Bodarrada

Bodarrada é o nome popular do poema “Quem sou eu?”, escrito por Luís Gama e editado em 1859. “Bode” é o apelido com que tentavam ridicularizar aqueles que, assim como o seu autor, eram negros.

Um amigo deste blog enviou há tempos o poema. Resolvi esperar a melhor ocasião para publicá-lo. E escolhi o dia como quem determina um assunto de caso pensado. Boa leitura.


QUEM SOU EU?

Quem sou eu? Que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
esta palavra “Ninguém!”
A. E. Zaluar – “Dores e Flores”

Amo o pobre, deixo o rico,

Vivo como o Tico-tico;

Não me envolvo em torvelinho,

Vivo só no meu cantinho;

Da grandeza sempre longe

Como vive o pobre monge.

Tenho mui poucos amigos,

Porém bons, que são antigos,

Fujo sempre à hipocrisia,

À sandice, à fidalguia;

Das manadas de Barões?

Anjo Bento, antes trovões.

Faço versos, não sou vate,

Digo muito disparate,

Mas só rendo obediência

À virtude, à inteligência:

Eis aqui o Getulino

Que no pletro anda mofino.

Sei que é louco e que é pateta

Quem se mete a ser poeta;

Que no século das luzes,

Os birbantes mais lapuzes,

Compram negros e comendas,

Têm brasões, não – das Kalendas;

E com tretas e com furtos

Vão subindo a passos curtos;

Fazem grossa pepineira,

Só pela arte do Vieira,

E com jeito e proteções.

Galgam altas posições!

Mas eu sempre vigiando

Nessa súcia vou malhando

De tratante, bem ou mal,

Com semblante festival

Dou de rijo no pedante

De pílulas fabricante

Que blasona arte divina

Com sulfatos de quinina

Trabusanas, xaropadas,

E mil outras patacoadas.

Que, sem pingo de rubor

Diz a todos que é DOUTOR!

Não tolero o magistrado,

Que do brio descuidado,

Vende a lei, trai a justiça

– Faz a todos injustiça –

Com rigor deprime o pobre

Presta abrigo ao rico, ao nobre,

E só acha horrendo crime

No mendigo, que deprime.

– neste dou com dupla força,

Té que a manha perca ou torça.

Fujo às léguas do lojista,

Do beato e do sacrista –

Crocodilos disfarçados,

Que se fazem muito honrados

Mas que, tendo ocasião,

São mais feros que o Leão

Fujo ao cego lisonjeiro,

Que, qual ramo de salgueiro,

Maleável, sem firmeza

Vive à lei da natureza

Que, conforme sopra o vento,

Dá mil voltas, num momento

O que sou, e como penso,

Aqui vai com todo o senso,

Posto que já veja irados

Muitos lorpas enfurnados

Vomitando maldições,

Contra as minhas reflexões.

Eu bem sei que sou qual Grilo,

De maçante e mau estilo;

E que os homens poderosos

Desta arenga receosos

Hão de chamar-me Tarelo

Bode, negro, Mongibelo;

Porém eu que não me abalo

Vou tangendo o meu badalo

Com repique impertinente,

Pondo a trote muita gente.

Se negro sou, ou sou bode

Pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda casta

Pois que a espécie é muito vasta…

Há cinzentos, há rajados,

Baios, pampas e malhados,

Bodes negros, bodes brancos,

E, sejamos todos francos,

Uns plebeus e outros nobres.

Bodes ricos, bodes pobres,

Bodes sábios importantes,

E também alguns tratantes…

Aqui, nesta boa terra,

Marram todos, tudo berra;

Nobres, Condes e Duquesas,

Ricas Damas e Marquesas

Deputados, senadores,

Gentis-homens, vereadores;

Belas damas emproadas

De nobreza empantufadas;

Repimpados principotes,

Orgulhosos fidalgotes,

Frades, Bispos, Cardeais,

Fanfarrões imperiais,

Gentes pobres, nobres gentes

Em todos há meus parentes.

Entre a brava militança

Fulge e brilha alta bodança;

Guardas, Cabos, Furriéis

Brigadeiros, Coronéis

Destemidos Marechais,

Rutilantes Generais,

Capitães de mar-e-guerra

– Tudo marra, tudo berra –

Na suprema eternidade,

Onde habita a Divindade,

Bodes há santificados,

Que por nós são adorados.

Entre o coro dos Anjinhos

Também há muitos bodinhos.

O amante de Syringa

Tinha pêlo e má catinga;

O deus Mendes, pelas costas,

Na cabeça tinha pontas;

Jove, quando foi menino,

Chupitou leite caprino;

E segundo o antigo mito

Também Fauno foi cabrito.

Nos domínios de Plutão,

Guarda um bode o Alcorão;

Nos lundus e nas modinhas

São cantadas as bodinhas:

Pois se todos têm rabicho,

Para que tanto capricho?

Haja paz, haja alegria,

Folgue e brinque a bodaria;

Cesse pois a matinada,

Porque tudo é bodarrada!

Algumas expressões:
Torvelinho – Corrupção;
Pepineira – Roubo do dinheiro público;
Arte do Vieira – Enganar;
Blasonar – Mentir;
Feros – Ferozes;
Lorpas enfurnados – Vacilões;
Jove – Júpiter; e por aí vai…
_

Veja também no Caderno ENSAiOS:

“Nenhum país passa por mais de 300 aos de escravidão impunemente” / Entrevista com Eduardo de Assis Duarte

Heitor dos Prazeres

A “zona cinza” do conservadorismo

Antônio Vieira e o doce inferno dos negros

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s