Vestido de Noiva, por Antunes

Eis uma sequencia de Vestido de Noiva,  realizada em 1974, por Antunes Filho, a partir da obra de Nelson Rodrigues.

O trecho em questão parece  inspirar a ideia de um teatro brasileiro extremamente potente, vigoroso.

Deixa entrever ainda, apesar das diferenças profundas de linguagens, uma espécie de subversão cultural dentro de uma emissora pública. Vale recordar que esse projeto da TV Cultura acontece no auge de uma ditadura militar.

Violentamente cerceadora de corações e mentes, foi igualmente implacável tanto na coerção política, quanto naquela referente aos costumes. Decisiva em calar as vozes discordantes, bem como capaz de internalizar o abuso de poder,  junto ao cidadão médio,  como algo natural para a construção de uma sociedade mais complexa, ao mesmo tempo em que, supostamente, mais justa.

Por sinal, esse tipo de iconoclastia das narrativas comparecia igualmente em determinados horários da programação de algumas redes privadas de televisão. Basta lembrar as experiências das novelas das 10 da Rede Globo com textos de Dias Gomes e Braulio Pedroso.

Mas voltemos ao Vestido de Noiva. O estilo noir da encenação de Antunes, repleto de citações de filmes dos anos 40, casa-se de uma maneira embriagante com a desenvoltura dos atores. Nathália Thimberg, belíssima em sua Madame Clessi, e Edwin Luisi, cuja máscara atemporal  o tornava uma expressão aterradora e intensamente dramática, parecem submergir naquele mundo.

Entretanto, a possibilidade de ver Lilian Lemmertz em cena, não obstante se tratar de um pequeno fragmento,  é uma experiência deslumbrante. Nunca a vi no palco. Recordo-me dela num filme do Eduardo Escorel, Lição de Amor, baseado num romance de Mário de Andrade, Amar, verbo intransitivo, e de algumas poucas experiências na televisão.

A sua capacidade de modular as palavras, de sair de um tom bucólico, infantil, e se embrenhar nas searas do trágico, em três compassos de cena, é algo que nos agita por inteiro. Bela figura de mulher. Dona de uma força  emocional surpreendente.

Curioso ainda que a sua escolha para fazer a Alaíde da peça, enterrava de vez aquela visão canhestra de adequação física do ator à personagem. Ao contrário, cada gesto prioriza  uma aproximação emocional profunda entre o intérprete e a sua criação. Esse é o elemento verdadeiro, vigoroso da criação da obra.

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3 pensamentos sobre “Vestido de Noiva, por Antunes

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