brasileiras no caso de Oswald, assim como no do Modernismo em geral, e fiquei com a certeza do que tudo isso deveria chamar a atenção dos leitores franceses, além dos nossos poucos especialistas em literatura luso-brasileira. Li os lindos ensaios de Paulo Prado, vi a pintura de Tarsila (de quem o único quadro conservado em França, seja dito de passagem, se encontra no Museu de Grenoble, cidade onde moro; se trata d’A Cuca, que integrava a primeira exposição individual da pintora, em Paris em 1926…), mas também revisitei a obra do bilíngue Sérgio Milliet, outro brasileiro de Paris, e cuja poesia às vezes tem semelhanças com a do Oswald, mas isso por outro caminho que será outra história: a do meu encontro com a obra de Mário de Andrade, que desde logo comentou os poemas de Milliet, junto com os de Luís Aranha, no ensaio “A escrava que não é Isaura”, redigido em 1922 e publicado em 1925. Por isso, vim a traduzir e organizar um livro de Luís Aranha e outro de Milliet, com poemas, prosa narrativa e textos críticos, a sair logo, e que talvez resulte mais tarde em uma edição brasileira quase gêmea, sendo que Milliet foi bastante esquecido no Brasil, ao que parece; também estão se preparando dois livros de Mário de Andrade, um com a “Paulicéia Desvairada’, outro com a “Escrava e outros ensaios”, para o ano 2011, e mais tarde, sem dúvida, chegarão Ronald de Carvalho, Paulo Prado, Alcântara Machado e outros… Isso para dizer que o “Pau Brasil”, essa “poesia de exportação”, sai agora como marco simbólico de uma série de publicações especialmente focalizando a produção do Modernismo brasileiro tão ignorado em França, a não ser os grandes Drummond e Bandeira, cuja poesia foi traduzida há tempo, e os romances mais famosos dos dois Andrade. Tem toda uma geração que carecemos integrar, desde aqui, na história internacional das vanguardas, e acho lindo o fato do ‘Pau Brasil” ser o estandarte dessa aventura editorial. Nem outro era o intuito do próprio Oswald, na época, se não me engano.

Enfim, talvez seja de alguma utilidade essa poesia oswaldiana chegando só agora nas livrarias francesas. Pois, de fato, se trata da primeira tradução em francês (note-se que a primeira tradução do Pau Brasil, em espanhol, é do ano 2008…), mas também da primeira edição crítica mundial. O que devia ser uma simples tradução ficou um monstro de edição, mas era preciso ser assim, sendo tudo para fazer em uma só vez.

No longo prefácio que redigi, e nas notas demasiado numerosas à tradução, além da matéria dirigida ao leitor francês (tomando em conta a diferença cultural e a necessidade de dar a conhecer fatos do movimento modernista), pude reunir uma quantidade de informações que resultaram em um balanço das pesquisas até hoje realizadas no Brasil (e às vezes em França) sobre a obra e seu contexto, além de alguns pontos que pretendo divulgar, do meu ponto de vista francês ou não. Deixo cada um ler e descobrir, mas acho mesmo que certas coisas da edição só poderão chamar a atenção, como novidades, dos que, entre os brasileiros, já conhecem bastante o Oswald… Assim concebi o livro como um empreendimento verdadeiramente franco-brasileiro, em correspondência contumaz com o que compõe a bio-bibliografia de Oswald, e nada me será mais caro do que encontrar curiosidade e simpatia também do lado brasileiro.

Antoine Chareyre.

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NOTA:

(*) ANTOINE CHAREYRE – Síntese Biográfica:

– Nascido em 1980, em França, numa região sem cultura nenhuma onde nem se encontrava um livro por cada quilômetro quadrado;

– 1998: Iniciou estudos em literatura francesa, pela Universidade Stendhal, na cidade de Grenoble. Decidiu se dedicar profissionalmente ao estudo da poesia moderna, especialmente no quadro dos movimentos vanguardistas de 1910/20;

– 2001/02: Esse encontro progressivo com a poesia teve início, na verdade, com a obra do poeta e escritor Henri Michaux. Para ganhar o pão, passou anos aborrecedores para conseguir nos concursos públicos e ficou professor « agrégé » em letras modernas no ensino secundário;

– 2005: Voltou à pesquisa propriamente dita e fez o Mestrado sobre as relações entre poesia e música no uso experimental da vocalidade;

– 2006: Iniciou o Doutorado sobre a questão da abstração lingüística nas invenções poéticas das primeiras vanguardas, pesquisa ainda em andamento, ao mesmo tempo em que dá cursos de literatura na Universidade. Iniciou, por motivos pessoais, o estudo da língua portuguesa;

– 2007: Viajou ao Brasil pela primeira vez, de onde concebeu interesse para o Modernismo brasileiro e ficou tradutor, especialmente para divulgar no seu país aquela poesia modernista que pretende ao mesmo tempo estudar do ponto de vista de um pesquisador francês inteiramente dedicado ao vanguardismo universal;

– 2010: Conclui a tradução do livro “Pau-Brasil”, do Oswald de Andrade. Seus projetos atuais: concluir a tese de Doutorado, acabar as várias traduções em andamento, idealizar outras… E voltar ao Brasil.