Evoé – Retrato de um antropófago

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Um filme que mistura de forma labiríntica depoimentos recentes e imagens históricas da carreira do o diretor, ator e dramaturgo Zé Celso, do Teatro Oficina, uma das maiores personalidades das artes do Brasil de todos os tempos.

O documentário adquiriu o seu verbo principal em quatro viagens a pontos chave da trajetória do Zé: Sertão da Bahia, Praia de Cururipe em Alagoas (onde o Bispo Sardinha foi devorado), Epidaurus e Atenas, na Grécia e o apartamento de São Paulo.

Com acesso livre ao infindável e sempre crescente arquivo de imagens e sons do Grupo Oficina, misturados com imagens contemporâneas, constrói-se aqui uma visão muito particular e instigante, que resulta num filme estimulante e num documento mágico para hoje e para sempre.

Sem legendas, sem datas aparentes e sem didatismo, o filme é um fluxo potente de imagens e sons que deixam o espectador em estado de constante atenção.

EVOÉ, um filme antropofágico na sua essência, pode ser exibido de forma cíclica, pois não tem um começo e com certeza nunca terá fim.

Realizadores: Tadeu Jungle / Elaine Cesar

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O encenador e o teatro do nosso tempo

Por Theotonio de Paiva

No início da semana passada, leio desolado comovente texto de Ulysses Cruz, publicado na Folha de São Paulo [disponível em Conteúdo Livre] sobre a morte do ator e diretor de teatro, Fernando Peixoto.

O encenador gaúcho, morto no dia 15 de janeiro, foi seguramente um dos mais importantes e atuantes pensadores do teatro brasileiro. Dotado de uma rara capacidade de se envolver com segurança e inteligência nos aspectos práticos e teóricos dessa atividade tão complexa, quanto multifacetada, Fernando Peixoto conseguiu, em seus artigos, ensaios e espetáculos, pesquisar e formular as mais representativas questões da cena contemporânea.

Nesse sentido, vale a pena recordar o quanto foi marcado por uma capacidade de pensar dialeticamente os diversos processos históricos. Assim, ao se constituir numa das maiores autoridades do teatro de Brecht, aqui no Brasil, sendo responsável por livros, encenações, artigos e um número incansável de traduções de peças e textos teóricos do dramaturgo alemão, diga-se de passagem, condição que lhe marcou indelevelmente a sensibilidade, Fernando Peixoto era incapaz de virar as costas para as demais experiências artísticas que se faziam. O contraditório de algum modo o fascinava.

Lembro de um pequeno texto introdutório sobre o teatro em que deslindava com maestria as assimilações e influências, geradas ao longo do século XX no universo das diversas pesquisas e propostas cênicas, tanto no campo da dramaturgia, encenação e trabalho do ator. Cabe salientar que parte significativa dessas experiências, como é natural dentro do conjunto de quaisquer trabalhos no campo da cultura, traziam, dentro da própria concepção inicial, o embrião do confronto.

Não é difícil entender essa dinâmica se nos ocorre que uma expressão artística se orienta como eixo antagônico a uma determinada linha de criação anteriormente constituída.

Ora, Fernando Peixoto conseguia entender esse processo como algo maior. E se desdobrava em análises meticulosas sobre o fenômeno teatral, suas peculiaridades e limites.

Notava que as fusões de linguagens, as experiências e propostas, seriam procedimentos encontráveis, por vezes, dentro de um projeto de teatro específico. E estariam presentes ora num grupo teatral, numa companhia de longa duração, ou ainda na assinatura de um encenador que, sem nenhuma redundância, se voltasse à construção de um projeto mais autoral. Mas não parava aí. Chamava-nos a atenção para uma outra particularidade dessa natureza da criação do espetáculo: a comunicação que se acentuara, na virada do século XIX para o seguinte, quando a roda do tempo giraria com muito mais furor.

Identificava que, por conta das viagens dos espetáculos, através de navios ou estradas de ferro, pela disseminação dos escritos de diretores, autores e dramaturgos, as influências díspares, presentes cada vez mais nas últimas décadas, seriam encontradas, em alguns casos, dentro de um mesmo e único espetáculo.

Desse modo, sentia-se estimulado a entender como princípios e técnicas poderiam ser visceralmente negados, quando pouco antes pareciam essenciais e indispensáveis. Movimentava-se para compreender essa arte em sua natureza autofágica. E assim frequentemente distinguia o quanto esse processo transformava a narrativa, as técnicas de interpretação e as formas de concepção e encenação do espetáculo.

Consciente de tais processos, não se deixava enredar por um possível reducionismo estético que renegaria parte considerável da dimensão da atividade teatral. E ia além. Procurava discernir e compreender as diversas transformações que o teatro vinha sofrendo ao longo de sua história e, em especial, nos últimos tempos, com as consequentes definições e redefinições de sua função social. Em resumo: se permitia compreender as alterações profundas que balizaram o teatro do seu tempo, cuja expressão mais definidora talvez tenha sido a transformação do significado mesmo da atividade teatral.

E especulava a partir de reflexões e conceitos complexos, apesar de conseguir traduzi-los de forma clara. Em diversas ocasiões, o seu texto soava impregnado de forte cunho pessoal. Ambas as características seriam condicionadas por uma militância artística que a sua geração conseguira ascender a uma ação intelectual profundamente comprometida com a transformação do mundo. Dessa maneira, não foi à toa a escolha de Ulysses Cruz para vê-lo interpretar Sartre, na sua encenação da peça Cerimônia do adeus, de Mauro Rasi. Segundo o próprio Cruz, a personagem exigia um ator com credibilidade intelectual. Entende-se melhor assim a própria subjetividade entranhada no ser político.

E essa qualidade da sua geração revela um aspecto decisivo para compreender a obra desse homem de teatro. Como alguns artistas do seu tempo, conseguia compreender a função social do teatro como algo que se apresenta de tempos em tempos a exigir um questionamento tão perturbador que se corre o risco do imobilismo e da resignação. Numa arte que jamais seria a mesma, pois determinada por um outro nível de consciência, esse aspecto foi observado de modo notável por Peixoto. Artistas e público se viram na condição de provocarem substanciais alterações na maneira de realizar (se entendermos o olhar, a leitura, como um ato de realização) e conceber o próprio teatro.

Plantado no chão do mundo sem esquecer as possibilidades reais que o imaginário lhe oferecia como matéria-prima da criação, esse artista e intelectual gaúcho, aliava a sua extrema capacidade de análise a um humor sutil e a uma escrita treinada em anos de jornalismo. Egresso do antigo Teatro Oficina, no qual participou intensamente de algumas das suas mais célebres montagens, Peixoto romperia com o grupo e se alinharia a um projeto de teatro cujo engajamento acreditava melhor orientado.

No entanto, uma grande generosidade parecia inspirar a sua capacidade de entender as matrizes paradoxais das nossas formações sociais e aqueles aspectos mais humanos. Num artigo sensível, se não me falha a memória, publicado por ocasião do retorno de Zé Celso ao Brasil, ou quando do lançamento do filme 25, do próprio Zé e Noilton Nunes, repensaria e se deixaria impressionar vivamente pelas admiráveis experiências que o antigo companheiro de grupo conseguira desenvolver fora do país. A história do outro passava a ser objeto de reflexão e sucessivos balizamentos da sua própria história.

Por último, lembro, quando ainda era ainda um estudante secundarista, sobre a expectativa que a cidade inteira parecia guardar com a estreia de Calabar, o elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra. A obra se pretendia de grande comunicação – a peça era um musical com uma irreverência típica do período, e algumas músicas vieram a fazer parte daquilo que de melhor aquela época produziu em termos de consciência política e artístico-musical. Calabar, como sabemos, foi vergonhosamente censurado, após o texto ter sido aprovado pela Censura Federal. A idéia era quebrar a espinha dorsal daqueles artistas e produtores que se aventuravam por um trabalho de resistência cultural, num país sob uma ditadura civil e militar. O diretor do espetáculo era Fernando Peixoto. Pois bem, no ano seguinte, estava ele em cena, dirigindo e atuando, num trabalho que marcou época: Um grito parado no ar. O texto de Gianfrancesco Guarnieri era uma espécie de autobiografia e reflexão coletiva de amplos setores artísticos, assim como uma metáfora do país, a partir dos termos em que era possível se expressar. E isso não era pouco.

Fernando Peixoto distinguia-se, pois, por uma capacidade inesgotável de se recriar e pensar por ângulos diferentes estratégias de construção de uma arte. A sua obra parece nos ajudar a compreender melhor os fios esgarçados do nosso tempo.

Zé Celso: “votarei em Dilma; PSDB e Serra são antipopulares”

Zé Celso Martinez critica monoteísmo de Marina, a "mentalidade antipopular" de Serra e declara voto a Dilma, para continuar projetos de Lula

Zé Celso Martinez critica monoteísmo de Marina, a "mentalidade antipopular" de Serra e declara voto a Dilma, para continuar projetos de Lula

Transcrevo entrevista com Zé Celso, publicada no Portal Terra, em que o diretor analisa de uma forma saborosa o quadro político atual brasileiro, a situação de Cuba e as candidaturas postas em cena.

O seu tom iconoclasta, aliado a  um rigor bem temperado, é sempre uma grande celebração por uma expressão maior, por um país menos servil, por uma vida mais humana.

Claudio Leal

O diretor e ator José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina, defendeu um plebiscito popular para decidir sobre o terceiro mandato de Lula. Após o presidente rejeitar a permanência no poder, Zé Celso analisou as novas nuvens e, da mesma forma que Chico Buarque, decidiu votar na ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff (PT). Quer a continuidade da onda Lula.

O guru da Tropicália faz duas restrições a Dilma: ela não tem “uma perspectiva muito clara” da cultura e se posiciona contra a descriminalização das drogas. Pretende conversar com a petista.

– Acho que Dilma poderia ir muito mais longe. Ela era do PDT, tem essa origem trabalhista, precisa resgatar esse lado. E eu adorava o Brizola!… Gostaria de ter esse encontro. Eu poderia contribuir pra uma dimensão maior, porque sou ator e diretor. Até o Hitler se consultava com atores.

Para o diretor, que volta a encenar “Bacantes” no Oficina, o pré-candidato José Serra (PSDB) tem uma “mentalidade antipopular” e governa com um grupo fechado.

– O governo Lula tem as portas abertas para os movimentos sociais. Tenho a impressão de que o Serra não. O pessoal do PSDB tem uma mentalidade antipopular, da tecnocracia – critica.

No sentido inverso de Caetano Veloso, outro tropicalista, Zé Celso não se empolga com a candidatura de Marina Silva, do Partido Verde. Há uma razão pagã.

– Acho isso estranho: uma pessoa que vem da Amazônia, no momento em que se tem escolas públicas com línguas locais, ter um pensamento evangélico, que é um pensamento cristão muito reduzido?

Apesar do entusiasmo com Lula, ele não aprova a política externa brasileira em relação à ditadura cubana de Raúl e Fidel Castro. O presidente comparou os presos políticos de Cuba a bandidos encarcerados no Brasil.

– Lula foi muito infeliz. Lula poderia exercer esse papel que quer ter no Irã: “Fidel, vamos fazer um socialismo democrático”… Se eu fosse amigo de Fidel, eu diria: “Abre essa porra!”.

Confira o papo.

Terra Magazine – Tem acompanhado a sucessão de Lula, essa fase inicial das campanhas? O que você está pensando dos candidatos pós-Lula?
Zé Celso Martinez – Quero dizer que gosto muito do governo Lula, com todas as suas contradições. Ele é uma espécie de presidente antropófago, sem ideologias. Come tudo, como um antropófago, assim como eram os índios que comeram o bispo Sardinha. Segundo Oswald de Andrade, esse é o começo da história do Brasil: o navio naufragou e ele foi comido pelos caetés. Para minha geração, isso foi uma evolução. Porque o padre Anchieta era o que tinha criado o teatro brasileiro. E minha geração foi buscar as influências indígenas. Uma virada de ponta à cabeça, esse retorno à antropofagia em 1966, 1967. Oswald nos provou a todos: Glauber, Caetano, Gil, Oiticica… Inverteu a história do Brasil, incorporando a cultura do índio, o que foi fundamental para o movimento Tropicália, considerado um dos movimentos culturais mais importantes do mundo no século passado. É uma revolução que levou Lula ao poder, porque os estados eram limitados às oligarquias. Lula está requebrando. Gostaria que continuasse na mesma linha, que ele desse uma chave de cadeira em Serra.

Por que não Serra?
O PSDB é um partido que foi interessante no tempo de Mário Covas, Franco Montoro. Com Fernando Henrique eles mudaram muito. Veio aquela tecnocracia, eles se fecham num grupo e respondem por tudo. Em oito anos de governo Fernando Henrique, não pisei nenhuma vez no Ministério da Cultura. No governo Lula, tivemos um ministério com Gil, com Juca Ferreira. É a política que revoluciona, acaba com a política de revanche. É a política da solidariedade, relacionada a presidentes indo-latino-africano-brasileiros… Bolívia… Não fomos guiados somente por interesses materiais. Tenho muita admiração pela política externa de Celso Amorim. O País tem muita coisa boa, ao lado de outras coisas que eu não gosto, como Gilmar Mendes, que eu acho abominável. Claro, tem dificuldades. Obama, nos Estados Unidos, precisou sacrificar o aborto pra passar a reforma da saúde. É todo um jogo muito difícil, mas ele (Lula) conseguiu alargar muito. Gostaria que essa onda continuasse no Brasil. No tempo do governo de São Paulo, Serra pôs João Sayad como secretário de Cultura. Só fez grandes obras, museus.. Ele não tem uma ligação com a cultura popular, com a Tropicália.

E Dilma tem isso? O que você acha dela?
Tenho sentido muito falta dela na área de cultura. Publiquei um texto, em resposta a Caetano (Veloso) e sobre Lula, e eles (da assessoria de Dilma) até me ligaram. Nem ela, nem Caetano sacaram essa política cultural. Há coisas que não aconteciam. Estamos viajando o Brasil todo com quatro peças, no mínimo duas mil pessoas de graça em Brasília, pagando com alimentos não-perecíveis. E vamos a Recife, Salvador, Manaus… Vamos correr o Brasil todo. Esse governo teve abertura pra isso, fez emergir a experiência do Teatro Oficina. Sem modéstia nenhuma, em 51 anos conseguimos transformar. A burguesia tem medo, mas a população toda tem vontade de se incorporar. A infraestrutura da vida é a vida. Essa revolução veio do desbunde, da revolução feminina, gay, ecológica, dos índios, uma mudança total dessa mentidade. A cultura passou a dar muito valor à experiência vital de todos os povos, à cultura carnavalesca, orgiástica, não-ideológica. Eu gostaria muito que a Dilma se abrisse. Ela não tem uma perspectiva muito clara, mesmo assim eu vou votar nela.

E Marina? A candidatura dela é uma boa?
A Marina, eu acho muito interessante, uma pessoa legal, mas o fato de ela ser contra as pesquisas com células-tronco, ser criacionista… Acho isso estranho: uma pessoa que vem da Amazônia, no momento em que se tem escolas públicas com línguas locais, ter um pensamento evangélico, que é um pensamento cristão muito reduzido? A ideologia, o que tá segurando o capitalismo, é o pensamento evangélico, essa visão monoteísta. Tenho horror a monoteísmo. São maometanos. Prefiro votar na Dilma, apesar de ela ser contra a descriminalização das drogas. O bom é que ela tem a linha americana de o usuário ser tratado com carinho e o traficante com punição.

Os três candidatos são contrários à descriminalização das drogas…
Isso de punir tem que mudar. Sou a favor da total proibição do crack, mas a cocaína e a maconha devem ser tratados pelos ministérios da Saúde e da Cultura. A maconha é um santo remédio. Eu tô fumando um baseado agora, porque sou cardíaco e a maconha dilata minhas artérias e melhora a respiração. Tenho uma produtividade muito grande com ela. Cocaína não posso cheirar, tenho problemas cardíacos. Freud usava cocaína para escrever. Há casos graves, eu sei, mas o crack que é o problema. Discordo da ideia de punição. Acho que Dilma poderia ir muito mais longe. Ela era do PDT, tem essa origem trabalhista, precisa resgatar esse lado. E eu adorava o Brizola!

Um político bem teatral.
Era teatral, mas também um homem perspicaz. O programa dele era o de Darcy Ribeiro, um homem extraordinário. E também o de Getúlio. Eu existo graças ao suicídio do Getúlio. Se não fosse o sucídio do Getúlio, não teria Bossa Nova, golpe militar, tropicalismo, contracultura, Teatro Oficina… Brizola tinha coisas do trabalhismo do Getúlio, que são mais libertárias, porque incorporaram a cultura indígena, liberaram o candomblé, oficializaram o carnaval, Capanema e Drummond no Ministério da Educação. Falta essa dimensão a Dilma.

O grupo dela te ligou, mas vocês ainda não se encontraram?
Eles me ligaram, depois do artigo. Ficamos de nos encontrar. Gostaria de ter esse encontro. Eu poderia contribuir pra uma dimensão maior, porque sou ator e diretor. Até o Hitler se consultava com atores. O ator tem uma percepção que não é a do marketing. Não dá pra inventar uma nova pessoa de um dia pro outro. Você sabe da vida: é um lado crítico, sonhador. A educação sem cultura não vale nada.

Como você analisa a personalidade de Serra?
Ele é competente, fez uma série de coisas, mas em relação ao Oficina e ao Bexiga (na briga com o grupo do empresário Sílvio Santos), ele lavou as mãos, disse que não ia se meter nisso. E querem construir três torres com 700 apartamentos. O teatro está sendo preparado pra ser tombado. Vamos fazer uma universidade antropófaga, revitalizar o bairro, não vamos deixar essas três torres serem construídas. O tombamento do teatro vai ser discutido no Iphan.

O que você pensa do programa Bolsa Família, que sofre críticas por ter um lado assistencialista, de dependência?
Tem um lado que é insuficiente, mas trouxe uma ascensão social relativa. Associado à educação, pode ir muito mais longe. O governo Lula tem as portas abertas para os movimentos sociais. Tenho a impressão de que o Serra não. O pessoal do PSDB tem uma mentalidade antipopular, da tecnocracia. Me lembro que puseram uma múmia, um presidente da Sibéria, um cara frio no ministério da Cultura. Dedicamos a estreia de uma peça a Serra. Poderia fazer do Bexiga um bairro cosmopolita, mas ele não apareceu, não foi à peça. São desligados. Dou muita importância à contracultura. Não pode ser só essa cultura de fazer grandes museus, grandes obras… Na Itália, Berlusconi investe em orquestra sinfônica, mas não dá um tostão pro teatro. O teatro italiano morreu! Ele tem medo da arte viva.

Dilma deu uma entrevista, no site pessoal, sobre o setor cultural. Ela se compromeu com os pontos de cultura, em manter os programas do governo Lula.
Não vi a entrevista. Vou votar nela, acho que tá mais próxima. Ela tem cinco pontos no governo, igual ao Fernando Henrique. Cultura, educação e meio ambiente são uma coisa só. Se não forem tratados como uma coisa só, é um erro. O meio ambiente é uma prioridade no mundo todo. Ela excita criar soluções novas, um salto econômico, no sentido de um país mundial. O Lula tem cultura bem popularona.

Onde ele erra?
Só não gostei da postura com Fidel Castro, com os presos políticos. Não gostei. Se eu fosse amigo de Fidel, que foi tão importante na Revolução Cubana, pra minha geração, eu diria: “Porra, Fidel! Não vá morrer como (Fulgêncio) Batista, viva como Gorbachev”. Tenho a impressão de que, por um gesto de Cuba, Obama abriria. Se cair o bloqueio, o regime cairia por si. E poderiam continuar dentro do socialismo. E tem isso de escritores como Gabriel García Marquez apoiarem, escreverem em defesa… A liberdade é a coisa mais importante que existe na vida, é a condição da coletividade, da orgia. Dentro do teatro, você precisa ser um indivíduo forte – e isso vem da liberdade.

Você esteve recentemente em Cuba?
Estive. Fui ao Tropicana (cabaré em Havana), porque eu adoro aquilo. Tem vários palcos. De repente, um copo de rum na mesa, um charuto, uma coca-cola! O Cuba Libre foi uma das bebidas da minha geração. Na hora, eu tive um insight e comecei a gritar: “Cuba libre! Cuba libre!”. Agora, pus em “Bacantes” um ator parecido com Fidel, que faz uma referência à Revolução Cubana. Tem uma cena de “Bacantes”, Deus ex machina, em que Dionísio aparece e restabelece a paz no mundo, acabam as guerras. Quem ganha o Oscar é o Fidel. É ambíguo, gosto muito. Os amigos de Fidel, como Frei Betto, poderiam aconselhar…

Já esteve com Fidel alguma vez?
Nunca estive com ele. Eu fui a Cuba. Marcelo Drummond e eu, naquela rota de Miami pra Cuba. Me botaram nesse primeiro voo, liberado por Obama, e foi maravilhoso. Eu levei “Bacantes”, fomos à Casa de las Américas, mas… À noite, era tudo supercareta, aqueles cartazes… Tem que abrir. O cubano de Miami não tem mais os velhos ressentimentos. Os velhos podem ter, mas os novos têm outra cabeça. Jamais o imperialismo vai conseguir derrubar Cuba, porque é uma cultura muito forte, a dança, a santería, a música… Tudo isso é um banho nos Estados Unidos. O problema é que Fidel tem formação jesuítica.

Aquele negócio de céu e inferno…
Ele é uma pessoa inteligentérrima, poderia fazer uma Perestroika (reconstrução). Não se pode ficar nessas crises excessivas. Para mim, a revolução não veio com os que pegaram em armas, mas com os que tomaram drogas, ácidos, tiveram contatos com os povos indígenas…

Lula é fruto disso também?
Mais que isso. Lula tem uma cultura pragmática, não positivista. É mais que o Lula. O Lula foi posto por esse desejo de mudança da humanidade. Bush conseguiu reunir todo o mundo contra a ideologia do Partido Republicano. Vivemos uma mudança de era. Cuba segurar aquilo não tá com nada. Lula foi muito infeliz. Lula poderia exercer esse papel que quer ter no Irã: “Fidel, vamos fazer um socialismo democrático”.

A esquerda brasileira não tem uma visão estática de Fidel, anacrônica?
Virou um mito. Tem que quebrar esse tabu, passou muito tempo. A Revolução Cubana de 1959 foi muito boa, deu seus frutos, somou-se à revolução cultural de 1968, que no Brasil começou em 1967, com o “Rei da Vela” e “Terra em transe”… E o “Roda Viva”, que trouxe de volta o coro grego. Voltou o paganismo. O paganismo é mundial, ninguém é dono da verdade, não tem essa coisa de eu tenho um Deus e ele é a verdade. Então, se fosse amigo de Fidel, eu diria: “Abre essa porra!”. Ele vai acabar morrendo ditador. Eu diria: “Abre que vai ficar uma maravilha!” Não vai ter nada.

Fonte:  Terra Magazine