Pós-Walds

Oswald de Andrade (sentado no chão), foi um dos líderes da Semana de 22

Oswald de Andrade, sentado no chão, foi um dos líderes da Semana de 22

Em artigo publicado n’O Estado de São Paulo, o poeta Augusto de Campos revê a extraordinária herança cultural do escritor Oswald de Andrade, o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty.

Por Augusto de Campos

Conheci “Oswáld” (não “Ôswald”) em 1949, na companhia de Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Eu tinha 18 anos, Décio, o mais velho, 22. Fomos apresentados a Oswald por Mário da Silva Brito, que nos levou ao apartamento do poeta. Estava ainda muito ativo, defendendo o Modernismo e combatendo a “geração de 45”, em conferências e desaforadas crônicas (Telefonemas), e às vezes aos risos e berros no Clube de Poesia, com o costumeiro sarcasmo e muitos trocadilhos.

Mesmo reconhecido como o último representante radical dos modernistas (Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo eram biacadêmicos), não era levado muito a sério nem pelos poetas dominantes nem pelos “chato-boys” da revista Clima, que chegou a botar fé no oposto da poesia oswaldiana, a oratória engajada de Rossine Camargo Guarnieri… Mas ele se dava com todos. Temido polemista, porém sociável e ridente, por certo contava que suas gozações públicas, de ferinas a ferozes, fossem perdoadas pelos inimigos com os quais facilmente se reconciliava sem propriamente se emendar.

Em memorável comunicação ao Congresso de Poesia, realizado em São Paulo, em 1948, tribuna da “geração de 45”, Patrícia Galvão, solidária com Oswald, o descreve “de facho em riste, bancando o Trotsky, em solilóquio com a revolução permanente”. Em 1982, eu trouxe à tona esse importante documento, desconhecido das novas gerações e de nós mesmos, no livro Pagu: Vida-Obra.

Contemporâneo do grupo de 45, porém marginalizado por sua paixão pelos modernistas, Mário da Silva Brito era amigo íntimo de Oswald. Nenhum de nós, os “novíssimos”, tinha livro publicado, mas as revistas e jornais literários já haviam estampado alguns dos nossos poemas. Oswald se entusiasmou tanto com a nossa visita que deu a cada um de nós, autografado, um volume dos poucos que ainda tinha de Poesias Reunidas O. Andrade (1945), edição especial de largo formato ilustrada por Tarsila, Segall e por ele (tiragem: 200 cópias). Mais adiante, presenteou-nos com um volume da esgotadíssima edição de Serafim Ponte Grande (1933) com a dedicatória: “aos Irmãos Campos (Haroldo e Augusto) – firma de poesia”. Guardo dele uma impressão de vulnerabilidade e solidão, sob a máscara galhofeira. Magoado com a ambígua amizade e o mal disfarçado desdém da intelectualidade da hora, apostava nos jovens. Depois nos encontramos várias vezes em reuniões em sua casa ou na de amigos comuns. Quando completou 60 anos, em 1950, época em que foram publicados O Auto do Possesso, de Haroldo, e O Carrossel, de Décio, saudamos Oswald em documento público, “Telefonema a Oswald de Andrade”, assinado por uns poucos escritores, no qual o poeta era apontado como “o mais jovem de todos nós”. Décio nos representou no famoso “banquete antropofágico” em homenagem ao poeta “sexappealgenário”, no Automóvel Clube.

Como que pressentindo que não o veria mais, Décio quis visitá-lo antes de partir em viagem para a Europa, marcada para 1954. Acompanhei-o nessa que foi a derradeira vez em que vi Oswald, já muito doente, em agosto de 1953. Recebeu-nos afundado numa poltrona, com a cabeça escalpelada encoberta por uma boina, e sempre assistido por sua amorosa esposa, Maria Antonieta d’Alkimin. Na ocasião, mostrei-lhe alguns dos poemas coloridos da série Poetamenos; Décio levou-lhe alguns textos inéditos. Revelou curiosidade e satisfação pelo nosso experimentalismo. Foi esse encontro que certamente inspirou a simpática menção que nos fez – “meninos que pesquisam” – na crônica Gente do Sul (que leva a rubrica dos seus “telefonemas”), estampada em 25 de agosto no Diário de S. Paulo. Em março de 1954, no convite impresso do espetáculo inaugural do Teatro de Cartilha, criado em Osasco por Décio Pignatari, este chegou a anunciar uma apresentação da peça O Rei da Vela (de que ninguém falava então), projeto interrompido pela sua viagem à Europa.

Oswald não sobreviveu para assistir à sua reabilitação pelos jovens em que apostara os escassos volumes de suas edições de minguada tiragem. Pouco se falava nele quando foi ressuscitado nos manifestos da poesia concreta, em 1956. Seus livros mofavam nos sebos. Numa entrevista que demos, Haroldo e eu, para o Jornal Popular, de São Paulo, em 22 de dezembro de 1956, proclamávamos: “Não é hábito, no Brasil, a obra de invenção. É verdade que, com o Modernismo, a literatura brasileira logrou atingir uma certa autonomia de voz, que, porém, acabou cedendo a toda sorte de apaziguamentos e diluições. Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de ‘clownismo’ futurista. Na realidade, seus poemas (Poesias Reunidas O. Andrade), seus romances-invenções Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos ou inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro. A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingindo sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional, a que não se furtaram, em derramamentos piegas, os próprios modernistas e que anula boa parte da obra de um Mário de Andrade, por exemplo.”

Hoje, como disse Décio Pignatari – o Oswald magro do Concretismo -, a Antropofagia “virou carne de vaca”… e a diluição e o consumo se encarregaram de banalizar o tema, que no entanto é mais sério do que parece. Terra de muitos estudantes e estudiosos de filosofia mas de poucos filósofos, o Brasil tem em Oswald um dos raros intelectuais a que esse termo, em sua acepção integral, pode ser aplicado sem constrangimento. Embora os seus escritos continuem a ser rejeitados pelo mundo acadêmico, evidenciam-no como um solitário pensador original. Suas provocações não ortodoxas, expressas em manifestos combativos, entrevistas e textos diversos, culminam com as de recorte mais normatizado, A Marcha das Utopias e A Crise da Filosofia Messiânica, tese com a qual se inscreveu em concurso para a cátedra de Filosofia da USP, em 1950, sem que lhe fosse dado assumi-la. Oswald não enrolava o pensamento em cipoais argumentativos. Era sintético e direto. Tinha o “defeito” literário de escrever bem. Mas não se apresentava como um meritório difusor ou questionador de doutrinas. Seu coquetel filosófico, temperado com novos fermentos dialéticos, continha ideias inovadoras. Também aqui não podia ser facilmente compreendido.

À medida que a sua obra, em parte ainda inédita, vai sendo republicada e até revelada, mais nos surpreende a atualidade de suas intervenções, apesar dos equívocos pontuais de que ninguém escapa. Oswald não era nenhum santo, nem queria ser canonizado. Fazia suas médias e às vezes decepcionava aos jovens “franciscanos” (apud Nelson Rodrigues) que éramos nós. O livro Estética e Política, organizado por Maria Eugenia Boaventura (Editora Globo, 1992), revelou-nos afinal o texto da conferência “Novas Dimensões da Poesia”, que o poeta proferiu em 19 de maio de 1949 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ali Oswald repete o inaceitável elogio que vinha fazendo ao ex-adversário Cassiano Ricardo, que ele insistia agora em considerar “o maior poeta brasileiro”, tendo chegado em outros textos a compará-lo até a Fernando Pessoa. Em compensação exalta Gôngora e Mallarmé, em claro desafio ao preconceito da crítica literária que chamava de “sociográfica”. A certa altura tem esta bela colocação, que continua válida em nossa era “pós-utópica”: “A poesia de hoje balança entre o mistério restaurado da vida e as estrelas quietas, entre a face kierkegaardiana do desespero, o deliquial e o perplexo. E mostra esse neutro avesso da utopia a que o homem se habituou, depois da frustração dos seus messianismos. Mas a revolta não acabou. E ainda se pergunta: Como cantar com a boca cheia de areia?” Sem ter ouvido as palavras do poeta, eu as ecoaria com a “areia areia arena céu e areia” do meu poema O Rei Menos o Reino, publicado no caderno literário do Jornal de São Paulo em 9 de abril de 1950. Oswald ainda reflete sobre “o caminho percorrido”: “Fizemos até os primeiros passos na direção de uma geometria do verso.” E acentua: “poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca.” Menciona, por fim, Kierkegaard, Nietzsche, Joyce e Lautréamont. Conclui com estas palavras: “Mallarmé chamou de poema em prosa o maior esforço versificado do século XIX: Un Coup de Dés Jamais n’Abolira le Hasard.”

Não basta Oswald ter “torcido o pescoço à eloquência” dos versos que nunca fez, criado não o poema-piada – como parecia à maioria dos seus contemporâneos -, mas o poema-palavra ou palavraprimal (amor/humor), arquitetado os seus romances-invenção, pensado, na síntese do matrianárquico “bárbaro-tecnizado”, a última utopia para a civilização ideal que imaginara, e lançado dois manifestos que ainda são a suma e o sumo do ideário poético da modernidade. Tudo isso que nos fez colocá-lo entre os nossos mentores. Sabemos agora que ele nos antecipou também na reavaliação do “lance de dados” mallarmaico, que seria tido por nós como o limiar da poesia do nosso tempo e era renegado na época até pela crítica francesa. E que ele, positivamente, nunca teve medo da palavra “geometria”.

Augusto de Campos é poeta, tradutor e ensaísta, autor, entre outros, de Viva Vaia (Ateliê), Não e Despoesia (ambos publicados pela Perspectiva) e do recém-lançado Poemas, de E.E. Cummings (Editora da Unicamp).

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2 pensamentos sobre “Pós-Walds

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