Rupturas e argamassas

Por Theotonio de Paiva

The walking lesson, por Jacek Yerka

The walking lesson, por Jacek Yerka

Estranho costume dos homens de procurar demarcar de modo bem vincado, nascimentos, revoluções, festejos, insurreições, e por aí vai. Essa lógica se orienta (eu iria dizer se penitencia), de uma concepção imorredoura, presente nos mais profundos arcanos da mente humana. Como se a partir daquele instante alguma coisa completamente original fosse inaugurada, e, então, rompesse o antigo calendário e passasse a condicionar um novo tempo.

Incontestavelmente, há uma enorme dificuldade no homem em perceber e, sobretudo, em compreender o processo tortuoso da existência, na sua seqüência trágica e risível, a partir de uma dinâmica mais fluida, em pequenos compassos. Talvez isso nos tenha levado a classificar o tempo e mais precisamente certas passagens da história de um modo integralmente arbitrário.

Vivemos uma transformação profundamente dolorosa e paradoxalmente enternecedora, naquele atropelo de fatos, cuja dinâmica perturbadora, nos tem levado a uma estúpida racionalização.

Imagine, pois, o leitor distraído, a seguinte seqüência. Em sua volúpia, sobe as escadas de um imenso casarão e se deixa restar no último cômodo, o mais escondido do mundo. Ali, a passagem das horas é severamente perturbada. Não há nada que possa ser controlado pelo tempo. O mais refinado prazer se embaralha com um temor respeitoso de quem não compreende direito as reservas que a vida lhe faz. E assim escorre o tempo.

Pois bem, naquele lugar, distante de todas as coisas, após o que poderia ser mensurado como uma noite de sonho convulso, a leitora acorda e desce as imensas escadarias. A distinção entre realidade e fantasia se embaralha em sua mente. A princípio, alguma coisa parece não fazer sentido. O que terá mudado? Com dificuldade, consegue distinguir uma sensação emudecedora e se vê diante de um novo tempo.

Mas, cautelosa, sabe não se tratar de uma certeza absoluta. O que é aquilo? Que tempo é aquele? Pode ser a modernidade ou a maior e mais voluptuosa crise financeira. Talvez o grande cisma da Igreja ou a última vanguarda dos tempos pretéritos. Quem sabe, o renascimento definitivo das artes e dos homens e seu último adeus à idade das trevas, ou, em seu segredo resoluto, a mais sanguinária revolução dos costumes e experiências políticas?

Aquela imprecisão dos fatos, assim como a dura construção de ações aparentemente insignificantes, escapa da mente do aturdido leitor. Dito de outro modo, se apresenta como idéias postas a descoberto para crianças, que as escutam, olham embevecidas, mas não as compreendem. Por vezes, as coisas mais simples se tornam objeto de uma reverência sublime, condicionadas por aquela ignorância aterradora.

O novo estado de coisas, causador aparente de uma ruptura impiedosa é capaz de demover todos os cânones, impurezas, desgovernos e ignorâncias incontestáveis. Dentro dessa lógica, será preciso romper para todo o sempre com o passado a fim de um novo tempo vingar e alcançar um valor inquestionavelmente absoluto. Instaura-se um vazio imperceptível incapaz de traduzir o encantamento atordoante: tudo mudou num repente.

Assombrado com a descoberta, o fatigado leitor se aborrece. Precisa viver numa outra condição, menos conduzida por perplexidades e vozes de uma ruína imensa. Sobe as escadas novamente a fim de reverter aquele estado que parece querer da individualidade suprema algo mais do que a vida.

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

Anúncios

8 pensamentos sobre “Rupturas e argamassas

  1. Pingback: Beatriz Sarlo: “Benjamin é nosso contemporâneo” | Caderno Ensaios

  2. Pingback: Mais borracha que lápis « Caderno ENSAiOS

  3. Pingback: O delírio e a cegueira « Caderno ENSAiOS

  4. theo,
    que texto instigante.
    gosto muito quando você se envereda por produções de sua própria lavra.
    gosto demais.

    e vi o weden ali em cima. morro de vontade de encontrar este mocinho de novo. será que isto, um dia, vai acontecer? beijo aos dois.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s