Para afinar a sensibilidade política

Por Theotonio de Paiva

O batizado de Macunaíma, Tarsila do Amaral

O batizado de Macunaíma, Tarsila do Amaral

Os mitos, por vezes, dizem infinitamente mais sobre um povo, um país, do que a sua própria história. Em sua construção de uma outra verdade, trazem uma provocação terrível que nos obriga à reflexão. A auto-imagem, habilmente construída pelo senso comum, de que éramos um povo acovardado, incapazes de defender os seus direitos mais básicos, parece ter se instalado em nosso tecido social como uma doença auto-imune. Essa expressão nos ocupa corações e mentes, desde muito tempo, a ponto de imaginá-la como natural.

Referendada por toda a sorte de governos, lideranças políticas, ingênuos, raposas espertas, intelectuais perdigotos, jornalistas inescrupulosos, grandes empresários, a construção desse imaginário doentio insinuou-se como uma metáfora da gente brasileira. Como se contra a força não existisse nenhuma resistência e aos homens não fosse dada a capacidade de pensar e escolher.

Num signo curioso, a brava gente é apresentada como um povo indolente, preguiçoso e sem caráter. Deturparam tudo. Até a imagem do herói nacional, Macunaíma, que Mário de Andrade inventara na sua rapsódia, a partir das lendas indígenas do alto Amazonas.[1] Na verdade, a figura do herói dizia uma coisa, mas foi retorcida como uma camisa, e virou outra realidade substancialmente diversa.

E o que pensava o escritor modernista? Ele via emergir um sentimento do trágico ao se dar conta de uma nação sem alma, cujo povo, o brasileiro, não teria “caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional”. [2] Não é difícil perceber que nada tinha a ver com a ideia de um sujeito escroque e salafrário.

Não há dúvida de que esse traço perverso de dominação vocaliza com finura a noção de que “uma nação não é somente uma entidade política, mas algo que produz significados – um sistema de representação cultural”.  [3] De todo modo, aquela condição macunaímica, apropriada sem grandes esforços, pelos setores hegemônicos, parecia reservar uma espécie de conformismo genético que se estenderia para as gerações futuras. De modo inabalável, desenhava o perfil previsível de um povo.

No entanto, essa mesma representação trazia algumas perguntas incômodas dentro de si: em que base se sustentava? Teria sido muito difícil conhecer as falas subterrâneas desse mesmo povo? Que insurgências esse povo alimentava? A sua explosão, enquanto potência, contida em jaulas invisíveis, como em diversas ocasiões se deu a perceber, de que maneira fora tragada? Como misturaram todas essas possibilidades para gerar uma resultante próxima de zero, confusa, despolitizada? E, curiosamente, de que maneira, como num passe de mágica, teria se insurgido do nada?

As noções retiradas de uma história pouco difundida e sorrateiramente embaralhada provavelmente não deixavam entrever os mecanismos de construção empregados. Os olhos atentos, pegos no passado, o mais cuidadoso possível em não apagar as diferenças e contradições, certamente indicariam que aquilo a que chamam de violência não estava por vir. Era algo intrínseco em nossa formação social.

Novamente, a corda do medo se soltou. Embora sejam inegáveis as manipulações e infiltrações perversas de grupos orquestrados, e um deslumbramento midiático de setores médios da sociedade, não há como deixar de identificar que as perdas irreparáveis, no acúmulo dos séculos, foram contabilizadas: não rendiam dois tostões. Basta imaginar a menina que olha pela janela e vê o rio que margeia a sua casa, coberto de dejetos, praticamente sem vida, com automóveis, entulhos, objetos roubados, cadáveres, muitos cadáveres, e um cheiro pavoroso que as narinas delicadas são incapazes de entender como uma produção humana.

O homem cordial, magistralmente intuído por Sérgio Buarque de Holanda, foi grotescamente pervertido. E repetido até explodir os tímpanos, enquanto os “movimentos reformadores” sistematicamente ignoraram a “a grande massa do povo”, com uma ausência quase total de uma “concepção da vida bem definida”, que tivesse amadurecido e, somente aí, pudesse ser implementada. [4]  Muito ao contrário, impuseram as suas concepções e doutrinas, numa predisposição arbitrária e não-consensual.

Mas inquieta, sobretudo, as motivações que insistiam na navegação rio acima da correnteza. Como não compreender que a idéia da cordialidade não abarca apenas “sentimentos positivos e de concórdia”? [5] Era do homem que falava ao coração que o “paulista” queria dizer. Em suas explosões de fúria, em seus gritos, seus desmandos, suas palavras desencontradas ao perjuro, embora doce e meigo com os seus pares e confrades. Esse era o senhor do nosso mundo. Esse é o senhor do nosso mundo.

E seria tão mais fácil entender o óbvio. O sublime pressupõe trabalho.

No entanto, apesar de dizerem muito a respeito de nossa cultura, os mitos sabem encobrir camadas arqueológicas de outros saberes e práticas. Assim como, sabiamente, em nosso comodismo maroto, nos tripudiam e nos enganam.

Nesse sentido, algumas lendas mais encobriam do que revelavam da própria idéia de Brasil. Historicamente tivemos no país uma série de revoltas, movimentos aparentemente reformadores ou não, manifestações, quebra-quebra, atos políticos os quais, em seus mais diversos momentos, procuraram alguma transformação social. Mas não foi só isso. Igualmente utilizaram a força de suas gentes para empregá-las numa espécie de resistência social. Resistência à transformação da própria sociedade.

Por outro lado, a nossa formação social foi construída sob o reino colonial, por meio do império da casa grande e da senzala, muradas pelas pedras rochosas da inquisição. A nossa bandeira, diziam, tinha o verde das matas e o amarelo do ouro que nos roubaram. No entanto, confirmava uma dimensão histórica absurdamente distinta.

Ora, distante daquele ideário romantizado, o pendão da tua terra, que a brisa beija e balança, expressa as cores de duas dinastias: a dos Braganças, com o verde daquela família real portuguesa, e, através do amarelo-ouro, simboliza os Habsburgos, da Casa da Áustria. Nenhuma referência aos primeiros donos da terra e silêncio aos negros e seus mais de três séculos de escravidão e dor. Nada.

O fato é que reinterpretaram de tal forma aquelas cores para as suas dores serem insuportavelmente mais felizes.

Aliás, reinterpretar é um verbo curioso, que as instâncias de poder parecem conjugar com perfeição. No entanto, é importante deixar claro, essa tal relação com uma percepção crítica de um símbolo considerado “sagrado”, jamais existiu em nosso verde-amarelismo, pois operaram sempre com aquele sistema de representação cultural que lhes convinha. Como narcisos às avessas, eles hoje brincam pelas ruas de reinventar a concepção da história. Assim, a cada hino, nos obrigam a atualizar o rito de louvor à nossa dívida imorredoura com o colonizador europeu.

O medo, a força, o gesto terrível, esses sim, fizeram parte da nossa constituição primeira. E se mantiveram como uma expressão intrínseca, fundamental, extasiada a cada novo rubor patriótico. (É importante ter claro e não confundir pátria com nação; patriotada, como já ensinavam os modernistas, com projeto de país. São coisas distintas, que só duramente nos é dado a perceber.)

Enfim, temos um poder de Estado, não de governo, que atua com rara competência, por meio da sua força policial. É importante observar, leitor amigo, a sutilíssima e machadiana diferença.

Com efeito, esse mesmo Estado encontra enormes dificuldades em reconhecer o seu povo. A não ser quando ele se aquieta enquanto massa de manobra, ou torcidas organizadas em frente a aparelhos de tevê, ou, ainda, na condição de dóceis rebanhos, capazes de doar a própria vida por aquele que melhor dramatizar um sentido para a sua existência.

No entanto, grandes parcelas da população são tratadas de uma forma imbecilizante, como se a discussão política fosse um mal. Talvez seja mesmo, é fato reconhecer. Nada é mais inoportuno do que pensar. E não é mais oportuno conceber o povo como tolo e infantil? Todos os governos ditatoriais pensaram assim. Todos, sem exceção.

Como dizia aquele pernambucano, já falecido, ao povo, basta estar submisso e aceitar um “governo másculo e corajosamente autocrático”. [6] Ou, dito de outra forma, se este cardápio não convier, cabe ao mesmo povo ser sustentado através do sadismo do mando, conforme reza a tradição conservadora no Brasil.

E, em nome de uma pátria e de um povo, que só existe na miragem dos homens, permanecerem fiel aos cultos masoquistas e sentimentais.

Importante notar que essa expressão de uma idéia de povo, não foi construída ao acaso. Foi necessária muita inteligência, uma dose refinada de maquiavelismo, e o emprego racional de uma força bruta para fazer voltar a roda da história e seguidamente conformar leis e constituições, em proveito das oligarquias e pretensões das (várias) metrópoles.

Os exemplos são inúmeros. Nesse sentido, no início do século passado, após a conquista da anistia, pelos marinheiros da revolta da chibata, que sofriam inúmeros castigos e penalidades, já objeto de reflexão aqui, neste site, os oficiais ordenaram o desarmamento dos navios e expulsaram dezenas de ex-amotinados, desrespeitando a concessão dada pelo próprio Estado. Há um desdobramento terrível com várias questões envolvidas, culminando com a notícia de mais de trezentos mortos. A figura de Tiradentes, o único homem do povo, num levante de poetas e donos de terra. Ao redor do seu pescoço, uma corda pendurada acertava a vingança do poder imperial. Estraçalhado os seus membros, depois de morto, salgariam a terra, com a anuência forçada do povo, obrigado a concordar de antemão com tudo aquilo. Ao vê-lo passar, deixavam-se estar, com os braços sobrepostos à bandeira de Portugal, no peitoril das suas janelas.

Os terrores de Canudos, com os seus remanescentes, após a devastação implacável; as experiências dos quilombos que transcendem em muito ao passado escravista; os relatos de Graciliano Ramos nas prisões do Estado Novo e tudo o que essa experiência inspirada no fascismo italiano significou; a Revolta dos Malês, em Salvador, na Bahia do século XIX; bem como aquela que ficou conhecida com a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, magistralmente reinventada por Lima Barreto no seu Recordações do Escrivão Isaías Caminha. E as seqüelas esfumaçadas pelas visões do inferno que os porões da ditadura ofereciam a empresários de vários ramos de negócio, cujos estímulos aos seus fetiches, naquela liturgia servida pelos jornais da época, contavam-se como sagração de um novo tempo.

Atualmente, num final de outono, início de um inverno nesse país tropical, em que as estações são pouco delineadas, constata-se um sentimento fascista que se nutre da insatisfação popular. No entanto, é importante, como disse um jovem jornalista, saber afinar a sensibilidade política. A nossa e a dos outros, pois do contrário é fácil. A grande massa vive uma indignação histórica. As suas artérias estão obstruídas como as das ruas e avenidas. As contradições se avolumam.

Por conseguinte, há uma incrível dificuldade de percepção dessa situação emblemática. Por todas essas condições, gerou-se um estado de aparente letargia enquanto os termos difusos são processados em condições encobertas pela exaltação lírica do povo. Muito tempo de falta de consciência política produziu uma ferida aberta descomunal. A água estava represada, turva, e agora mais gente veio para as ruas do Brasil. E terminou o tempo de se vender versões e ilusões fáceis.

Talvez possamos com isso compreender esses significantes como capazes de produzirem novas verdades, algumas profundas e duras, sobre a nossa trágica história, acobertada docemente pelo manto de uma carnavalização mal-compreendida, ao expurgar a violência e o caráter irreverente do cômico. Talvez, com isso, amadurecemos a ponto de promover uma discussão sobre algumas questões de fundo. Em especial, aquelas que ocultam as razões da violência e da insensibilidade política, sustentando, desde o Brasil colônia, estruturas sociais e modelos de exclusão.

_

Este trabalho é dedicado à equipe de jornalismo e produção da Pós TV [http://www.postv.org/].


[1] O lendário foi recolhido inicialmente pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Publicado em 1924, aparece como Mythen und Legenden der Taulipang und Arekuná Indianer.

[2] Andrade, Mário de. “1º Prefácio”. In: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Estabelecimento do texto Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 217.

[3] Hall, Stuart. Identidade Cultural. São Paulo, Fundação Memorial da América Latina, Col. Memo, 1990, p. 54.

[4] Holanda, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 160-1.

[5] Idem, p. 205.

[6] Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 41a. ed. São Paulo, Record, 2000, p. 123.

_

Talvez isso interesse a você:

A revolução e a aurora

As cidades rebeldes de David Harvey

A peste e a retórica do silêncio

Eu não vou me mover – curta metragem