O frio como metáfora

Caderno Ensaios republica texto do jornalista espanhol Juan Cruz. Ao falar de Buchenwald, segue de perto uma personagem-símbolo do holocausto:  Jorge Semprún, cidadão do mundo.  Essa é  a nossa sincera homenagem ao escritor e roteirista.


Jorge Semprún

Jorge Semprún

por Juan Cruz

Houve um momento, em meio à planície deserta, especialmente solene e terrível que simboliza Buchenwald como lugar de encontro entre o Mal e a perplexidade, em que me fixei nos rostos dos vencidos a quem a História logo transformou em vencedores. Neste instante, assustados pelo tempo e pela aragem terrível da memória, uns mais fortes ou mais jovens e outros agora feitos à imagem da última velhice, todos mantinham um vigor que é aquele que deve nascer da reminiscência, da razão política que então estava presente e do espírito de luta que conservaram igualmente dentro do campo de concentração. No meio daquele silêncio que, às vezes, os aplausos interrompiam e alguns gritos isolados – contra os políticos alemães, majoritariamente, ou porque se demoravam em seus discursos ou porque não refletiam aquilo que gostariam de escutar os que protestavam –, se levantavam esses rostos enobrecidos pelo tempo e pelo combate. Ou seja, pelo passado que voltava a seus semblantes, algumas vezes como um resplendor e, em todo caso, com o brilho intenso da melancolia. Queria ouvir Jorge Semprún em alemão. De que modo conserva este espanhol extraordinário, mescla de muitas pátrias (quem tem muitas pátrias na verdade não morre por nenhuma, diz n’A escritura ou a vida, um livro de cabeceira) a língua que foi também a língua de sua infância, quando se criava em Madri e durante as tardes o levavam a filmes alemães. Ali estava, em frangalhos pelas dores que martirizam seus ossos, porém firme, no meio daquele frio intenso de Buchenwald, um dia semelhante como aquele em que o campo foi libertado, 11 de abril de 1945. Assim como naquela ocasião, o frio era impressionante, insuportável, subia pelos pés e os congelava, e se atirava contra a garganta e contra o rosto, e te rompia por dentro, nos obrigando em seguida a uma recuperação, uma manta, o calor de um café, uma casa. E ali estavam Semprún e seus amigos, os sobreviventes do campo, suportando essa temperatura que naqueles anos de exílio e tortura devia ser ainda mais inclemente, mais encarcerante. Pensei no frio daquele momento, de que modo devia ser, e no frio de agora, e o frio se tornou uma suave brisa, necessária para suportar o calor ingente da memória. A dignidade daqueles rostos, sob o frio, a água da neve, o granizo, em meio às paragens da história; de que maneira seria, como é, a lembrança da solidão em meio à perplexidade que une os homens numa crença para combater o gelo que cai sobre eles. E agora estou em Bilbao, para falar de Unamuno. Não sei por que, no entanto há algo naquele Semprún de ontem que me lembra Unamuno, como se ele também escrevesse arranhando a parede pétrea da memória, como se desenhasse no passado o rosto do presente.

Fonte: Blog por Juan Cruz

Tradução: Theotonio de Paiva

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3 pensamentos sobre “O frio como metáfora

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  3. andava sumido e retorna com este poema lindo e triste que, lembro, já li aqui mesmo.
    bom lembrar deste calor que àlguns homens é dado o direito de lembrar de um modo tão pungente.
    beijão seu moço.

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