Virada política

Brasília

Brasília, no dia 17 de junho de 2013

por Lincoln Secco*

O Brasil mudou. Excetuadas as passeatas festivas ou marchas evangélicas, desde a Campanha pelo impeachment em 1992 não havia manifestações de rua com tantas pessoas simultaneamente em várias cidades do país. É verdade que as atuais não se comparam em número, finalidade e abrangência com as Diretas Já, que ainda continuam sendo o maior movimento de massas da história do Brasil (embora ainda não saibamos a amplitude que os protestos atuais poderão tomar). Mas elas são o quarto movimento de politização em massa dos últimos trinta anos.

No primeiro deles, as greves do ABC em 1978-1980 permitiram a criação do novo sindicalismo, do MST, do PT e da CUT. O PT questionou a estrutura tradicional dos partidos comunistas e foi em seus primeiros anos uma verdadeira federação de núcleos e movimentos com grande autonomia em seu interior. As greves foram derrotadas, mas o PT sobreviveu e cresceu.

O segundo momento foi uma Revolução Democrática que pôs fim ao Governo Militar. O processo começou pela campanha das diretas, mas foi filtrado pela lógica eleitoral que deu ao PMDB um papel proeminente na vida política. A última tentativa de se opor àquela reação conservadora do PMDB foi a campanha da Frente Brasil Popular em 1989. O saldo organizativo foi a constituição do PT como alternativa eleitoral radical de poder.

O terceiro momento (o Impeachment) devolveu à UNE seu papel de liderança dos movimentos estudantis, mas as lideranças se contentaram com a simples troca do presidente Collor pelo seu vice Itamar Franco, o que acabaria permitindo ao seu Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso se tornar depois presidente.

Vimos que nos três momentos houve saldos de organização, mas logo encapsulados pelas forças conservadoras. Durante a década neoliberal dos anos noventa houve um esvaziamento das ruas e o declínio da militância partidária, como se pode constatar pela História do PT. Ainda assim, aquele partido manteve o controle das principais organizações sindicais e movimentos sociais surgidos nos anos 1980.

Quando o PT foi jogado no canto do ringue durante os escândalos de 2005 a Direita midiática esperava manifestações populares que nunca aconteceram. Lula governou oito anos sem enfrentar uma situação como a atual.

Mas agora a política mudou. Fatores internacionais (crise de 2008, Primavera Árabe, movimento dos indignados), aliados a transformações tecnológicas que permitem a ação em rede e a comunicação em tempo real por telefones móveis também respondem pelas mudanças. Mas nada disso aconteceria se o PT houvesse mantido sua hegemonia nos protestos de rua como acontecia antes.

Burocratizado, governista, ele não demonstrou capacidade de se inovar e voltar às ruas. Mantém uma estrutura invejável, um líder carismático e o sólido controle de sindicatos e movimentos sociais, mas não são estes que convocam as manifestações. E por mais que tentem, seus concorrentes de extrema esquerda também não controlam nada.

Na Cidade de São Paulo a tomada espontânea das ruas em diferentes pontos da cidade não se compara a nada antes ocorrido. As pessoas simplesmente se apropriaram do que deveria ser delas: o leito carroçável, o direito de se manifestar e de andar à noite com os amigos em segurança. Afinal, não há melhor segurança do que multidões nos espaços púbicos. O que elas fizeram ainda não tem caráter de permanência, mas decerto a tarifa zero permitiria um pouco de trabalho, diversão e arte todos os dias. A forma fez-me lembrar a virada cultural paulistana. Só que agora se trata de uma virada política.

A história nos ensina que cada movimento destes politiza de uma só vez milhares de pessoas. Elas não aprendem com teorias, mas com ações. Só que depois as teorizações, o aprendizado em coletivos permanentes é que consolida o movimento. Daí a pergunta essencial que não se põe agora, mas se colocará num futuro próximo: qual o saldo organizativo destas manifestações?

Se elas terão influência eleitoral futura é o que menos importa. A Direita Midiática já começou vasta operação para se apossar do movimento de massas. Mas ela não terá sucesso porque nada tem a oferecer. As pessoas sabem que ela não apóia nenhuma das reivindicações do Movimento Passe Livre. Mas a vigilância do MPL deve ser redobrada e ele não pode permitir que a massificação dos atos seja submergida na oposição oficial partidária.

O PT também se vê pela primeira vez em sua história confrontado por um movimento de massas. Por mais que militantes petistas e até políticos estabelecidos apóiem, ainda que tarde, as manifestações, é inegável que em São Paulo o aumento de tarifas de transporte determinado por administração do partido foi o estopim do movimento. O PT não é mais o dono das ruas, mas ninguém é.

Os partidos de ultra-esquerda cometeram o erro de nascer cedo demais como rachas internos e sem o batismo que só agora as ruas poderiam ter-lhe oferecido. O perigo é uma manifestação como a atual ter sua voz (como já acontece) ser canalizada pela mídia conservadora que rapidamente percebeu que podia virar o jogo para não perder mercado.

Que os partidos continuam importantes na rotina eleitoral e que haja diferenças entre PT e PSDB pode não ser a crença de vários partidos de esquerda, mas é a de milhões de beneficiários das políticas sociais, do aumento do emprego e do salário mínimo que o PT implantou no Brasil.

O PT é melhor do que o PSDB evidentemente. Só que este partido não pode contar mais com apoio militante que não seja profissionalizado. Suas políticas sociais já dormem sob um cobertor curto que ao se puxar para cobrir a cabeça, os pés ficam de fora. É que quando as pessoas conquistam direitos, elas querem mais. Se a ousadia (ou mesmo o cálculo eleitoral que, afinal de contas, tem sido a única coisa de interesse para seus dirigentes) fizesse o PT defender a tarifa zero, ele criaria o seu segundo bolsa família no Brasil.

Mas o futuro dessa geração nova que vai às ruas diz respeito a outra coisa. Se os partidos saberão interpretar o seu desejo é problema deles. O que o Movimento do Passe Livre apontou é uma questão maior: poderá a autonomia das ruas se expressar em novas formas de organização ou será enjaulada no discurso dos donos da Grande Imprensa?

* Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP

Este texto foi publicado originalmente no Viomundo

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Como usar o drama para fazer marketing

Por Pedro Aguiar, do IFDBlog

William Bonner em frente à Boite KissNo filme Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News), de 1987, o personagem Tom Grunick, vivido por William Hurt, é um âncora de telejornal narcisista e inescrupuloso que manipula o aspecto patético do noticiário para ganhar audiência e, principalmente, prestígio profissional. Na sequência-chave da trama, ele edita um VT inserindo imagens de si mesmo chorando ao escutar o relato de uma entrevistada, vítima de estupro. Mas os métodos antiéticos e o jornalismo emocional e grotesco, na mesma medida em que o tornam queridinho dos chefes e executivos da emissora, rendem a ele a crítica e o desprezo entre os colegas.

O filme foi escrito e dirigido por James L. Brooks. No ano seguinte, Brooks seria criador, junto ao desenhista Matt Groening, do desenho animado Os Simpsons, uma das primeiras e mais contundentes sátiras à estereotípica família de classe média norte-americana, saída da Era Reagan com os valores exacerbadamente egocêntricos, materialistas e fúteis, preocupados tão somente com o lazer e o dia de amanhã, e com um desdém assumido por todo aprofundamento, toda crítica, toda ponderação.

O pai da família-escárnio concebida por Brooks e Groening, Homer Simpson, é uma figura simplória, trabalhador honesto porém disposto a pequenas mentiras e jeitinhos para satisfazer vontades ou resolver problemas. Desligado de questões que vão além de seu próprio jardim, tudo que Homer almeja em cada episódio é manter-se confortável em sua rotina, sem questionar o mundo, e refestelar-se no sofá após cada dia de trabalho para assistir a televisão.

Informação em redes

Foi esse arquétipo que o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, elegeu para descrever o espectador médio de seu telejornal, o de maior audiência no Brasil há décadas. Não apenas na frente de professores como Laurindo Leal Filho, da USP, que chamou atenção para o aspecto desdenhoso da comparação anos atrás, mas também para estudantes de jornalismo levados a visitar a redação do JN – como eu, em novembro de 2005, então aluno da UFRJ . Hoje, passados alguns anos de formação e reprodução, o estilo Bonner/Homer (ou talvez Bonner/Grunick) parece ter feito escola e já está normalizado, em certos círculos tratados como se fosse “a” maneira de se fazer jornalismo.

Não fosse assim, não haveria espaço moral nem tolerância para a edição do Jornal Nacional de segunda-feira (28/1), gastar preciosos minutos com autopromoção em lugar de entrar direto com informações sobre a tragédia da boate Kiss em Santa Maria (RS). Deixando o lide para segundo plano, o âncora William Bonner preferiu descrever e apresentar ele próprio, a própria equipe, seu deslocamento, suas habilidades e suas reações subjetivas ao deparar-se com o fato, e não o fato em si.

Um take de Bonner dentro do jatinho particular apelidado de “JN no Ar”, para fins de marketing, tem carga informativa nula sobre os 245 mortos no incêndio da boate Kiss, bem como a situação de seus familiares ou a investigação sobre as causas e os responsáveis. Saber que a equipe decolou do Rio de Janeiro ou foi deslocada de São Paulo, Porto Alegre ou Buenos Aires para fazer a “suíte” da tragédia acrescenta absolutamente nada para quem está ansioso por notícia, nomes, números, histórias sobre o que ocorreu.

Este é apenas o trabalho dos jornalistas; não há nada ali para jactar-se. Não são “bastidores da notícia” – neste caso, reveladores de nada. Desperdiçar tempo de sinal ao vivo para promover seu próprio dever de ofício em vez de exercê-lo (ou seja, informar) é pegar carona na tragédia alheia para fazer marketing institucional. Além de narcisismo típico de amadores, demonstra insensibilidade e desrespeito para com a memória das vítimas, suas famílias e a população brasileira.

Uma nação que ficou consternada e solidária com a tragédia da Kiss não está esperando propaganda travestida de noticiário; tampouco está preocupada com avaliações passionais por parte de quem nem está autorizado a fazê-las. O fato é trágico em si: dispensa adjetivos e melodrama. A maneira mais respeitosa, mais honesta e mais jornalística de apresentá-lo é apenas com o objeto da notícia: as pessoas que morreram, as que enterraram seus mortos, as que estão chorando, as que estão buscando fazer justiça, e mesmo as que causaram tudo.

O horror fala sozinho, sem cenários, maquiagem nem trilha sonora. A narrativa melodramática tem seu lugar no imaginário social, mas é na novela, e não no programa que vem logo antes.

É mais sintomático que tal opção editorial pela tabloidização parta especificamente da TV Globo, que investe montantes vultosos em construção de imagem institucional, justamente porque esta é arranhada em seus pecados cotidianos, suas escolhas editoriais enviesadas e sua desfaçatez em manipular fatos e apresentá-los como isentos. De pouco ou nada adianta tanto marketing se, nos outros dias do ano, o produto principal da casa continua indo na contramão dos interesses públicos, o que é cada vez mais neutralizado pelos fluxos de informação em redes. Felizmente, os âncoras (que acumulam o cargo de apresentadores e editores dos telejornais de alcance nacional) não têm mais a força que tinham quando as emissoras brasileiras dos anos 1970-80 copiaram o modelo norte-americano dos anos 1950-60.

O que está em pauta

Se, no filme de 1987, James L. Brooks chamava a atenção para o “poder exagerado dos âncoras” e os responsabilizava (na voz do personagem Aaron Altman, o editor de texto que lhe servia de alterego) por “baixar os padrões, pouco a pouco” da sociedade, no desenho animado que está no ar até hoje ele demonstra os efeitos que esse processo midiático causa em uma família mediana. O pai da família Simpson, como o espectador idealizado do Jornal Nacional, comove-se com uma catástrofe agora, depois muda de canal e abre uma lata de cerveja no sofá para ver futebol. É contando com essa indiferença que a mídia corporativa opera. Por isso, cada vez se constrange menos em usar o espaço do noticiário para fazer seu próprio comercial.

Em outro VT, a inserção da imagem da correspondente Délis Ortiz acolhendo no ombro o choro da mãe de uma vítima do incêndio da boate República Cro-Magnon, ocorrido em dezembro de 2004, em Buenos Aires, é idêntica à artimanha de Tom Grunick no filme Nos Bastidores da Notícia. Coloca-se em primeiro plano o mensageiro, não a mensagem, e com isso joga-se para escanteio a dor, o sofrimento e o que verdadeiramente importa para o jornalismo, que é a informação.

Não que a repórter não tenha direito a se emocionar ou que o gesto de empatia não seja belo; claro que é. Apenas não tem lugar num jornalismo que abdique do aspecto patético e se concentre no objeto, como costumava se ensinar antes da Escola Bonner/Hommer. Jornalistas somos seres humanos, sem dúvida, mas não é nossa subjetividade que está em pauta. Ou, como ironizava Aaron Altman, “lembrem-se sempre: nós é que somos a notícia, não eles”.

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“Vivemos em uma ditadura ou em uma democracia?” / Entrevista com Hervé Kempf

Entrevista a Eduardo Febbro, na Carta Maior

Hervé KempfParis – Vivemos em uma ditadura ou em uma democracia? A pergunta tem, para o ensaísta francês Hervé Kempf, uma resposta sem concessões: as sociedades ocidentais vão a caminho da ditadura. Os modelos que regem hoje as sociedades democráticas do ocidente são democracias de papelão pintado que só obedecem a um amo: o sistema financeiro. Seu poder absoluto por sobre todas as coisas não só cria desigualdades abismais entre os indivíduos, mas também, e sobretudo, levou o planeta à crise ecológica que põe hoje em perigo a permanência da espécie humana.

Essa é a tese central do último livro com o qual Hervé Kempf fecha a trilogia que iniciou com dois livros famosos: “Como os ricos destroem o Planeta” e “Para salvar o planeta, sair do capitalismo”. O livro que fecha este ciclo é, a partir do título, uma declaração de guerra contra aqueles que usam a democracia para enriquecer: “Chega de oligarquia, viva a democracia”.

O panorama que Hervé Kempf descreve é uma radiografia exata do mundo contemporâneo: os grandes meios de comunicação estão controlados pelo capital, os lobbies secretos decidem sobre o destino de milhões de pessoas independente da vontade popular expressada nas urnas, a cultura das finanças e sua impunidade radical dita as políticas contra o bem comum. Resumo, uma casta de poderosos decompõe a democracia ao mesmo tempo que destrói o planeta.

Kempf argumenta que, para viver em paz e assumir os desafios do século XXI, é preciso restaurar a democracia. Isso impõe uma necessidade: desmascarar a oligarquia para apresentá-la tal como é: um regime que visa manter os privilégios de uma casta em detrimento das urgências sociais e ecológicas. O livro de Hervé Kempf reatualiza uma ideia potente e inovadora, cujas primeiras formulações remontam aos anos 70: é impossível pensar a democracia e o futuro da humanidade sem incluir a ecologia como fator de regulação da própria democracia.

Carta Maior Você demonstra com inumeráveis exemplos como o mundo vai deslizando até uma espécie de regime autoritário, cujo único propósito é manter os privilégios de uma casta, a oligarquia. Isso o leva uma conclusão social e politicamente dramática: o possível fim da democracia.
Hervé Kempf – A oligarquia é a definição de um regime político. A oligarquia é um conceito inventado pelos gregos nos Séculos IV e V antes de Cristo. Os gregos definiram as formas segundo as quais as sociedades humanas podiam ser governadas: a ditadura, o despotismo, a monarquia, a tirania, a democracia, que é o poder do povo para o povo e pelo povo, e depois definiram outra forma de governo que é precisamente a oligarquia. A oligarquia é o poder em mãos de poucos. O que eu digo então é que, pelo menos na Europa, estamos deslizando para a oligarquia. O sistema político atual faz que um grupo de poucos imponha seus critérios ao resto da sociedade.

CM Você sugere que estamos em uma fase de pós-democracia na qual, com o objetivo de manter-se no poder, a oligarquia mantém a ficção democrática?
HK – Certamente. A oligarquia repete sem descanso que estamos em democracia e que tudo é perfeito. É uma ficção. Até os intelectuais se esqueceram do conceito de oligarquia e contribuem para alimentar a ficção. Todos os intelectuais em sintonia ideológica com o capitalismo mantiveram a ideia segundo a qual só existiam duas alternativas: ou a democracia, ou o totalitarismo. Isso se podia entender no principio com dois exemplos: nos anos 30 com Hitler, ou nos anos 50 ou 60 com a União Soviética, se podia dizer que era preciso optar entre a democracia e essas duas ditaduras. Mas isso acabou: após a queda do muro de Berlin em 1989 e a quebra da União soviética, passamos a outra ordem. Mas os intelectuais que estão a serviço do capitalismo persistiram na ideia segundo a qual só existem dois caminhos: ou a ditadura, ou a democracia. Por isso é importante que o conceito de oligarquia esteja bem presente para entender que, progressivamente, a democracia nos foi roubada. Os países europeus, e muito mais os Estados Unidos, estão deslizando para um regime oligárquico onde o povo já não tem mais poder. A democracia europeia está doente, se debilitou muito, e vai cada vez mais rumo à oligarquia. Por outro lado, os Estados Unidos deixaram de ser uma democracia: é uma oligarquia porque é o dinheiro que determina as orientações das decisões políticas. Na realidade, a oligarquia é uma democracia que só funciona para os oligarcas. Uma vez que se puseram de acordo, eles impõe as decisões. Nossos sistemas não podem mais ser chamados de democracia porque a potência financeira detém um poder desmedido. A autoridade pública está em mãos do sistema financeiro. Os poderes públicos nunca tomarão uma decisão que prejudique os interesses econômicos, os interesses da oligarquia financeira. Devemos aceitar a ideia de que aqueles que têm as rédeas do poder político do Estado não tomam decisões em benefício do interesse geral. Suas decisões podem ir contra o interesse público.

CM Este raciocínio implica em que a soberania popular desapareceu como ideia e como prática?
HK – Efetivamente. Já não existe mais soberania popular. Quando o povo chega a refletir, a discutir e a deliberar em conjunto e tomar uma decisão, a oligarquia vai contradizer a decisão popular. Em 2005 houve, na Europa, um grande debate em torno de um referendo que afinal foi organizado na França e depois na Irlanda e Holanda sobre um projeto para um tratado de Constituição europeia. Durante seis meses, a sociedade francesa discutiu sobre esse tema como não o fazia há muitos anos. Os meios de comunicação, que expandem a filosofia capitalista, diziam “Tem que votar pelo sim, tem que votar a favor do tratado”. Mas o povo francês votou “não”. E que aconteceu depois? Dois anos mais tarde, os governos da Europa impuseram esse tratado com algumas modificações leves com o nome de Tratado de Lisboa. Houve então uma extraordinária traição da vontade popular. Este exemplo é encontrado em outros lugares. Sem ir mais longe, em 1991, na Argélia, os muçulmanos ganharam as eleições legislativas, mas os militares interromperam o processo com um golpe de Estado que terminou em uma guerra civil assustadora. Outro exemplo: em 2005, os palestinos votaram para eleger seus deputados. Ganhou o Hamas. Entretanto, todos os Estados, dos Estados Unidos à Europa, passando por Israel, optaram por marginalizar o Hamas porque o consideram uma organização terrorista. Não se respeitou o voto do povo palestino. O povo como tal é o coração da democracia, ou seja, o principio a partir do qual todos compartilhamos algo. O povo não é você, Michel ou eu, mas todos juntos. Compartilhamos algo e devemos tomar uma decisão conjunta. Formamos um corpo, por isso se fala no “corpo eleitoral”. Mas o que aconteceu na Europa em 2005 marca uma ruptura profunda com o povo.

CM Mas, entre a ideia de oligarquia que existia a princípios do século XX e agora, também houve um corte radical nesse grupo?
HK – Sim. Houve uma evolução da oligarquia. Agora podemos falar dos desvios da oligarquia impulsionada pela própria evolução do capitalismo. Nos últimos 30 anos o capitalismo se transformou. Todo começa em 1980, quando Ronald Reagan ganha as eleições presidenciais nos Estados Unidos e Margaret Thatcher chega ao poder na Grã Bretanha. A partir daí não só se montou um capitalismo orientado para a especulação financeira, mas também se produziu uma transformação cultural, antropológica. A filosofia capitalista se expandiu com esta mensagem: “a sociedade humana não existe”. Para os capitalistas, a sociedade é uma coleção de indivíduos que se encontram em uma bola e sua única missão consiste em tirar um máximo de proveito. Para os capitalistas, o individuo está separado dos outros, está em permanente competição com os demais. Nessa visão, o comum não é mais o povo, mas o mercado. Por esta razão as pessoas têm tantas dificuldades para sentirem-se um cidadão que participa em um processo comum a todos. O sistema ocultou um dado: o fenômeno fundamental que se produziu dentro do capitalismo nos últimos 30 anos foi o aumento das desigualdades, em todos os países, incluindo os países emergentes.

Estamos em uma fase de cruzamento de crises. Já não é uma, mas múltiplas e todas se concentram ao mesmo tempo. A resposta das oligarquias é proporcional a intensidade das crises: o autoritarismo e a repressão.
Estamos em um momento muito delicado da humanidade. A crise ecológica se agrava cada vez mais e as crises sociais se acrescentam – Europa, Estados Unidos, países árabes, China, Índia. E, diante do incremento dos protestos populares, a oligarquia tende a ir em uma direção cada vez mais autoritária, repressiva, militar. Acontece na França, na Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá. Em cada um desses países vimos o desenvolvimento impressionante das tecnologias policiais – câmaras de vigilância, arquivos de dados, etc. Enfrentamos um perigo duplo: não só que a democracia se dirija à oligarquia, mas, também, que a oligarquia, o capitalismo, entre em uma fase autoritária insistindo em temas como a xenofobia, a insegurança ou a rivalidade entre as nações. A oligarquia não quer adotar medidas para paliar a crise ecológica ou diminuir as desigualdades. Não. O que a oligarquia quer é conservar seus privilégios fundamentais. É uma oligarquia destruidora. Acho que ela mesma não entende a gravidade da situação. Em vez de evoluir, a oligarquia é cada vez mais reacionária.

CM Hoje há um elemento novo que será, sem dúvida, determinante: a crise ecológica, a crise climática. Entretanto, poucos são os que estão dispostos a assumir os desafios.
HK – Estamos em um momento essencial da história humana, por duas razões. Em primeiro lugar, atravessamos um momento de nossa história no qual a humanidade chega ao limite da biosfera. A espécie humana se expandiu e desenvolveu através do planeta apoiada em uma natureza que nos parecia imensa e inesgotável. Mas agora, o conjunto da espécie humana descobre que o planeta tem limites e que é preciso encontrar um novo equilíbrio entre a atividade e a criatividade humanas e os recursos disponíveis. Devemos mudar de cultura e passar da ideia segundo a qual a natureza é inesgotável à realidade de que estamos pondo em perigo esses recursos. Resta-nos aprender a economizá-los e utilizá-los com sabedoria e prudência. Nisto se joga uma mudança de cultura. O segundo em importância está em que nos encontramos no momento em que formamos uma sociedade humana. Antes éramos como estrangeiros uns com os outros. Já não. Inclusive se no Rio de Janeiro se vive de forma diferente que em Paris, Londres ou Xangai, existem muitos elementos em comum que nos levam a tomar consciência de que pertencemos ao mesmo mundo. À globalização não só compete a globalização da cultura ou da economia, não, também envolve a população humana. Descobrimos que temos interesses comuns. A problemática das oligarquias ou da democracia se joga também na América Latina, na Ásia e na Europa. Somos uma mesma sociedade. Isso é um elemento novo na história da humanidade. Mas essa nova sociedade deve reescrever, inventar uma nova forma de viver com a biosfera e os recursos naturais. Se não chegarmos a fazê-lo, essa sociedade humana irá para o caos, a competição e a violência. Não só haverá desordem, mas se deterá a aventura humana.

CM Para você, não pode haver uma renovação da democracia, mas se toma em conta a questão ecológica…
HK – A ecologia e a democracia são inseparáveis. Se olharmos para os anos 70, quando o movimento ecologista tomou seu impulso, o fez com uma crítica à democracia. A democracia sempre esteve no coração da ecologia. Mas em seguida o capitalismo derivou para a oligarquia e já não estamos em uma situação democrática. O capitalismo e a oligarquia forçam sempre para o crescimento econômico. Mas hoje sabemos que esse crescimento econômico acarreta danos importantes ao meio ambiente. Não sabemos ter crescimento econômico sem destruir o meio ambiente, sem emitir gases com efeito estufa, sem destruir as florestas como na Amazônia, ou sem produzir enormes quantidades de soja como na Argentina, para o qual se utilizam toneladas de agrotóxicos. O crescimento permite que se esqueça da enorme desigualdade que existe. O crescimento permite acalmar as tensões sociais. O desenvolvimento da oligarquia, ou seja, o delírio de uma pequena quantidade de pessoas por enriquecer de maneira colossal, força o crescimento e, ao mesmo tempo, a destruição da natureza. Por isso a questão democrática é essencial. Temos que chegar a uma situação onde possamos discutir e conseguir diminuir a desigualdade e assim poder redefinir, juntos, uma economia justa que não destrua o meio ambiente.

CM Resumindo, toda reformulação da ideia e do princípio de democracia passa pela ecologia.
HK – Efetivamente: é impossível pensar o mundo se nos esquecemos da questão ecológica. Este tema não é exclusivo dos europeus ou dos ocidentais, não, é uma questão mundial. O tema da mudança climática, o tema do esgotamento da biodiversidade ou da poluição são temas mundiais. É impossível pensar na emancipação humana, na dignidade humana, na justiça social, na evolução a uma humanidade realizada, na qual cada pessoa poderá expressar suas potencialidades em relação aos outros, no concreto. Nada disto pode ser pensado deixando de lado a natureza e a relação com a biosfera. A situação atual é grave por causa da crise ecológica, mas também cheia de esperanças. Temos dez ou 20 anos pela frente para organizar a transição e permitir aos jovens do futuro imaginar uma sociedade harmoniosa. Se dentro de 10 anos não controlarmos a poluição, se dentro de 10 anos não conseguimos impedir a evolução ditatorial do capitalismo, vamos direto a situações muito difíceis. Nossa missão histórica para os próximos 10 ou 15 anos consiste em garantir as condições da possibilidade de sonhar. Nossos filhos devem poder imaginar e realizar uma sociedade harmoniosa. Devemos fazer com que essa condição do sonho se torne possível.

CM Por onde começar então? Com um golpe contra a oligarquia? Com uma revolução?
HK – Nossa tarefa consiste em reconquistar a democracia. Em quanto à revolução, se trata de uma palavra perigosa. Prefiro empregar o termo de metamorfose, um pouco como acontece com as larvas que se tornam mariposa ou os adolescentes que se tornam adulto. A humanidade deve passar por um estado de metamorfose, de transição. Evidente, a resistência é grande. Tal como vimos com a crise financeira de 2007, 2008 e 2009, a oligarquia não mudará sozinha. Mas devemos avançar, de forma pacífica. Se queremos reestabelecer uma relação pacífica entre os seres humanos e a biosfera, devemos ter um enfoque pacífico. A inteligência e as técnicas repressivas se desenvolveram muito, por isso temos que evitar cair na armadilha da violência, para que não tirem proveito disso. A violência é uma armadilha. É preciso que sejamos capazes de recorrer aos meios da não violência porque eles querem que haja violência. Fará falta muita coragem, a mesma que tiveram os manifestantes egípcios que, sem violência, ocuparam a Praça Tahrir. A revolta popular se impôs a uma ditadura muito violenta. Evidente, tem que incomodar a oligarquia. A fórmula Argentina “que se vayan todos” é válida para a oligarquia.

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A teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda

As novas aventuras do Barão de Cisneros

Por Richard Gott*, do Diário do Centro do Mundo

Gustavo CisnerosCom uma fortuna de mais de 4 bilhões de dólares, Gustavo Cisneros gosta de promover-se como o homem mais rico da América Latina e o mais poderoso barão da mídia do continente, um equivalente latino a Murdoch ou a Berlusconi. Desde 1961 a Organización Cisneros possui a Venevisión, o principal canal comercial de TV da Venezuela — mais conhecida no estrangeiro pela sua raivosa oposição a Chávez durante o golpe de 2002 e pela denúncia incessante dos seus apoiadores como ‘arruaceiros’ e ‘macacos’.

A partir dos anos 80 ele estendeu seu império pela América Latina incluindo a Chilevisión do Chile e a TV Caracol da Colômbia, com uma grande participação na DirectTV latino-americana, cujo satélite emite uma programas de esportes, shows de jogos, telenovelas e notícias leves para 20 países latino-americanos. Ele também tem uma participação lucrativa na Univisión, o principal canal em língua castelhana dos Estados Unidos, e uma empresa conjunta latino-americana de conexão de internet com a AOL-TimeWarner.

Tal como muitos latino-americanos ricos, Cisneros é um camaleão no que se refere à nacionalidade. Nominalmente venezuelano — nasceu em Caracas em 1945, de um pai empresário cubano e de uma mãe venezuelana — foi educado e fez sua aprendizagem de mídia nos EUA. Mas também é cidadão da Espanha, a pedido pessoal do rei Juan Carlos, americano em Nova York, cubano em Miami e dominicano na República Dominicana, onde a sua principal base — a Casa Bonita, próxima à estância balneária de La Ramona — está no lugar dos refúgios de outros bilionários de origem cubana, enriquecidos com os lucros do açúcar, do rum e dos negócios imobiliários.

O estilo de vida cosmopolita de Cisneros permite-lhe escapar aos horizontes limitados de um país latino-americano que tradicionalmente joga na segunda divisão. Um venezuelano, de acordo com uma antiga e desrespeitosa piada latino-americana, é um panamenho que pensa que é argentino. Tal como muitos hispano-americanos ricos, Cisneros sempre considerou o seu próprio país demasiado pequeno para os seus talentos e demasiado inseguro para a sua fortuna. Como uma das figuras sombrias que proporcionam aos americanos força local fora dos Estados Unidos, Cisneros está atado de pés e mãos a Washington, e tem sido bem pago por isso.

Sem esquecer a auto-promoção, Cisneros agora pode apregoar uma reluzente biografia escrita por Pablo Bachelet, acrescida deuma introdução panegírica do novelista mexicano Carlos Fuentes, morto em 2012. Os motivos de Bachelet neste projeto — ele é um meio-chileno, jornalista financeiro com base em Washington, ex-Dow Jones, actualmente Reuters — dificilmente podem ficar em dúvida. Bachelet teve acesso privilegiado à família Cisneros, e a maior parte do seu relato — uma leitura não exigente — é retirada literalmente das visões de Gustavo acerca de si próprio.

Gustavo foi o quarto filho de Diego Cisneros, um importante empresário em Caracas.  A fortuna dos Cisneros decolou no princípio da Segunda Guerra Mundial quando a família adquiriu o direito de engarrafar e distribuir a Pepsi. Segundo uma lenda local (Bachelet não menciona o episódio), homens de Diego empurraram caminhões da Coca Cola num despenhadeiro, privando assim o seu rival das suas inimitáveis garrafas com saias rodadas, impossíveis de obter até que fosse declarada a paz. A Pepsi moveu-se suavemente para o Número Um e — caso único na América Latina — permaneceu nesta posição na Venezuela nos anos seguintes.

Cisneros e o filho com o companheiro Roberto Marinho numa visita ao Brasil em 1995

Cisneros e o filho com o companheiro Roberto Marinho numa visita ao Brasil em 1995

Na década de 1950, Diego moveu-se para o rádio e para a embrionária indústria da televisão, e em 1961 fundou um novo canal, a Venevisión, que veio a tornar-se a preocupação especial de Gustavo. A companhia Cisneros das décadas de 1950 e 1960 estava centralmente colocada para atuar como uma representante do capital americano. Como tal, tornou-se parte de uma nova elite na Venezuela que floresceu através da distribuição liberal por meio do estado (mais propriamente, por meio dos partidos políticos) dos rendimentos crescentes do petróleo. A oligarquia agrária diminuía de riqueza e poder desde os princípios do século XX, pois a agricultura principiava um declínio acentuado.

Com a expansão da urbanização e do emprego no setor público, os lucros privados no período do pós-guerra estavam ligados ao crescente comércio em bens — sobretudo americanos — importados. O projeto dos Cisneros, como aqueles de outros empresários de famílias colonizadoras brancas em muitos países latino-americanas, era levar os confortos da civilização anglo-saxã — seus alimentos, sua cultura, suas formas de descanso, seus produtos de beleza — às camadas médias em crescimento na América Latina.

Diego Cisneros era um bom amigo de Rómulo Betancourt, líder fundador da Acción Democrática, partido que o ajudou a lançar a Venevisión. A família manteria contato estreito com os líderes seguintes da Acción Democrática quando eles se revezavam com os do Copei, o outro principal partido, nas rotações que constituíram a democracia venezuelana durante as quatro décadas pós 1958, e em particular com o notoriamente corrupto Carlos Andrés Pérez, presidente tanto nos anos de boom dos meados de 70 e nos de crise dos de 90, quando foi expulso do gabinete por apropriação indébita de fundos.

Outro aliado vital era o poderoso banqueiro da Acción Democrática, Pedro Tinoco, cujo papel era de conselheiro da família Cisneros nos seus negócios com companhias americanas. Tinoco atuaria como ministro das Finanças da Venezuela de 1969 a 1972, e como presidente do Banco Central no governo Pérez de 1989 a 1992. Ele morreu pouco antes da queda do Banco Latino, do qual fora presidente, desencadeada pela crise financeira venezuelana de 1994.

Com 25 anos, em 1970, Gustavo assumiu os negócios da família quando seu pai ficou incapacitado por um derrame cerebral. Ele havia se diplomado no Babson College em 1968, e a seguir passou dois anos trabalhando na ABC Television em Detroit, Chicago, Los Angeles e Nova York. Em 1970, numa ‘cerimônia simples’ na Catedral de St. Patrick, em Manhattan, fez um feliz casamento dinástico com Patty Phelps, cujo pai americano, tal como Diego Cisneros, tinha se estabelecido em Caracas como vendedor da Ford Motors, máquinas de costura Singer e máquinas de escrever Underwood. Os Phelps eram também os proprietários da Rádio Caracas, cujo ramo de TV, a RCTV, era o principal competidor da Venevisión.

Durante a década de 1970 a Venezuela foi inundada de petrodólares. As conexões políticas não podiam garantir suficientemente o ambicioso lance de Cisneros por uma série de fábricas petroquímicas, a serem financiadas parcialmente pelo estado. Bachelet, tristemente, relata que não foi suficiente ter convencido o presidente: apesar do apoio de Carlos Andrés Pérez, o projeto Pentacom de Cisneros foi bloqueado por uma forte oposição de deputados — cujos nomes não foram mencionados no opaco relato de Bachelet — os quais sentiram que isto entregaria uma indústria venezuelana estratégica a companhias transnacionais.

Mas casualmente, em 1976, o império dos supermercados latino-americanos da família Rockfeller foi rompido sob as regras do Pacto Andino. Com a ajuda de Tinoco, a família de Cisneros comprou rapidamente o ramo venezuelano, adquirindo 48 supermercados e uma dúzia de bares de soda de um só golpe. Eles agora era capazes de integrar os vários interesses Cisneros, utilizando um para promover o outro. Produtos disponíveis nos seus supermercados Cada eram logo anunciados na Venevisión, nessa altura o principal canal de TV do país. Estrelas das telenovelas da Venevisión eram mobilizada para beber o champanhe de Cisneros e usar o shampoo de Cisneros.

Os casais Cisneros e Bush: conexões fortes com os Estados Unidos

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Sempre moderna e americana, a família Cisneros foi uma das primeiras promotoras da pornografia suave, adquirindo a ‘Organização Miss Venezuela’ que cuidava das modelos aspirantes a competições nacionais e internacionais. As mulheres escassamente vestidas, todas estranhamente brancas num país de índios e negros, não só apareciam regularmente na Venevisión como também eram veículo para promover os produtos dos Cisneros disponíveis nos supermercados Cisneros. Como diria Carlos, sobrinho de Cisneros, ao comprar os direitos da Playboy TV: ‘Nós entendemos que [a Playboy] era o único grande tesouro que não fora levado dos Estados Unidos para a América Latina, porque todo mundo achava que este era um continente muito católico”.

Os maciços rendimentos do petróleo da década de 1970 haviam sustentado uma vasta rede de patrocínios para a elite da Venezuela, bem como a disseminação de projetos infraestruturais de fachada. Quando os preços do petróleo começaram a cair, o governo Pérez e depois o Herrera tomaram empréstimos no exterior. A dívida externa do país subiu dramaticamente após o aumento das taxas de juro americanas em 1979, atingindo 32 bilhões de dólares em 1982 — quase o dobro do número de 1978.

A economia contraiu-se agudamente, a inflação ascendeu e a fuga de capitais acelerou-se, criando pressões que o bolívar supervalorizado não podia aguentar. Os resultados foram os controles de câmbio e a desvalorização de 1983, que Bachelet discute apenas em termos do impacto — ‘um golpe duro’ — sobre as elites, cuja cupidez ajudara a provocar isto. Durante os seis anos em que houve controle de câmbio os salários reais caíram 20 por cento, os gastos públicos entraram em colapso, o desemprego aumentou para dois dígitos e a inflação atingiu 40 por cento. Em 1978 apenas 10 por cento dos venezuelanos viviam na pobreza; em 1998 o número era de 39 por cento.

A resposta de Cisneros foi, naturalmente, a fuga de capital. Citando com energia o lema de Cisneros  – ‘as maiores e melhores oportunidades vêm das crises’ — Bachelet pormenoriza os investimentos dele fora do país. Em 1984 comprou a Spalding, a cadeia gigante de esportes, e a seguir as Galerías Preciados em Madri, outra rede importante.

Em 1988 os salários reais haviam caído 40 por cento, e o custo do serviço da dívida havia ascendido a 5 bilhões de dólares por ano. Em dezembro daquele ano Carlos Andrés Pérez foi reeleito presidente após uma campanha concebida para evocar os anos do boom com gastos desenfreados do seu mandato na década de 1970. Contudo, uma vez empossado, Pérez mudou o rumo, comprometeu-se com um Programa de Ajustamento Estrutural ditado pelo FMI e implementou uma série de medidas neoliberais, cortando subsídios a serviços públicos e liquidando os controles de preços.

Um ano depois a economia contraíra-se 8 por cento. A pobreza geral ascendeu dos 44 por cento de 1988 para 67 por cento em 1989, e a pobreza extrema de 14 para 30 por cento no mesmo período. Quando os preços dos carros dispararam a fim de refletir o custo crescente do combustível, em fevereiro de 1989, Caracas explodiu numa festa de saques e tumultos. Quatro dos supermercados de Cisneros foram saqueados. O protesto, conhecido como Caracazo, acabou por ser esmagado pelo exército, com mais de mil mortes.

O povo devolve Chávez ao poder em 2002: a emissora de Cisneros chamava os chavistas de “macacos”

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Defendendo o ‘sóbrio pacote de medidas’ de Pérez, Bachelet admite que ‘a Venezuela não fora preparada durante a campanha eleitoral para confrontar-se com a verdade’. Mas sua principal preocupação é a fortuna do seu herói. O Caracazo foi um ponto de viragem para Cisneros. Aquilo fê-lo perceber que a sua riqueza já não estava segura em Caracas. Seu simples e lucrativo papel como criado do capitalismo americano estava sob séria ameaça. O próprio estado venezuelano estava  entrando em colapso. Ele decidiu que teria de mudar o grosso da fortuna da família para fora do país.

Como a terapia de choque continuava, a economia contraía-se novamente e as taxas de pobreza continuavam a piorar. Em fevereiro de 1992 o então coronel Chávez lançou um golpe de estado sem êxito destinado a deter a força destruidora do modelo que Pérez pusera em movimento. Cisneros colocou a Venevisión à disposição de Pérez, e a transmissão do presidente no dia do golpe salvou sua vida política.

Mas era tamanha a impopularidade de Pérez que aquilo desgastou a estação de TV. Os números de audiência afundaram dramaticamente, com uma consequente perda de receita publicitária, e a estação só recuperou a posição dominante quando transmitiu a Copa do Mundo de futebol dos Estados Unidos em 1994.

Na primavera de 1993 o governo Pérez entrou em colapso em meio a acusações de que se havia apropriado indevidamente de 250 milhões de bolívares (2,8 milhões de dólares) de fundos governamentais.

Os movimentos de Cisneros para retirar os seus bens da Venezuela agora estavam à velocidade máxima. Desta liquidação, a Venevisión ficou dispensada. Ela havia provado seu valor através dos êxitos internacionais das suas telenovelas, as quais na decada de 90 escaparam ao limitado mercado latino-americano e encontraram um nicho por todo o globo.

Sua fórmula pegajosa demonstrou-se irresistível: uma história, lágrimas com soluços, drama emocional e blocos de pornografia suave. Com base neste triunfo, Cisneros tinha grandes esperanças de se estabelecer no mercado americano de televisão, com sua audiência de milhões de latinos. Seu amigo Emilio Azcárraga, dono da Televisa do México, já havia feito uma entrada naquele mercado na década 80, montando uma companhia conhecida como Univisión. Quinze anos mais velho que Cisneros, Azcárraga era aliás uma figura semelhante a ele: filho de um magnata local, que consolidou e expandiu o negócio da família numa operação pan-latino-americana. Bachelet menciona as frequentes viagens em iate de Azcárraga para ver Cisneros na República Dominicana.

Cisneros agora propunha uma sociedade entre ele próprio,  Azcárraga e um parceiro americano. O negócio foi rematado em 1992, e a Univisión começou a difundir para latinos nos EUA o cardápio — telenovelas, talk-shows vazios, ‘notícias’ — que se originara na Venezuela e no México.

Isto pode ser considerado imperialismo cultural em reverso, mas na prática a programação já estava altamente americanizada, e agora era simplesmente vomitada sobre uma audiência latina já familiarizada com a receita. Ironicamente, a Venevisión agora era obrigada a introduzir uma dimensão multiétnica nos seus programas — totalmente inabitual na atmosfera racista branca de Caracas, mas uma condição sine qua non na cultura contemporânea dos Estados Unidos.

Em 1996 o governo de Caldera foi forçado a virar-se para o FMI. O brutal ‘Acordo Venezuela’ eliminou controles de preços, entre outras coisas, e a inflação subiu para mais de 100 por cento. No fim do ano a pobreza generalizada era de 86 por cento e a pobreza extrema de 65 por cento. Foram dias de insegurança para Cisneros. Ele logo tomou o comando da Univisión partilhada com Azcarraga e, com os Estados Unidos na cintura, começou a comprar estações de TV na América Latina, nomeadamente a Chilevisión no Chile e a Caracol na Colômbia.

Em 1995 montou a DirectTV como uma joint venture com a Hughes Communications, um ramo da General Motors. Apesar de entrar no mercado ao mesmo tempo que a Sky de Rupert Murdoch, o qual já fizera um acordo com a Televisa e a Globo de Roberto Marinho, no Brasil, dentro de cinco anos a DirectTV tinha mais de uma milhão de assinantes.

No momento das eleições de 1998 a elite política venezuelana já estava totalmente desacreditada. Preso durante dois anos após o golpe fracassado, Chávez havia ganho considerável apoio popular devido à sua rejeição da ortodoxia neoliberal e defesa aberta dos pobres — nessa altura a massa da população. Ele ganhou o poder em dezembro de 1998, com 56 por cento dos votos. Cisneros estava entre os oligarcas financeiros do país com a esperança de que aquele oficial não experimentado pudesse ser curvado à sua vontade. Na noite das eleições eles encontraram-se de modo amistoso nos estúdios da Venevisión, e Bachelet relata conversações posteriores com o novo presidente nas quais Cisneros manifestou seu apego à solidariedade social. Numa reunião que Bachelet não menciona, Cisneros sugeriu que um dos seus homens tomasse conta da Comissão Nacional de Telecomunicações, um organismo regulador do Estado que podia fazer muito para ajudar os esquemas da Organización Cisneros.

Chávez recusou a oferta. Ele planejava impulsionar o seu programa para regenerar o país sem a assistência dos seus tradicionais dominadores, políticos ou financeiros.  Cisneros juntou-se logo à cada vez mais estridente oposição da elite, queixando-se que o país fora tomada por um populista autoritário, e prognosticando desgraças econômicas contínuas — provocadas, muito antes da eleição de Chávez, por uma série de governos que eles haviam apoiado.

Cisneros foi um membro central do grupo que planejou a derrubada de Chávez em abril de 2002. Na noite de 11 de abril, depois de Chávez ter sido removido do Palácio de Miraflores na ponta de armas, os principais conspiradores reuniram-se no apartamento de Cisneros. No princípio da manhã seguinte Pedro Carmona, chefe da confederação de empresários, anunciou na TV que era o novo presidente. Carmona comunicou o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal, bem como a supressão da Constituição.

Cisneros  sugeriu que a estratégia de comunicações do novo governo deveria ser deixada nas suas mãos. Carmona aceitou agradecido. Poucos minutos depois de a delegação de Cisneros deixar o Palácio, contudo, os soldados da Guarda Presidencial retomaram-no, detendo alguns dos líderes do golpe enquanto Carmona escapava.

Cisneros deu ordens aos seus canais para não apresentarem notícias do contra-golpe, nem mostrarem imagens das dezenas de milhares de pessoas a descerem dos morros para assegurar o retorno do ‘seu’ presidente. Durante todo o dia, a programação de Cisneros foi preenchida por velhos filmes e desenhos animados. As notícias dos eventos na capital eram apresentadas só pela CNN.

‘Chegará o dia’, declarou Chávez em maio de 2004, ‘em que teremos juizes sem medo que atuarão de acordo com a Constituição e aprisionarão estes senhores da máfia como Gustavo Cisneros’.  Visto através dos binóculos servis de Fuentes, Cisneros é um modelo de cidadão, um visionário e empreendedor ‘global’. O vendedor de novelas, loiras e shampoo é louvado por criar um negócio cultural na América Latina ‘comparável em profundidade e resiliência’ à estética e tradições literárias do continente. Seus prosaicos negócios imobiliários em Madri ‘aboliram o oceano’. Foi ‘um defensor da língua castelhana no coração da América anglófona’.

Em retrospectiva, o entusiasmo de Fuentes por Cisneros não é de todo surpreendente. Como filho de um diplomata mexicano, Fuentes pertenceu ao mesmo mundo transcultural do empreendedor venezuelano. Sua visão preconceituosa das tradições revolucionárias da América Latina tornou-se mais pronunciada com o passar dos anos e tingiu claramente sua atitude em relação a Chávez, muitas vezes com um toque abertamente racista ou elitista.  Tal antipatia é bastante comum entre a elite americanófica da América Latina e também entre alguns da sua esquerda intelectual.

A ameaça de Chávez sempre repousou na sua capacidade para apresentar uma alternativa ideológica ao Consenso de Washington.  Suas medidas redistributivas mal tocaram as fortunas que Cisneros e seus afins colheram dos venezuelanos comuns, através de décadas de corrupção estatal.  Em 2004, Cisneros combinou uma reunião com Chávez por intermédio de Jimmy Carter. Se Chávez organizasse uma entrada para Cisneros junto ao governo Lula no Brasil, a propaganda antigoverno da Venevisión seria acalmada.

Cisneros desde então avançou suas obras de semicaridade na Venezuela. E reduziu a campanha contra Chávez.

* Jornalista e escritor, Gott foi correspondente em Caracas e hoje escreve artigos para jornais como Guardian e Independent.

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