Florestan Fernandes e a teoria do Brasil

Segunda classe, Tarsila do Amaral.

Segunda classe, Tarsila do Amaral.

Por Pedro Carrano, Vitória/ES, via Brasil de Fato

A contribuição de Florestan Fernandes para o desenvolvimento de um olhar sobre o Brasil permanece na ordem do dia para o debate da esquerda brasileira. Essa é a compreensão de José Paulo Netto, professor da Escola de Serviço Social da UFRJ e integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em debate organizado pela Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ele falou sobre o legado do pensador brasileiro ao Brasil de Fato. Além disso, Netto problematizou a relação entre os movimentos sociais e a sua incidência na universidade pública.

Brasil de Fato – Você está participando de uma mesa sobre o pensamento de Florestan Fernandes. Qual a atualidade do pensamento de Florestan hoje?

José Paulo Netto – A meu juízo, Florestan foi o maior cientista social brasileiro. E se a gente olhar com cuidado, o conjunto da sua obra, que é muito diferenciada, você percebe sua evolução, levando em conta os trabalhos dele do final dos anos 1940 até, por exemplo, a sua intervenção pública, na primeira metade dos anos 1990 – porque na obra dele não há como separar o cientista do homem público que ele foi.

Eu diria que o Florestan tem uma obra diferenciada, com momentos distintos, mas ele deixa uma teoria do Brasil. Meu amigo Carlos Nelson [Coutinho] (falecido em 2012), falava em imagem do Brasil. Eu acho que é mais que isso, é uma teoria do Brasil que ele formula. Eu diria que é uma interpretação do Brasil. Quando o Florestan, ainda fortemente funcionalista, está pensando na função da guerra entre os tupinambás, ele não está estudando um objeto arqueológico, ele está querendo entender o Brasil.

Ele traz um aporte a partir da caracterização de nossa economia como dependente. E qual a definição que ele dá ao caráter da elite brasileira?

O capitalismo periférico, dependente, a percepção que ele tem das nossas classes dominantes, isso é um momento da obra do Florestan. Esse é o momento culminante da obra do Florestan, eu diria que pós-golpe de 1964. O Florestan que foi, arbitrária e brutalmente, impedido de exercer seu magistério, pelo AI-5. Esse é o momento alto da obra de Florestan.

Mas não é o único dessa obra. Eu lembraria a você o trabalho sobre os negros, publicado na primeira metade dos anos 1960, a integração do negro na sociedade de classes, um contributo ao que eu chamo de teoria do Brasil. A concepção de dependência do Florestan não era weberiana, como foi de alguns teóricos da dependência que foram discípulos dele, o caso típico de Fernando Henrique Cardoso. Ele tem uma compreensão, a meu juízo, rigorosamente marxista.

Os duros juízos dele sobre as classes dominantes brasileiras me parecem absolutamente corretos e verazes. Falecido há 18 anos, Florestan é um absoluto contemporâneo nosso, um companheiro de jornada. É bastante provável que num juízo futuro os novos problemas da realidade brasileira exijam respostas que talvez não encontremos na obra de Florestan, mas as questões centrais foram as colocadas por ele.

Florestan Fernandes

Florestan Fernandes

No que estou chamando de teoria do Brasil de Florestan há um contributo de originalidade intelectual que é indiscutível. Mas Florestan é impensável, por exemplo, sem Caio Prado Júnior. Aquela obra-prima que é o livro A Revolução Burguesa no Brasil – com o que muita gente discorda – é uma reflexão originalíssima. Há um diálogo contínuo com Caio Prado, para dar um exemplo.

Na verdade, temos grandes pensadores, que não são necessariamente pensadores progressistas ou de esquerda, mas que contribuem para a construção disso que eu chamo de teoria do Brasil.

O professor Octavio Ianni costumava dizer que havia uma família de pensadores, uma linhagem que começa a rigor com Euclides da Cunha, que vai envolver personagens extremamente conservadores, como por exemplo, Oliveira Viana, um pensador no limite do conservadorismo. Florestan se beneficiou do diálogo com todos esses autores. Agora, atenção: foi um diálogo extremamente crítico. Isso permitiu a Florestan, face a vários pensadores, elaborar uma síntese superadora e criativa.

Saindo um pouco do contexto da conversa, há um texto recente em que você analisa que não há um problema de falta de teoria na esquerda; que o problema, hoje, é organizativo.

É um artigo pequeno, “O déficit da esquerda é organizacional”, mas que causou polêmica. Mas continuo sustentando aquilo. Eu não acho que nós já conhecemos o Brasil. Nós temos uma produção sobre o Brasil, e atenção: de pensadores marxistas e não marxistas. O que nos dá um estoque crítico para enfrentar a particularidade brasileira.

Eu não penso que os problemas da esquerda brasileira, hoje, estão num conhecimento deficitário da realidade brasileira. E da inserção do Brasil no mundo contemporâneo. Eu insisto, nós ainda não deciframos completamente esse enigma que é o Brasil. E aí a contribuição dos marxistas me parece importante, mas é preciso levar em conta que a constituição desse estoque de conhecimentos envolveu e envolve protagonistas, pesquisadores e estudiosos, que não são necessariamente marxistas e de esquerda. Mas a esquerda tem que se beneficiar e tem sido beneficiária disso. Eu não creio que as dificuldades da esquerda derivem da falta de um conhecimento substantivo da realidade brasileira. Eu penso que não tem sido possível conjugar esse conhecimento, sua implementação, no sentido de transformações revolucionárias e socialistas, da sociedade brasileira. Não tem sido possível articular isso com movimentos sociais de envergadura, e sobretudo organizações político-partidárias, significativas e expressivas, com ponderação forte na vida brasileira.

Cursos como o de especialização em Economia e Desenvolvimento Agrário, uma parceria entre a ENFF e uma universidade pública (Ufes), apontam para a a necessidade de os movimentos sociais ocuparem o espaço da universidade, ainda pouco acessível à maioria?

Vou me ater à universidade pública brasileira, cujo quadro é diferente da universidade privada. Acho que este tipo de experiência ainda é residual porque a nossa Universidade permanece excludente, apesar dos processos de massificação que tenham ocorrido dentro dela. Eu não diria democratização, mas massificação.

É um espaço com uma tara elitista, e isso é um viés negativo na nossa história acadêmica. A Universidade foi pensada para formar e servir as elites, mas numa sociedade de convivência democrática que temos hoje, do ponto de vista das liberdades políticas, a universidade também reflete as contradições que estão fora dela. Existe aí um enorme conservadorismo, mas há segmentos abertos a mudanças, progressistas, segmentos de esquerda. A universidade pública brasileira está cheia de problemas, mas ruim com ela, pior sem ela. Há que ter claro as limitações e as mazelas e defender o patrimônio que representa a universidade pública. Isso porque, se nesta universidade são residuais as experiências como esta, se nós abrirmos mão da defesa do caráter público, aí é que essas experiências não existirão.

Eu estou convencido que essa experiência do MST (na UFES), e de outros movimentos, não só aqui nessa universidade, mas em outros pontos, mostram que há audiência, ressonância e condições de se contribuir para romper essa tara elitista. O êxito dessas experiências pode reduzir resistências porque nem todas são de conservadorismo político, muitas das quais são corporativas. Alguns defendem que nesses programas não há excelência e qualidade. Se nós trabalharmos visando a excelência e a qualidade, vamos desarmar essas críticas e parte desses setores vão colaborar.

José Paulo Netto, UFRJ - Foto: Pedro Carrano

José Paulo Netto, UFRJ – Foto: Pedro Carrano

Como você analisa a realidade brasileira a partir de recentes movimentações de trabalhadores no campo econômico? Isso pode gerar condições para o debate da esquerda voltar a ganhar força?

Olha, eu sou otimista, mas como o meu velho mestre, Lukács, eu não sou otimista a curto prazo. Eu penso que os trabalhadores sofreram no mundo inteiro nos últimos 25 anos derrotas profundas que conduziram as classes trabalhadoras a uma posição defensiva, ou seja uma conjuntura – para usar uma linguagem cara ao professor Florestan – claramente contrarrevolucionária. Mas isso não apagou as lutas de classe. Tem gente que pensa que as lutas estavam velhas e voltaram com a crise do Euro. Eu não penso isso não, as lutas sociais prosseguiram, moleculares, nem sempre com visibilidade, mas os trabalhadores não foram conduzidos a essa condição bovinamente. Resistiram e não há dúvida de que no mundo essas lutas defensivas estão ganhando maior força e, no Brasil, também há uma reanimação do movimento dos trabalhadores. Se essas mobilizações não deixarem nenhum saldo organizativo, gerando novas direções de vanguardas, que se refletiriam em partidos e movimentos sociais, terão impacto, mas não será potencializado.

 Qual a importância da formação em um momento de descenso da luta de massas?

Acho que a coisa mais viva neste país se manifesta em duas dimensões, a primeira dimensão é a relação e a prática internacionalistas que eu vejo efetivamente no MST. A segunda, que para mim é da maior importância para a esquerda brasileira, se desenvolve em diferentes universidades, é a ênfase na formação política das novas gerações. (Colaboraram Alcione Nunes Farias, Adelson Lima, Sidevaldo Miranda Costa)

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Machismo, homofobia e violação – sexual ou não – dos direitos das crianças e adolescentes

Édipo criança, salvo pelo pastor - Museu do Louvre

Édipo criança, salvo pelo pastor – Museu do Louvre

Por Gustavo Barbosa, do Café Castanheira

Há aproximadamente seis anos, um discurso no mínimo pitoresco foi entoado da tribuna da Câmara Municipal de São Paulo. Seu autor, um antigo e bem sucedido cantor popular, conseguira se alçar ao exercício da vereança por meio dos tênues resquícios do sucesso de outrora somados a sua inusitada participação em um reality show transmitido nacionalmente e que acabou por retirá-lo das mais recônditas periferias do ostracismo.

O então ilustre vereador, de sotaque característico e extravagância nas entonações, destacou-se também por seus caricatos posicionamentos conservadores. No discurso cuja menção inicia o parágrafo, fez uma defesa enfática, machista e sem rodeios da nefasta prática da exploração sexual de crianças e adolescentes em nosso País, serviço cuja procura por estrangeiros costuma ser bastante intensa.

Afirmou o dileto ex-parlamentar (diferentemente das últimas eleições, não conseguiu se reeleger no pleito de 2012) que o visitante que vem ao país atrás de sexo não pode ser considerado criminoso: “ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz”, declarou. “O cara (turista) não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto.” Ainda, para o ex-edil da capital paulistana, há “demagogia” e “frescura” nos que divergem da sua tese.

Nesse contexto de reivindicação e luta contra os grilhões culturais e socioeconômicos que solapam um tratamento verdadeiramente digno, respeitoso e igualitário às mulheres do nosso País tanto por parte do Estado como da própria sociedade, creio que seja pertinente fazer a seguinte indagação: o que o machismo, a homofobia e a violação – sexual ou não – dos direitos das crianças e adolescentes têm em comum? Quase tudo.

Em uma sociedade machista, preconceituosa, classista, heteronormativa e adultocêntrica como a nossa, o contexto de violência contra mulheres, homossexuais e crianças costuma se entrelaçar de maneira bastante íntima, visto que brotam do mesmo bloco homogêneo de ideias e concepções caracterizadas, principalmente, pelo mais tacanho conservadorismo que ainda alça o sujeito branco, heterossexual e adulto ao status de super-cidadão, dotado de privilégios e direitos alijados de todos aqueles que divergem deste padrão.

O sujeito machista, cuja concepção de estrutura familiar ainda se funda na centralizadora e hierarquizada lógica patriarcal de irrestrita submissão da mulher ao homem, compartilha, em regra, da bolorenta opinião de que o conceito de família é e sempre será fundamentado no estanque modelo de homem, mulher e filhos, não havendo qualquer margem para a diversidade.

Acontece que, com a crescente complexidade das relações intersubjetivas e o reconhecimento da sociedade, enquanto plural e consequentemente submetida às constantes transformações dos conceitos e valores que a arraigam, o vínculo sanguíneo passou a ser secundário na caracterização da família. Esta hoje abarca um grande número de espécies que, por sua vez, independem de qualquer grau de parentesco.

Com efeito, a tônica caracterizadora de um núcleo familiar passa necessariamente pelas relações de afeto entre seus membros, elemento nuclear na definição da família, independentemente da existência de filhos, laços sanguíneos, orientação sexual bem como da existência de relações carnais entre seus membros.

O tradicional “chefe de família”, reproduzido na figura paterna que, de postura centralizadora e militaresca, provem sozinho o lar e disciplina a esposa dona-de-casa e os filhos mantendo-os em permanente estado de submissão, é figura que caminha fatalmente para a extinção. As famílias em geral estão, cada vez mais, abrindo mão desse modelo antiquado e hierarquizado de relações intrafamiliares, reconhecendo, além da sua falência, o afeto como único e indispensável atributo para a conceituação da família contemporânea.

Tais conquistas são uma clara consequência da crescente emancipação política, socioeconômica e sexual das mulheres, cientes da histórica opressão que lhes cai aos ombros e, ao mesmo tempo, da força transformadora que possuem enquanto coletividade. Está aí a bem sucedida iniciativa da Marcha das Vadias que, em nível internacional, questiona os paradigmas e convenções sociais que diariamente matam e oprimem mulheres de todo o planeta.

No que diz respeito à violência contra mulheres, esta nasce muitas vezes da relutante insistência dos seus companheiros em manter no seio familiar este anacrônico e ultrapassado modelo. Acossadas por uma cultura de vergonha, dependência e submissão, as vítimas tendem a não possuir estímulo e condições para denunciar e assim confrontar o contexto de violação no qual estão inseridas. Para o agressor, prenhe de arcaicas concepções que o fazem se arrogar na deplorável autoridade do chefe de família, a independência e a autonomia da mulher passa a ser confundida com insubordinação, e daí para as vias de fato é muito, muito pouco.

A incapacidade de compreender que o direito de formar núcleos familiares também se estende a homossexuais, por exemplo, parte do mesmo equivocado entendimento de que desde as primitivas comunidades pré-hominídeas a definição de família continua a mesma. E se o incômodo com a sexualidade alheia é uma marca da nossa sociedade, a formação de famílias homoafetivas ainda é vista, por muitos, como uma transgressão moral em grau máximo que deve ser combatida com discriminação, desrespeito e violência, seja física ou moral.

Se o elo entre machismo, feminicídio e homofobia é evidente, passando pela compreensão, dentre outras coisas, de que a família deve se reger pelos dogmas do feudal patriarcado heteronormativo, a ligação destes dois com a violação dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes é ainda mais intensa.

As agressões perpetradas contra mulheres e que costumam ocorrer no ambiente doméstico e familiar acabam por resvalar, física ou simbolicamente, nas crianças que estão sob a responsabilidade do casal, que passam a naturalizar esse contexto de agressões físicas, verbais ou psicológicas. No caso, as meninas, na condição de potenciais vítimas, oprimidas pelo ideário machista, que marca a pele de suas genitoras com sucessivos hematomas – isto quando não são as próprias crianças que são as vitimadas –, enquanto os meninos encarnam potenciais agressores e reprodutores do discurso misógino, moralista e patriarcal que alicerça toda sorte de agressões contra mulheres.

A agressão, seja física ou simbólica, passa assim a interferir no desenvolvimento personalidade daquelas crianças e adolescentes, ainda em formação biopsicológica, mesmo quando “apenas” presenciam a violência.

Ainda, a situação das crianças sob o ponto de vista da autodeterminação é mais delicada. Demais setores e segmentos da sociedade podem se aglutinar na luta política pelo reconhecimento e realização de direitos. Mas e as crianças e adolescentes? Possuem essa autonomia e capacidade de organização? Por óbvio não, o que as submete ainda mais às prevalentes e deformadoras concepções culturais adultocêntricas que, com requintes de um machismo sádico, deram ensejo a julgado do Superior Tribunal de Justiça que absolveu sujeito que manteve relações sexuais com garotas de 14 anos de idade, em situação de exploração sexual, por entender que as mesmas “sabiam o que estavam fazendo”.

Direitos, políticas públicas e ações afirmativas voltadas às crianças e adolescentes costumam ser marcadas tanto pelos mantras do adultocentrismo como pela cartilha da heteronormatividade, imperantes em uma sociedade que insiste em tratá-las como meros adultos-mirins enquanto frustra e impede o recorte de gênero como elemento do processo educacional de formação dos nossos jovens. Um verdadeiro favor à manutenção de uma miríade de dogmas sexistas formalmente sedimentados desde a mais tenra idade na cabeça das pessoas.

O tratamento por parte do Estado às crianças e adolescentes, assim, acaba por adotar essa perspectiva unilateral como regra, resgatando a ultrapassada e lamentável ideologia do – de triste memória – Código de Menores diretamente dos porões das quinquilharias legislativas que, em tempo, revogadas, possuem valor unicamente histórico. Revivendo os parâmetros menoristas de tratamento dispensado às crianças e adolescentes anteriores à vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente, acabam por regredi-los à antiga e lamentável condição de objetos, não de sujeitos de direito.

Em ritmo aquém do que gostaríamos, a cultura do desrespeito e da ignorância acima definida em algumas de suas inúmeras matizes vem sendo aos poucos desconstruída. E uma maneira de combatê-la é exatamente neutralizando os frágeis discursos que as sustentam, embebidos até o pescoço nas superficiais fontes do senso comum.

O despretensioso e muitas vezes jocoso discurso de ódio, trivial e corriqueiro, proferido nas reuniões de família, festas de aniversários e mesas de bar, é o que mais profusamente legitima as nefastas práticas neles consubstanciadas, mesmo que não seja esta a intenção direta. Confrontá-los com propriedade é dever de todos os comprometidos com a construção de uma sociedade em que a barbárie, a misoginia e o preconceito passem a ser a exceção, e não a regra.

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O mundo de Mário de Andrade

Telê, a principal responsável pelo acervo, fala sobre a obra do escritor - Foto: Daniel Garcia

Telê, a principal responsável pelo acervo, fala sobre a obra do escritor – Foto: Daniel Garcia

Talvez não exista algo similar no Brasil. O arquivo de Mário de Andrade no Instituto de Estudos Brasileiros, na Universidade de São Paulo, tem os manuscritos, as fotografias, as matérias de periódicos, os recortes, a correspondência, os quadros do escritor. Há também manuscritos de outros escritores. “Mário dialogava com os companheiros modernistas que mandavam a ele manuscritos de obras ainda a publicar”, conta Telê Ancona Lopez

Telê Porto Ancona Lopez, titular de Literatura Brasileira na FFLCH-USP, devotou sua vida à curadoria do Arquivo Mário de Andrade no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Coordenou o projeto temático Fapesp, Estudo do processo de criação de Mário de Andrade nos manuscritos de seu arquivo, em sua correspondência, em sua marginália e em suas leituras (2006-2011). Nesta entrevista à Walnice Nogueira Galvão, publicada originalmente na Teoria e Debate, a principal responsável pela manutenção do acervo de Mário de Andrade nos fala sobre o seu trabalho com a obra do escritor..

Conte para nós como você foi parar na pesquisa da marginália (anotações autógrafas na margem dos livros) dos livros de Mário de Andrade, e daí para essa maravilha que é o Fundo Mário de Andrade. Hoje, entre suas realizações contam-se inúmeros volumes publicados, teses defendidas sob sua orientação, equipes que se formaram sob sua coordenação, projetos para os quais você arranjou financiamento. Tudo isso começou antes ou depois do doutoramento?

Antes, em 1962. Antes mesmo do meu mestrado, em 1967; meu doutoramento é 1970. O trabalho com a marginália do Mário de Andrade começa em um curso de especialização dado por Antonio Candido, em 1962, na área de Teoria Literária e Literatura comparada da Faculdade de Filosofia, da Universidade de São Paulo, em 1970. Era a análise e a interpretação do poema “Louvação da tarde”, se prolongou naquele belíssimo ensaio “O poeta itinerante”. Ficamos um semestre trabalhando o poema; praticamente em tudo: estrofação, metrificação, sonoridade, imagens, metáforas e símbolos… Nesse curso, Antonio Candido contou pra gente que o acervo de Mário de Andrade permanecia intacto na casa da Rua Lopes Chaves, cuidado pela família, com perfeita responsabilidade: biblioteca, quadros, discos, manuscritos. E nos disse que, na biblioteca do Mário, havia marginália, e que ele a conhecia. Era talvez a marginália mais importante, mais rica, no Brasil. Eu, muito afoita, levantei a mão e propus: “Professor, vamos recolher essa marginália nas férias de janeiro!”. A verdade é que foram muitos janeiros, até 1968, quando demos por terminada a tarefa. Quero lembrar que as aulas de Antonio Candido eram às sextas-feiras, na sala 11, a maior sala, no prédio da Rua Maria Antônia, e que muita gente importante vinha assisti-las, discutir o texto. (Leia depoimento de Antonio Candido sobre a trajetória do acervo)

Paulo Emílio Salles Gomes e Lygia Fagundes Teles assistiam ao curso, você se lembra?

Claro! Vinha também o Maurice Capovilla. Falava-se também de cinema. E de política, naturalmente!

E também o secretário, José Bento?

Ele não. Em 1962, o José Bento vivia em Ribeirão Preto. Por coincidência, eram amigos do meu pai, lá. Zé Bento, quando se aposentou e voltou para São Paulo, passou a frequentar o Instituto de Estudos Brasileiros. Era um excelente amigo, sempre disposto a responder nossas questões. Sua correspondência com Mário de Andrade, que será publicada por Marcos Antonio de Moraes, oferece a minúcia do cotidiano, na casa do escritor.

E seu trabalho não acabou até hoje… Sei que o estudo da marginália você completou, li seu trabalho.

A reunião da marginália, sim. A reunião e o início do estudo dela foram trabalho de Maria Helena Grembecki, que era minha colega naquele curso de 1962; Nites Feres, que viera de Assis, já uma pesquisadora competente, e por mim, com Antonio Candido orientando as três.

Mas no levantamento da marginália do Mário eram só vocês três?

Nós três. Em 1968, a Vera Chalmers trabalhou nas férias do fim de ano, para nos auxiliar na finalização; conseguimos uma moedinha parca e ela ficou conosco dois meses.

Já era da Fapesp? A pesquisa da marginália foi financiada pela Fapesp, que acabara de ser criada?

Foi. Aliás, a remuneração da Vera Chalmers foi indiretamente da Fapesp; compartilhamos com ela nossas bolsas.

Parece que foi a primeira vez que saiu verba da Fapesp para literatura. Antes só saía para ciência. Antonio Candido propôs vocês três como bolsistas…

A primeira verba para literatura foi, de fato, a do professor José Aderaldo Castello, que viajou pelo Brasil recolhendo a produção das academias coloniais. Em 1963, Antonio Candido pediu verba à Fapesp para nosso projeto. Em 1964, estava tudo encaminhado, mas sobreveio o golpe militar e não saiu nada. Continuamos firmes, trabalhando por nossa conta. Dávamos aula para sobreviver e, no princípio, íamos à Rua Lopes Chaves duas, três vezes por semana. Depois, quando saíram as bolsas em 1965, íamos de segunda a sexta-feira. D. Lourdes, a irmã de Mário, o marido dela, Eduardo Ribeiro dos Santos Camargo e os três filhos nos recebiam com amizade e carinho; viramos gente da casa.

Quantos anos demorou esse trabalho?

Saímos da Lopes Chaves em agosto de 1968. Portanto, ficamos de 1963 a 1968. Me lembro do Antonio Candido chegando de boina, muito chique, no inverno. Eu levei minha máquina de escrever Olivetti portátil; usávamos também a Remington do Mário, por ele batizada Manuela, e a máquina do “seu” Eduardo.

Em 1967, o professor José Aderaldo Castello, da área de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, nos emprestou a máquina de fotografar/microfilmar por ele inventada para coligir documentos do movimento academicista, sua pesquisa de fôlego, que rendeu dezessete volumes publicados. Essa máquina era fantástica: sobre uma base quadrada, quatro hastes sustentavam quatro lâmpadas e o suporte de uma câmera Leica que usava filme de 12 ou de 24 poses. Era preciso recortar as beiradas com uma tesourinha para encaixá-lo na câmera. Nós nos sentíamos muito importantes, fechadas no estúdio de Mário de Andrade, fotografando no escuro. Essa máquina foi fundamental para concluirmos o nosso registro da marginália.

Vocês três microfilmaram toda a marginália?

Fazíamos a transcrição diplomática datilografando tudo o que o Mário escrevera nas margens, nas páginas de rosto ou páginas em branco dos livros e revistas, até a gente se convencer de que a marginália era mesmo um mundo. Então, o Castello nos socorreu com a sua máquina especial. Para o registro das obras e das notas marginais Antonio Candido estabeleceu duas fichas: a cor de laranja, que eu gostava de chamar de “terra de Siena”, para os dados bibliográficos, e a ficha branca, que repetia esses dados e captava as anotações marginais. Creio que o estudo da marginália foi mais uma frente pioneira de Antonio Candido, no Brasil. Perseverei nesse caminho, trabalhando a criação de Mário de Andrade na biblioteca por ele formada. Venho me ocupando das leituras como matrizes, em diálogos que se explicitam na marginália, ou não. Escrevo artigos, oriento teses e dissertações que exploram a marginália.

Depois que vocês terminaram esse trabalho de pesquisa em 1968, passaram a redigir os mestrados?

Em 1966, o Antonio Candido chegou da França e disse: “Todo mundo tem de fazer mestrado”. E nós não sabíamos muito bem o que era mestrado, mas fomos descobrindo… Então, fizemos os três mestrados, focalizando a marginália. Em 1967, foram o da Nites Feres e o meu; em 1968 o da Maria Helena Grembecki. O meu foi O se-sequestro da Dona Ausente: reconstrução de um estudo de Mário de Andrade a partir de sua marginália. Não se conhecia os manuscritos desse inédito que veio à tona durante a organização do arquivo, na década de 1970. Depois, entre 1998 e 2001, Ricardo Souza de Carvalho, meu orientando e bolsista da Fapesp, ancorado nos manuscritos, preparou a Edição genética de O sequestro de Dona Ausente de Mário de Andrade, uma excelente dissertação defendida na FFLCH. Trabalhou com a marginália e com o dossiê do manuscrito. O mestrado de Nites foi sobre as leituras em francês de Mário de Andrade, leituras formadoras do modernista; o de Maria Helena cuidou de Mário e a revista francesa L’ Esprit Nouveau. Entre 2005 em 2008, Lilian Escorel, minha orientanda e bolsista da Fapesp, mergulhou nesse tema em seu doutoramento, agora publicado, A revista L’Esprit Nouveau na formação das ideias estéticas e na poética de Mário de Andrade.

Então, defendidos os mestrados, o que aconteceu, qual foi a próxima etapa?

Foi a transferência do acervo de Mário para a USP, perspectiva para lá de lúcida traçada por Antonio Candido. Em 1968, ele e o professor Castello, então diretor do Instituto de Estudos Brasileiros propuseram ao governo do estado a compra do acervo para a Universidade de São Paulo. Para figurar no patrimônio do Instituto de Estudos Brasileiros. Vieram especialistas para a avaliação e eu secretariei o processo todo. Houve até a parte engraçada. Começaram a aparecer, na casa da Lopes Chaves, pessoas de terno e gravata, muito circunspectas. O secretário da Cultura, nos garantia que o Mário era tão importante quanto os jogos abertos do interior, ou o reflorestamento. E a gente firme ali. Porque o acervo tinha que ir para a universidade. Deu certo. A família recebeu um valor simbólico pelo que foi, de fato, negociado: a coleção de quadros e a biblioteca.

E a coleção de arte popular também.

Também, mas o arquivo foi doado.

Em cima disso tudo? Foi uma espécie de brinde.

Bem mais que isso. Uma oferenda que marcou a alta compreensão do valor e do destino desse arquivo, por parte da família Mário de Andrade.

Como você dimensiona isso? Em termos da variedade e quantidade, como é que fica o total?

O acervo de Mário de Andrade, um intelectual cultor da memória e documentalista de si próprio, constitui uma rede sem remate, na qual as informações se correlacionam. Equivale a uma profusa e fragmentada autobiografia, cuja montagem se multiplica nos enfoques que documentos de vários tipos e natureza proporcionam. Correspondência, manuscritos da criação nas áreas do polígrafo, manuscritos de outros escritores e de músicos, programas musicais, discos, fotografias, matéria extraída de periódicos, cardápios, papéis de teor  pessoal e burocrático, a biblioteca com mais 17 mil volumes e extensa marginália, a pintura, os desenhos e as gravuras, as peças de extração popular, enfim, um prodigioso número de registros guarda uma precisa cronologia que vai dos últimos anos século 19 até fevereiro de 1945, quando Mário de Andrade morre, as 51 anos.

Sou ruim de números, mas há no ABC do IEB, uma bela publicação organizada pela professora Anna Lanna, em 2010, o total dos documentos existentes no arquivo, na biblioteca e na coleção de artes visuais do Acervo Mário de Andrade. Fui curadora do arquivo até 2008 e coordenei a classificação das séries. Um banco de dados, preparado por Fred Camargo nestes três últimos anos, alarga o alcance dos documentos em todas as séries. Entre 2006 e 20011, o projeto temático Fapesp, sob minha responsabilidade, Estudo do processo de criação de Mário de Andrade nos manuscritos de seu arquivo, em sua correspondência, em sua marginália e em suas leituras, no qual tive, como coordenadores associados, os professores Marcos Antonio de Moraes e Flávia Toni, classificou um total de 130 títulos de manuscritos. O projeto visou um “catalogue raisonné”, exemplificado na nossa revista Marioscriptor. Os dois números dessa revista eletrônica do projeto temático estão no site do IEB-USP.

Não tem nada de similar no Brasil? Em porte?

Talvez não. O que existe neste arquivo, em termos de séries, é importantíssimo. Como eu disse, há os manuscritos, as fotografias, matérias de periódicos, os chamados recortes, uma riqueza inesgotável em termos de documentos e possibilidades de pesquisa, de exploração. Os manuscritos de Mário de Andrade não se restringem à série que os organiza fisicamente; estão também nos recortes de textos do escritor na imprensa, rasurados como exemplares de trabalho; estão na marginália, na qual se flagra poemas e artigos esboçados e se localiza a possível primeira versão fragmentada de Macunaíma. Estão ainda na especialíssima série Manuscritos de outros escritores, na qual, dialogando com poetas e prosadores nas margens dos textos enviados para sua leitura e análise, Mário aparece como coautor, em suas sugestões. “Aconselho-te a dormir sobre o livro – REFLEXÃO”, ele observou, por exemplo, na margem do manuscrito de Cocktails, do poeta Luís Aranha, em 1922, e, aliás, deixou um projeto para a capa do livro. Márcia Jaschke Machado, minha orientanda, preparou um bonito catálogo analítico, anotadíssimo, dos manuscritos brasileiros nessa série.

Até que ponto vai a organização do próprio Mário? Quando você fala em manuscritos de outros escritores, por exemplo, é uma organização sua ou de Mário?

É uma classificação que propus decalcada numa divisão original, considerando a particularidade do arquivo. A classificação que coordenei no IEB, apoiada na arquivística, partiu da análise do arquivo. Concretizamos essa organização, eu e os pesquisadores que comigo trabalharam na equipe Mário de Andrade do IEB. Mário de Andrade era organizado: os manuscritos de outros escritores, na casa dele, ficavam juntos em uma estante, no hall do andar superior. Não havia, contudo, uma listagem ou uma ordenação. A identificação vinha dos próprios autores, em autógrafo ou datilografia. Desenvolvi metodologia para classificar manuscritos, à luz da arquivística, da codicologia e da crítica genética, procurando compreender o processo criativo para ordenar os documentos nos dossiês. Esse é o aporte teórico novo que marcou a classificação dessa série e dos Manuscritos Mário de Andrade.

E ainda há a correspondência passiva, oito mil cartas que ele recebeu.

A correspondência existente no Arquivo Mário de Andrade foi integralmente processada; o catálogo eletrônico, concluído em 2003, com respaldo financeiro da Vitae, está em um CD-ROM e no site do IEB. As 8 mil cartas significam o conjunto: a correspondência passiva, a ativa, que reúne cartas não remetidas, cópias guardadas, bem como originais doados pelos destinatários ou suas famílias, e a correspondência de terceiros, preservada por Mário. O professor Marcos Antonio de Moraes vem trabalhando incansavelmente para obter a correspondência ativa completa de Mário e publicá-la, na ligação com a passiva. É um projeto vinculado ao CNPq.

Mas você não chegou a mencionar o que tinha no arquivo.

A correspondência estava em pastas lacradas; havia uma organização inicial, discutível, que não conservamos, mas registramos. Esse registro nos auxiliou, pois, no caso de carta sem data, contígua a outra, datada, podia-se inferir o ano, o mês etc. Outros conjuntos ou séries do arquivo estavam fisicamente separados, mas não havia um inventário, uma listagem, uma organização precisa.

Estavam em caixas ou em outro tipo de ordem?

O material do arquivo estava originalmente em envelopes e pastas de cartolina, muitas delas reaproveitadas, isto é, portando títulos sobrepostos a indicações riscadas. Mário não usava caixas. A mudança do acervo para o IEB foi feita em caixas que conseguimos no supermercado vizinho. Foram preenchidas mantendo a sequência original das obras na biblioteca. Não se seguiu regra para o transporte e nem havia recursos financeiros para isso. Nem se pensava em seguro, com avaliação dos bens a serem deslocados. Hoje, felizmente, há regras, rigor. Hoje, com o que se conhece e se obedece, nossa cabeça não nos permitiria fazer algo semelhante. A Nossa Senhora da Glória, da coleção de imagens religiosas do Mário, veio para a USP embrulhada em um cobertor, viajando no meu colo, no banco de trás do Morris do professor Castello. Tivemos muita sorte, nos nossos cuidados; nada se perdeu, nada foi danificado. Enfim, o acervo de Mário foi recebido com emoção, no IEB, bem me lembro. Dona Brasilina, funcionária da copa, creditou a sorte aos santos barrocos, pois temia Exu e Xangô que também vieram. Todo esse panteão sincrético está organizado seguindo as formas mais atuais de conservação e figura no catálogo preparado por Marta Rossetti Batista, um livro notável. No IEB, a biblioteca ficou inicialmente tempo na ordem original e as bibliotecárias apenas conferiam, ajustavam. Depois começaram a organizar.

Esse foi o seu primeiro projeto coletivo?

De certo modo sim, embora não se tivesse traçado um plano geral. Eu pedi que constasse, das fichas de catalogação, a participação das obras na marginalia e isso foi feito. A biblioteca foi organizada ao mesmo tempo que a coleção de artes visuais, esta sob a coordenação de Marta Rossetti Batista, e o arquivo, por mim com a colaboração da Equipe Mário de Andrade voltada para a formação de pesquisadores. Prestei concurso no IEB em agosto de 1968 e o primeiro trabalho foi recuperar, fichando e microfilmando, a produção de Mário de Andrade na coleção dele do Diário Nacional (1927-1932). Crítica de literatura, artes plásticas e música; crônicas, poesia e ficção. Ali descobri o cronista da coluna Táxi. Em 1972, ocorreu a primeira grande exploração do acervo de Mário, aliás de todo o acervo do IEB, para a exposição comemorativa dos 50 anos da Semana de Arte Moderna. Marta, Yone Soares de Lima e eu, com ajuda de José Miguel Wisnik e Carlos Augusto Calil fizemos a exposição Brasil: 1° Tempo modernista: 1917-1929. Os documentos que levantamos renderam-nos o volume de título homônimo, na elegante diagramação moderna criada pela Marta Rossetti Batista, em 1973. Fomos convidadas para a inauguração da mostra, em Paris, promoção do Itamarati. Recusamos o convite, nesse tempo da ditadora, e preparamos uma jovem escolhida fora da universidade. Desavisada, ela insistia em dizer CEdras, em vez de Cendrars.

O material de recortes era de autoria de Mário ou variava?

É todo um conjunto ou a série Matérias extraídas de periódicos que guarda uma parte da produção jornalística de Mário, contendo até rasuras a lápis e a tinta, uma parcela da crítica sobre ele e um grande número de textos de e sobre literatura brasileira, estrangeira; sobre folclore, geografia, história, música, artes visuais, tudo. Mário de Andrade era atualizadíssimo; recebia de amigos recortes de jornais e revistas da Europa e da América Latina.

E como foi o primeiro projeto coletivo que você montou? Contou com ajuda de Castello? Depois que você fez doutoramento começou a ter orientandos e a dirigir pesquisas dos outros, certo?

O professor Castello, que foi diretor do IEB durante  catorze anos, e eu conversávamos bem sobre os projetos que envolveram o arquivo e a biblioteca de Mário de Andrade. Depois do meu doutoramento, tendo me tornado também docente da área de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, em 1972, passei a conjugar minhas atividades lá com o meu trabalho no IEB. Para organizar o arquivo de Mário, montei projetos coletivos que se ligaram a bolsas e verbas da Fapesp e do CNPQ. Para o arquivo, inventei uma caixa de armazenar documentos, na qual a tampa superior, uma vez aberta, pode conter os fólios já consultados, impedindo a dispersão deles, na mesa. As primeiras caixas foram executadas por presidiários e era muito triste vê-las chegar, sob guarda armada. As atuais foram fabricadas, conforme o modelo, pela Adriana Belarmino, uma expert. São azul cobalto, coisa fina. Como orientadora, procurei duplicar, para o IEB, documentos que perfaziam o corpus de mestrados e doutoramentos fora dos estudos sobre Mário de Andrade.

E qual foi o primeiro?

Minha primeira mestranda, Yoshie Sakyiama Barreirinhas, que reuniu o jornalismo de Menotti Del Picchia vinculado à propaganda do modernismo de 1920-1922, organizou paralelamente, para o Setor de Arquivos do IEB, fac-similes dos textos que levantou. De sua dissertação, O Gedeão do Modernismo: Menotti del Picchia no Correio Paulistano: 1920-1922, tirou ainda a coletânea de título homônimo, publicada pela Civilização Brasileira, em 1982. Nesses dois últimos anos, o elenco dos textos embasou o projeto de pós-doutoramento de Ana Paola de Andrade, que supervisionei. Anna Paola, bolsista da Fapesp, estudou particularmente os reflexos do futurismo na propaganda modernista em Menotti. Fez um livro e palestras na Universidade de Roma e na de Milão, em 2012. Minha primeira doutoranda e também minha primeira bolsista da Fapesp, foi Carmem Lydia Souza Dias. Para sua tese, Paixão de Raiz: o Regionalismo de Valdomiro Silveira, defendida em 1989, conseguimos, emprestados gentilmente pela família, os manuscritos, as primeiras edições de obras e os textos na imprensa. Carmen Lydia, ao lado do ensaio que escreveu, realizou a transcrição de contos inéditos, que depositou no IEB.

Quanto à exploração do acervo de Mário, em 1980, houve o mestrado de Neusa Quirino Simões, uma freirinha muito simpática que auxiliava D. Paulo Evaristo Arns. Seu título é Estudando a Marginália: Mário de Andrade e a Ficção Brasileira. Antes disso, numa espécie de aquecimento ou iniciação à pesquisa, ela coligiu as dedicatórias a Mário de Andrade de poetas e ficcionistas brasileiros, em obras na biblioteca dele. Esse trabalho foi parcialmente revisto, no final da década de 1990, por Marjorie Hummel e agora, neste ano, Leandro Raniero Fernandes, pesquisador da nossa equipe, finalizou a revisão, fez cópias fac-similadas de tudo e está concluindo um belo livro. As dedicatórias que, nas bibliotecas dos escritores marcam fortemente a vida literária, no caso de Mário, põem em cena, especialmente, seu ofício de crítico em jornais e revistas, os diálogos com seus pares poetas e prosadores e a atuação do mentor dos moços. Mostram também presentes como este importantíssimo presente de aniversário, recebido pelo escritor em 9 de outubro de 1925, das mãos de Luís Aranha, amigo no grupo modernista de São Paulo. É um exemplar da edição de 1914 de Rã-txa-hu-ni-ku-i: Gramática, textos e vocabulário caxinauás, obra magna de Capistrano de Abreu. Na dedicatória, que simplesmente reitera a amizade, eu encontro a presença indelével de Paulo Prado, discípulo de Capistrano, alimentando o interesse etnográfico daquele buscava um sentido nacional para nossa literatura e que logo estaria esboçando seu Macunaíma nas margens do lendário indígena recolhido pelo etnólogo Koch-Gruenberg. Analisei o valor dessa dedicatória em uma disciplina de pós-graduação sobre os vestígios da criação de Macunaíma, na biblioteca de Mário de Andrade.

Quais os projetos mais importantes que você coordenou? E as teses, os livros que saíram desse trabalho?

Quando a gente está orientando, todos os projetos são muito importantes… entusiasmantes! E, na minha caminhada de orientadora e supervisora, tenho contado, a maioria das vezes, com o apoio da Fapesp, do CNPq e da Capes.

Os trabalhos relativos a Mário deixam-me acrescentada. Acompanhei o mestrado de Raúl Antelo, hoje um crítico renomado. Sua dissertação mestrado, Na Ilha de Marapatá: Mário de Andrade Lê os Hispano-Americanos, está publicado. Estive ao lado de Marcos Antonio de Moraes, na pesquisa para sua dissertação, Diálogo Epistolar Mário de Andrade/Manuel Bandeira, ganhador do Prêmio Jabuti e primeiro degrau na trajetória deste grande especialista nos estudos sobre o gênero epistolar. Com Angela Teodoro Grillo surpreendi-me com o estudo inédito sobre o negro, no âmbito da literatura oral, objeto de seu mestrado; empolguei-me com o mestrado de Raimunda de Brito Batista, que editou a Vida do Cantador, outro inédito, e o de Márcia Jaschke Machado sobre os manuscritos de outros escritores, de que já falamos. E com os doutoramentos de Lilian Escorel sobre a leitura impregnante da revista L’ Esprit Nouveau, ao qual já me referi, e o de Tatiana Longo Figueiredo, Café: o trajeto da criação de um romance inacabado de Mário de Andrade, tese que desenvolveu a reflexão teórica a respeito da natureza de um texto nessas condições e a análise do manuscrito. O de Rosângela Asche de Paula, O Expressionismo na Biblioteca de Mário de Andrade: da leitura à criação, gratifica-me particularmente: concretizou um sonho meu.

Foram-me instigantes os doutoramentos de Raúl Antelo, Modernismo em Revista, e de Roselis Oliveira de Napoli, 1922-1972: A Semana Permanece; os de Rosse Marye Bernardi, Dalton Trevisan: a trajetória de um escritor que se revê, e de Rita de Cássia Barbosa, O Cotidiano e as Máscaras: a crônica de Carlos Drummond de Andrade. Igualmente as teses de Édison José da Costa, Quarup: Tronco e Narrativa, que mereceu a atenção de Antonio Callado, durante a pesquisa; a de Marta Moraes da Costa, Teatro em Papel Jornal, centrada no Paraná. E devo citar os mestrados de Roberta Sampaio, Edição Fac-similar Anotada e Estudo dos Arquivos Implacáveis de João Condé, e o de Ana Cândida Franceschini, Artistas Gráficos no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo: 1956-1967, que também materializaram sonhos meus.

Como supervisora de pós-doutoramentos, dialogo atualmente com Francisco José Lima Rocha, em sua edição de um romance inacabado de Osman Lins, A Cabeça Levada em Triunfo; com Tatiana Longo Figueiredo, em seu mergulho em Mário de Andrade, leitor e crítico, parcela do Fichário analítico, manuscrito estreitamente ligado à marginália. E acabo de assistir a nova edição de O Banquete, obra de Mário da maior importância. Lilian Escorel a preparou.

Mas é outra edição, fora aquela de Jorge Coli e Luiz Dantas?

Esta é bem completa. O livro, que sairá pela Nova Fronteira, contará também com um ensaio do Jorge Coli, convidado. Quando ele e Luiz Dantas fizeram a primeira edição, em 1979, não se conhecia o manuscrito integral de O Banquete.

Esse livro feito sob sua orientação é o Música Final, do Jorge?

Jorge Coli é um amigo fraterno; compartilhamos nossas interrogações e descobertas. Música Final foi a tese de doutoramento dele, orientada pela professora Gilda de Mello e Souza, a grande mestra nos estudos sobre Mário de Andrade.

Tem, por exemplo, o mestrado livro Vida do Cantador, de Raimunda de Brito Batista. E o mestrado, sob sua orientação com o material do arquivo, do que consta?

O mestrado de Raimunda foi a edição da Vida do Cantador, precedida de um pequeno estudo trabalhando o gênero. Pedi que ela investigasse aquela questão das lições, que é matéria da Igreja Católica. ligada à hagiografia. E o Mário constituiu o santo dele, um ser de exceção – seu personagem Chico Antônio.

Para Vida do Cantador tinha o quê? Fichas, recortes?

Não havia fichas. O manuscrito é o que classificamos como exemplar de trabalho. Neste caso, é o texto resultante da junção do texto impresso, recortado da Folha da Manhã, com as rasuras apostas pelo escritor.

Você aumentou em muito a obra completa de Mário de Andrade. Quais foram os livros que você acrescentou à obra, entre os seus e os de seus orientandos? Os que ele tinha em recortes, manuscritos, fichas etc., e acabaram por virar livro?

Fizemos vários títulos, meus orientandos e eu. Lembro o romance inédito Quatro Pessoas, na edição preparada por Maria Zélia Galvão de Almeida, e a edição que fiz de Balança, Trombeta e Battleship, uma novelinha que o Mário começou a escrever na Amazônia, em 1927. Saiu pelo Instituto Moreira Salles, em 1993, no centenário, e agora, no projeto De mão em mão, conduzido por Carlos Augusto Calil, na Secretaria Municipal de Cultura. Também editei O Turista Aprendiz, e cuidei de três edições críticas do Macunaíma. Em 2007 fiquei encarregada da coordenação das edições de texto fiel de obras de Mário de Andrade, no protocolo que une as editoras Agir/Nova Fronteira e o IEB-USP. Os textos são estabelecidos com base nos manuscritos e edições em vida; trazem uma apresentação, estudo crítico e dossiê de documentos concernentes à criação. Preparadores e críticos são convidados e, a cada título, documentos do arquivo de Mário são reproduzidos em fac-símile. Até agora saíram: Macunaíma, Amar, Verbo Intransitivo, Os Contos de Belazarte, Obra Imatura e Padre Jesuíno do Monte Carmelo. Foi entregue à editora e está nas últimas provas, Poesias Completas, trabalho de Tatiana Longo Figueiredo e meu que oferece as obras publicadas, assim como poemas dispersos e inéditos.

O que há sobre o Macunaíma nesse arquivo? O que tem do processo de criação propriamente dito?

No acervo, de fato. O processo criativo de Macunaíma começa, pelo que hoje se conhece, no esboço de capítulos que o lápis de Mário de Andrade depôs nas margens do segundo volume de Vom Roroima zum Orinoco, consagrado à reunião dos mitos e lendas dos índios daquela região, que é Brasil e Venezuela. Esse volume foi editado na Alemanha, em 1924 e chegou à biblioteca de Mário no ano seguinte ou em 1926. Nessa primeira versão fragmentada do romance, na marginália, percebe-se que o escritor leitor frequentava também Barbosa Rodrigues e outros estudiosos.

Em seguida, vem o que chamei “relíquias do texto”, na minha edição-crítica de 1978, no cinquentenário da obra. São as folhas em autógrafo a lápis preto, remanescentes daquelas versões concretizadas nas férias na “chacra” de um primo, em Araraquara. Mostram o princípio do capítulo 1 na versão feita em “seis dias ininterruptos de rede, cigarros e cigarras”, de 16 a 23 de dezembro de 1926, e na versão subsequente, finalizada no Ano Novo. Juntam-se a dois índices e a dois prefácios, acompanhados de notas para eles. Esse manuscrito representa uma seleção montada possivelmente em 1937, quando sai a segunda edição de Macunaíma, pela Livraria José Olympio. A primeira fora em 1928. Mário, que costumava destruir os originais dos livros seus que via publicados, separou essas páginas para presentear seu amigo Luiz Saia, companheiro de trabalho no Departamento de Cultura. Saia tornou o IEB herdeiro do presente que recebeu. O arquiteto José Saia trouxe os documentos, após a morte do pai.

Pois bem: do processo de criação restaram também, no arquivo, notas de trabalho referentes a termos da flora, da fauna, da topografia do Brasil todo; poucas notas que sobreviveram, a maioria com a indicação “usado”. Na apropriação plasmada na rapsódia que subverteu os padrões do gênero romance, as notas devem ter sido uma infinidade. Talvez houvesse também esboços de capítulos, ao lado delas, quando Mário se pôs a escrever, em Araraquara. Na “Carta pras icamiabas”, capítulo 9 do livro, ele deixa uma pista sobre o início do trabalho, após a leitura do lendário, que tanto o impressionara, conforme se vê em sua correspondência com Drummond, Bandeira e Alceu Amoroso Lima. A pista é a data da “Carta pras icamiabas”: 30 de maio de 1926.

Em 1927 e 1928, Macunaíma teve outras versões, até entrar no prelo de Eugenio Cupolo para a primeira edição que chegou às livrarias no inverno de 1928. Nenhuma foi conservada. Mas, nos arquivos criação, isto é, em documentos fora do manuscrito no dossiê específico, além das declarações em diversas cartas aos amigos, há parcelas que demarcam na viagem de Mário de Andrade à Amazônia, como Turista Aprendiz, entre maio e o princípio de agosto, em 1927, o trabalho em Macunaíma. No verso de um desenho, feito em Marajó, estão termos e situações recolhidos para “Mac” e que foram realmente aproveitados ali. Em O Turista Aprendiz, o diário da viagem que ficou inédito, testemunha-se, com frequência, o entrelaçamento do texto com o da rapsódia, com o romance em elaboração. Nesse diário sobressai o deslumbramento do viajante diante da constelação da Ursa Maior, guia de navegantes, brilhando no céu da Amazônia, terra de Macunaíma que Mário de Andrade elegerá como sede do ócio criador, da preguiça elevada. Essa descoberta muda o desfecho previsto no primeiro traçar dos índices. “Ursa Maior” substitui “Torre Eiffel”, título que me leva a duas hipóteses sobre um capítulo sem texto: o grande final, em Paris ou, uma festa de intensas cores, bem filha de Vei, a Sol, como o Carnaval em Madureira de Tarsila do Amaral. Onde se fixaria também uma enorme réplica da Torre Eiffel, como aquela de precária construção no subúrbio carioca, que domina essa tela pintada em 1924.

Mas, chega de viajar… No arquivo de Mário há ainda os exemplares de trabalho das três edições em vida, de 1928, 1937 e 1944. As rasuras a tinta, no texto da primeira edição, tanto corrigem gralhas, como instituem uma nova versão, obedecida em quase tudo pela de 1937, que deu base à última. Nesse exemplar, o escritor apenas declara, na capa, que desejava rever o texto para novas edições. Faleceu antes, em 25 de fevereiro de 1945. Realizei três edições críticas de Macunaíma e, em 2007, preparei com Tatiana Longo Figueiredo uma edição de texto apurado, acrescida de dossiê de documentos ligados à criação. Temos pronta mais uma, esta com exemplos da crítica quando das edições em vida, e na atualidade.

O manuscrito de Macunaíma foi classificado no projeto temático e teve seu percurso genético exposto no Catálogo analítico dos manuscritos literários de Mário de Andrade, que foi o mestrado de Aline Nogueira Marques, orientado pelo professor Marcos Antonio de Moraes em 2010. Fui co-orientadora desse projeto e orientei o doutoramento de José de Paula Ramos Júnior, que é a análise e a interpretação da crítica sobre Macunaíma, no ano da primeira publicação, agora um belíssimo livro que muito me honra na dedicatória. De Paula recorreu as textos reunidos professora Dilea Zanotto Manfio, da Unesp de Assis, uma pesquisa fantástica que contempla a crítica de Mário polígrafo.

E esse projeto temático Fapesp, levou quanto tempo?

De 2006 a 2011. Seus resultados foram compensadores, bons pra valer! Classificou a tese Manuscritos Mário de Andrade, formou pesquisadores no âmbito da iniciação científica, do mestrado e do doutoramento; acolheu projetos de pós-doutoramento; teve tese publicada e obras de Mário de Andrade, a revista Marioscriptor, disciplinas de pós-graduação sob a responsabilidade do professor Marcos e sob a minha. Foi reportado em palestras e comunicações em reuniões científicas, no Brasil e no exterior. Dialogou com o Institut des Textes et Manuscrits Modernes, no CNRS de Paris (Item), especialmente com a professora Almuth Grésillon.

Você poderia dizer algo sobre o projeto da Correspondência?

A organização da Correspondência de Mário de Andrade estende-se de 1989 a 2003 em vários projetos, financiados pela Fapesp, pela Vitae e pelo próprio IEB. Muitos estagiários deles participaram. Nosso trabalho dialogou com o Item. A organização antecede a abertura da parcela lacrada por 50 anos, devido à disposição testamentária do escritor. Começamos em 1989 a classificar o que não estava interdito. Nesse ano, estava, entre os pesquisadores estagiários, Marcos Antonio de Moraes, meu ex-aluno nas Letras. Para comemorar os 100 anos de Mário, em 1992, Marcos fez seu primeiro livro, dedicado a textos e imagens de postais na correspondência passiva, e a reflexões sobre correspondências. Esse foi o primeiro passo de quem hoje é um especialista em epistolografia e coordena sua própria equipe.

Sua maior descoberta, nesse campo. O Marcos aproveitou o trabalho dele e editou a Correspondência: Mário de Andrade & Manuel Bandeira; dos dois lados.

Fui a orientadora do Marcos nesse mestrado, na verdade um trabalho fraterno. Sua dissertação tornou-se o primeiro livro na Coleção Correspondência de Mário de Andrade, projeto de edições anotadas do IEB com a Edusp, traçado por nós dois. O livro de Marcos ganhou o Prêmio Jabuti. Continuamos cuidando dessa coleção que acaba de mostrar o diálogo epistolar Mário de Andrade & Sérgio Buarque de Holanda, uma edição primorosa, da lavra de Pedro Meira Monteiro. E apresentou a interlocução importante do escritor paulistano com a pintora Tarsila do Amaral, e com a poeta Henriqueta Lisboa, organizadas por Aracy Amaral e Eneida Maria de Souza, respectivamente. A Coleção espera publicar, em 2013, a correspondência com os escritores e artistas plásticos argentinos, com, Luís Camillo de Oliveira Netto, Murilo Miranda, Prudente de Moraes, neto, Anita Malfatti e Ribeiro Couto. Mário & Sérgio Milliet está em andamento. Todos os livros passam pelo confronto dos originais, entregues pelos preparadores, com os manuscritos, na revisão especializada feita por Tatiana Longo Figueiredo.

Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH-USP

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