Nelson Rodrigues

Foi numa crônica recente do Ruy Castro que fiquei sabendo dessa raridade: o documentário Fragmentos de dois escritores.

Aqui você irá encontrar trechos do filme e poderá apreciar um Nelson Rodrigues ainda relativamente jovem sem aquela imagem que tanto o caracterizou no fim da vida. Ao morrer, aos 68 anos, muitos juravam tratar-se de alguém séculos mais velho.

Realizado pelo dramaturgo e diretor teatral João Bethencourt, que julgava o filme perdido, e patrocinado pelo Consulado dos EUA, somos apresentados a um Nelson sem artificialismos, em depoimentos e cenas triviais.

Assim, ele aparece tomando o famoso mingau contra a úlcera, escrevendo em sua Olivetti, assistindo Pelé no Maracanã e gravando a mesa-redonda sobre futebol na TV “A Grande Revista Esportiva Facit”.

A versão integral foi localizada no Arquivo Nacional dos EUA por Carlos Fico e será divulgada em breve pelo Brasil Recente.

Anúncios

Brigam Espanha e Holanda

Essa canção faz parte do disco Sentinela de Milton Nascimento. A obra foi lançada há exatos trinta anos. “Um Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco” é do próprio Milton e a letra de Leila Diniz.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Por que não sabem que o mar
Por que não sabem que o mar
Por que não sabem que o mar
É de quem sabe amar

Na faixa, num dado momento, escutava-se a atriz recitando o poema ao fundo. O trecho em questão era retirado do filme Todas as mulheres do mundo, de Domingos de Oliveira. E assim se criava um belíssimo diálogo com a voz do cantor e a doce Leila num encontro que jamais existiu.

O poema  faz alusão aos impérios, que se digladiavam naquele período ligeiramante posterior aos grandes descobrimentos.

Hoje os direitos do mar são outros e decidem uma paixão do planeta.

A Batalha de 5 de maio (*)

Seria provavelmente a maior injustiça que eu poderia cometer comigo mesmo: ignorar as imagens épicas sobre a batalha do Flamengo contra o Golias, numa crônica brilhante do Marcelo Salles. O texto é de um rigor e uma construção digna de um Nelson Rodrigues. A grande distinção em relação ao dramaturgo, tricolor fanático, é a modesta inversão de polaridade futebolística. Por sinal, acredito firmemente, Marcelo Salles leva a melhor.

por Marcelo Salles

Durante a semana não se falou de outra coisa. O jogo de volta entre Flamengo e Corinthians era motivo de comentário nos bares, nos escritórios, na imprensa e até nas igrejas do país inteiro. Com justiça. Divina.

Amigos, esta não foi apenas mais uma partida de futebol. Não foi mais um jogo entre dois times que lutam para avançar num dos campeonatos mais disputados do planeta. Não. Flamengo e Corinthians protagonizaram uma batalha épica, bíblica, que envolveu multidões na noite desta quarta-feira, o memorável 5 de maio de 2010.

O Corinthians começou no ataque. Precisava da vitória a qualquer custo, pois havia sido derrotado por 1 x 0 no jogo anterior. Até que no primeiro duelo entre David e Golias, prevaleceu o gigante. O zagueiro do Flamengo falhou e Ronaldo raspou a mão na bola para desviar do goleiro, sem que o juiz visse. 1 x 0 Corinthians. Minutos depois, o segundo duelo entre David e Golias. Ronaldo se posicionou melhor dentro da área, recebeu o cruzamento e cabeceou para marcar: 2 x 0 Corinthians.

A torcida corintiana não parava de cantar, era uma festa só. O grito constante, como não poderia deixar de ser numa batalha bíblica, tinha forte conotação religiosa: “Todo poderoso timão”, repetiam os torcedores, em voz grave e vagarosa, como a evocar os templos mais obscuros da Idade Média. O seu Golias era entoado em verso e prosa. Aquele que havia sido tão injustiçado, finalmente provara o seu valor, diziam os torcedores paulistas. Como um time que se classificou em primeiro poderia ser desclassificado pelo último lugar do campeonato?

A essa altura, amigos, os corintianos já comemoravam a classificação. Nas arquibancadas do Pacaembu, os apitos soavam. Eles, os apitos que a imprensa paulista apontava como a grande arma secreta da Batalha de 5 de maio. O Flamengo pegava a bola e 40 mil apitos ensurdeciam os jogadores rubro-negros. E assim terminou o primeiro tempo, como se o barulho pudesse vencer a harmonia.

O comentarista da TV Globo, Casagrande, bem que tentou avisar, sem disfarçar a torcida para os paulistas. “O Corinthians tem que aproveitar antes que dê o intervalo e o técnico do Flamengo conserte a equipe”.

Não deu outra.

O Flamengo voltou para o segundo tempo com o espírito da tempestade rubro-negra. Aquele espírito que baixou no primeiro jogo, com a enchente que alagou o Maracanã. Um espírito inexplicável para os simples mortais, um espírito que só quem tem sangue-rubro negro consegue entender.

E se vocês não acreditam que este foi um jogo bíblico, leiam a passagem 13.1-813 dos Coríntios: “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei”? É, amigos, pois vos digo que foi ele, Vágner Love, a personificação do amor, que invadiu a área pela ponta esquerda, como um raio celeste, e marcou o gol da classificação rubro-negra.

Ele, Vágner, que também tem nome de um dos maiores músicos do planeta. Ele, Vágner, que com sua maestria calou 40 mil apitos. O barulho vulgar, monótono e triste que emanava das arquibancadas deu lugar aos cantos da torcida mais espetacular do mundo. Vágner, com sua dança mágica, enraizada nas favelas do Rio de Janeiro, não elevou apenas a alma humana. Na Batalha de 5 de maio, Vágner elevou o time carioca às alturas, ao mesmo tempo em que entregou aos adversários a excomunhão do altar da arrogância.

O Flamengo, de novo, jogou como quem quer ser campeão.

(*) Dedico este artigo ao amigo, escrevinhador e grande Jornalista Rodrigo Vianna. Ah, e que por acaso é corintiano.

Publicado originalmente em seu site Fazendo Media.