O que faço com o meu twitter?

Li essa crônica deliciosa da Adriana Delorenzo no Blog do Rovai. É um flagrante sem retoques e com muito humor da absoluta falta de perspectiva que parece nos atingir nesse início de século. Se olharmos com mais vagar, veremos por detrás dessa  nuvem difusa os grandes interesses que mandam no mundo contemporâneo. Boa leitura.

Por Adriana Delorenzo

Às vezes me sinto uma caixa vazia, oca, sem conseguir processar tanta informação. Twitters, facebook, Orkut, MSN, tanta gente querendo se comunicar, mas no fundo…

só aparência.

As fotos mais descoladas, nos lugares mais loucos. Tudo isso pra quem ver pensar: nossa quero ser seu amigo, assim também vou me descolar.

Basta fazer uma análise. Veja só… ai que saudade, precisamos marcar aquela, adorei te ver aquele dia, nossa foi demais. E para por aí. Será que realmente esse papo evolui? Ou será que encontros na rua, passando ali na hora do almoço correndo, com quinze minutos pra voltar para firma merecerão o mesmo afeto? Como ser simpático em mensagens de texto cada vez mais curtas? Como não ser seco, babaca e dizer o mesmo que todo mundo? Como ser original?

Aliás originalidade está bem difícil nessas redes sociais. Mas, enfim, isso é o que menos importa. O importante é formar uma rede, ou transportar a real para um espaço digamos mais público. Com espectador. Com um toque de voyeurismo. É possível descobrir se a pessoa está grávida, quem é o pai, quando vai ser o chá de bebê, se já existem irmãozinhos, quando vai nascer, se a gravidez está saudável. Ver a felicidade de todos os membros da rede e saber onde a futura criança vai viver. Será no facebook?

Às vezes parece que um número de telefone já não basta. É muito próximo. Antes batia-se na porta, sem acanhamento, sem campainha. Mas agora nem sino, nem interfone. Muito menos um telefonema. Tudo começa assim com longas conversas pelo messenger. Madrugadas, altos papos. Ele lá. Ela, a quilômetros de distância. Ele aqui. Ele no andar de baixo. Ela em cima. Elas no subsolo do hemisfério norte.

Tem sentido tudo isso?

Não passa de papo de um excluído de redes sociais. Será possível uma política pública para inclusão social em redes. Afinal nada mais rentável…

Em poucos minutos o perfil está traçado. Sabe-se tudo o perfume, se é doce, mais picante ou floral. Os livros, isso se der sorte de a pessoa ainda ler. Porque em tempos de internet a literatura ganhou 140 toques. Um romance como As Mil e uma Noites, com seus três volumes, talvez já tenha perdido seu encanto.

Aliás, encantar-se é um belo verbo, pois tem a beleza do canto com o charme do encantamento. Ah, Chico Buarque, se você soubesse como o mercado já te abomina. São coisas tão anacrônicas, preconceito, pobreza, perseguição, política. Para quê?

Há coisas tão mais simples, não se preocupe minha filha, dirão. Uma boa maquiagem, um belo traje, aquela bolsa.

O que seremos? O que farei? Haverá tempo e pessoas para eu me relacionar? Ou ficarei só, lendo todos os romances do Mia Couto?

Serei eu anacrônica, chata, que não atrai ninguém…. nenhum leitor. O mais triste fim da poesia. Nenhum leitor, nenhum autor, nenhum escritor, nenhum prosador, nenhum compositor, nenhum seguidor…

O que faço com o meu twitter?

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Teoria e prática

Por Theotonio de Paiva

Depois de quase um mês, retomamos as atividades aqui no blog. Posso garantir que essa experiência me faz muita falta. Concretamente falando, a possibilidade de rascunhar, pensar em voz alta, talvez obter alguns retornos impensáveis, e, sobretudo, lutar por uma democratização não apenas da informação, mas do conhecimento como um todo, se traduz de uma maneira cada vez mais surpreendente. E isso não acontece só aqui. Mas posso e devo falar do meu quintal.

O domínio da linguagem, a construção de uma crônica desses nossos tempos, permite-nos elaborar cotidianamente algumas questões. Esse é um aspecto decisivo dos termos desse blog do qual não devemos nos afastar.

Assim, o conhecimento vai se depurando. Às vezes se sofistica, mas no instante seguinte volta atrás, erra, por conta de um embrutecimento da sensibilidade. Mas isso não importa. Em outros momentos se projeta com saltos incríveis, a partir de entendimentos mais profundos sobre esse tempo memorável em que vivemos.

São tantas as crises, as mesquinharias, os desacertos, os retrocessos, que nos imaginamos numa época grotescamente caótica. E é. No entanto, há essa outra dimensão curiosa do pensamento, que nos impulsiona a intuir novas percepções. E então somos pegos naquele embate com causas imprevisíveis e independentes entre si que sabiamente nos oferece um outro punhado mais generoso da expressão humana.

Shakespeare, em seu Hamlet, talvez tenha chegado perto daquela síntese memorável sobre o homem, ao percebê-lo capaz dos vôos mais sublimes e, paradoxalmente, senhor das mais abjetas criações. E, ao anunciar esse homem moderno, o poeta parece falar para os séculos futuros em tons premonitórios. Muita coisa mudou, porém outro tanto se manteve preso à roda do tempo.

De todo modo, a crise em que vivemos se afigura como uma manifestação perene do mundo. Não há escapatória. Não há motivo para vocalizar um tempo pretérito de uma fábula de ouro, tampouco supor que o fato de termos estado atrás daqueles seres que se saciavam com os restos de carniça dos exímios caçadores, nos obrigue a uma fatalidade única de desespero e dor.

A representação daquele princípio vida e morte se traduz nas nossas criações, em nossos modos de operação, enfim, em nosso destempero, e naquela inatingível, posto que reconhecida, serenidade. A vida é curta, não há escapatória. Sempre foi e sempre será. Mas o flagrante maior do cotidiano, aquela expressão simbólica da vida em suas contradições mais delicadas e sutis são vocalizações supremas de um mundo que insiste em transver o próprio olhar e comunicar aos outros a condição suprema de cada um de nós, a minha e a sua. Voltemos aos tempos de caça.