“Nenhum país passa por mais de 300 anos de escravidão impunemente” / Entrevista com Eduardo de Assis Duarte

Por Fábio Prikladnicki, no Zero Hora

Duarte é um dos organizadores da antologia ‘Literatura e Afrodescendência no Brasil’

Professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Eduardo de Assis Duarte é organizador, ao lado de Maria Nazareth Soares Fonseca, de Literatura e Afrodescendência no Brasil (Editora UFMG), antologia em quatro volumes de autores negros brasileiros, finalista do Prêmio Jabuti 2012 de crítica e teoria literária. A obra foi lançada em 2011, teve sua tiragem esgotada e voltará às livrarias em 2013. Duarte abre, nesta segunda-feira (8/10), o 5º Colóquio Internacional Sul de Literatura Comparada, realizado na UFRGS. Ele conversou com a reportagem por telefone, de Minas Gerais.

Zero Hora — Em que contexto surgiu, no país, a pesquisa sobre a literatura de autores negros?
Eduardo de Assis Duarte — Iniciamos nossa pesquisa em 2001 e só conseguimos publicá-la em 2011. No entanto, houve iniciativas anteriores, na década de 1990 e até na de 80. A partir dos anos 1980, a literatura brasileira busca outros rumos, e a crítica apenas acompanha. Houve, nos últimos 30 anos, uma diversidade de projetos na produção brasileira que aponta para o esgotamento do projeto modernista de 1922 e que persistiu no chamado alto modernismo, do qual são exemplos a poesia de João Cabral, a ficção da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa. Hoje, não temos a ideia de uma cara única para a literatura brasileira, como tivemos em boa parte do século 20. O que se nota na contemporaneidade é a preocupação com um vetor, digamos, comunitário, e não mais nacional. São vários segmentos, muitos deles alijados do poder cultural, que buscam formas de expressão. Temos a escrita das mulheres, a escrita afro, a produção cultural do segmento homoafetivo. São projetos pós-nacionais, para além do critério de nação.

ZH — Os pesquisadores brasileiros demoraram para se debruçar sobre a literatura de autoria de negros?
Duarte — Sim. Há uma questão cultural que remonta a séculos anteriores. Nenhum país passa por mais de 300 anos de escravidão impunemente. Essas cicatrizes ficam, tanto do lado das vítimas quanto do outro lado. Até hoje, dentro da academia, muitos colegas acham que só existe uma literatura: é a literatura brasileira e ponto final. Se é de autoria afro ou feminina, não tem importância para eles. A questão ainda é muito polêmica. O viés da literatura afro não apenas demorou para começar no Brasil, em relação a outros países, como ainda não é consensual. Costumo dizer que a literatura afro-brasileira é um conceito em construção.

ZH — Como está organizada a antologia?
Duarte — É um trabalho coletivo. Mapeamos o Brasil todo, região por região, estabelecendo parcerias com colaboradores locais. Participaram 61 pesquisadores de 21 universidade brasileiras e sete estrangeiras. Trata-se de uma antologia crítica. Claro que toda antologia é critica, porque você faz uma seleta de autores, mas essa é ainda um pouco mais crítica. Tome como exemplo o poeta gaúcho Oliveira Silveira. Há um artigo, assinado pela professora Zilá Bernd, que fornece informações biográficas; depois, vem uma apresentação da obra dele, a relação de todos os livros que publicou, uma lista de todas as fontes de consulta existentes sobre esse escritor, para que o estudante possa aprofundar sua pesquisa, e apenas ao final surgem os textos de autoria do Oliveira Silveira. Cada escritor é contemplado com esse conjunto de informações antes de o leitor ter acesso aos poemas, contos ou trechos de romances.

ZH — Entre os cem escritores que aparecem no livro, quais são os mais surpreendentes?
Duarte 
— Há um escritor do Maranhão, Nascimento Moraes, que tem um romance publicado em 1915, chamado Vencidos e Degenerados. Destoa completamente de tudo que se falaria, no século 20, sobre a escravidão. É um retrato cru e realista. O livro começa no dia 13 de maio de 1888. Mostra cenas do passado escravocrata e do período após a abolição, como a escravidão tenta sobreviver sob a forma de racismo, baixos salários, ausência do negro nas instituições de ensino. A impressão que se tem é que Gilberto Freyre, quando escreveu Casa-Grande & Senzala, em 1933, quis responder ao romance do Nascimento Moraes. Gilberto Freyre coloca uma escravidão quase sem atritos, não fala das revoltas quilombolas.

ZH  Outros exemplos?
Duarte 
— Outra descoberta interessante foi o poeta baiano Aloisio Resende, que pouquíssimos conhecem. Sempre ficou restrito ao local onde vivia, Feira de Santana, nos anos 1930. Naquele momento, Jorge de Lima fazia (o poema) Essa Negra Fulô, uma mulher sem-vergonha, repetindo os chavões do tempo da escravidão. Pela primeira vez no século 20, tivemos um poeta, como Aloisio Resende, colocando a mulher negra em um papel de absoluto respeito, inclusive falando das mães de santo.

ZH  Que novas abordagens a pesquisa proporcionou sobre autores consagrados?
Duarte 
— Ao mesmo tempo em que foram canonizados, estes autores foram embranquecidos. O cânone insiste em dizer que Machado de Assis não falou da questão do negro. Falou, sim. Era sócio de um jornal abolicionista, a Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro. Usou 23 pseudônimos para atacar a escravidão na imprensa. Em sua obra de ficção, não há qualquer linha que fale de raça superior ou inferior. Tive a oportunidade de preparar, em 2007, uma antologia só de textos dele sobre o tema (Machado de Assis Afrodescendente). Deu 300 páginas, para se ter uma ideia. O caso de Cruz e Sousa é outro desvio horrível. Em geral se lê apenas seus dois primeiros livros, Missal e Broquéis. As obras mais estudadas desses autores são justamente aquelas em que a questão do negro não tem tanto destaque.

ZH  Qual sua posição no que diz respeito à polêmica sobre Monteiro Lobato?
Duarte 
— Esse assunto está sendo explorado politicamente. Em 2010, às vésperas da eleição presidencial, várias pessoas, intelectuais, apoiadores do candidato que perdeu foram para a imprensa esbravejar que alguns queriam censurar Monteiro Lobato. Agora, próximo das eleições municipais, o assunto volta à baila. Não tenho a menor dúvida de que a obra de Monteiro Lobato possui conteúdos racistas. Ele era racista. Esse é um ponto. Além disso, era um grande escritor. Então, estamos diante de um paradoxo. Não acho que seja motivo para censura. O problema de Lobato é um pouco mais sério porque ele está voltado para as crianças. A solução que eu daria é: tem que ler em sala de aula, sim, e fazer uma discussão.

ZH  O preconceito de Monteiro Lobato era produto de seu tempo?
Duarte 
— Isso é uma tentativa de amenizar a questão. Todo pensamento é produto do seu tempo, mas isso não elimina o problema. O texto continua existindo com conteúdos racistas. Dizer que o racismo era moda, na época, é tentar justificar atitudes semelhantes nos dias de hoje. Não era unânime; dizia respeito a um segmento da população, que inclusive se posicionou a favor da Alemanha durante a Guerra. Alguns dizem que era normal, na época, chamar uma personagem de “macaca de carvão”. Não sei se era tão normal. Vejo isso apenas nos livros do Lobato. Não vejo nos livros de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade.

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