A peste e a retórica do silêncio

O Triunfo da Morte, de Bruegel

Por Theotonio de Paiva

Boccaccio, em passagem famosa, descreve pormenorizadamente os horrores da peste negra numa Europa medieval, como se aquela fosse atirada aos homens por uma cólera divina. Os cadáveres empilhados nas ruas atemorizavam ainda mais a população pelo risco do contágio. Num mesmo féretro, um caixão atravessa a cidade de Florença com sete ou oito corpos: à frente, sacerdotes ignoravam a heresia. Animais, ao se aproximarem das vestes rotas deixadas nas ruas, perderiam suas vidas ao cabo de uma hora.

Os primeiros vestígios da terra arrasada, a partir de 1348, em razão da peste negra, intimidariam, não apenas pelo sofrimento inexorável, pela violência de tanta miséria, mas, sobretudo, pela aflição decorrente de uma situação exercida por uma espécie de mão invisível, sem alarde, em seu odor nauseabundo junto aos mortos.

Ora, constatado o infortúnio e não havendo a possibilidade de dirimir o fausto, as superações encontradas, ainda segundo o escritor, se rivalizariam. Então, iremos nos deparar com modos bem distintos de encarar o fato. E eles se alternarão, dependendo das posses e dos desejos, em soluções que vão desde a fuga desabalada daquela realidade insuportável, motivação dramática para a construção de sua obra, Decameron, até os casos inconfessos daqueles que irão tratar de si através do funesto alheio. Desvie o olhar, e siga, diria um outro florentino, cuja máxima serviria como uma paráfrase aos modos de se lidar com toda a sorte de horror.

É curioso verificar, entretanto, a mesma ameaça conforme ela se deixará entrever além da sua aparência manifesta. Muito à frente, num desfilar de alguns séculos, se apresentará bem distante, ao menos aparentemente, daquela sua condição de peste. No entanto, olhos um pouco mais cautelosos se impregnarão de uma nova visão do terror, dessa vez cheia de truques publicitários, despachada por telefones e satélites.

E guardará um álibi majestoso: não se identificar imediatamente de onde vem tampouco de que lugar procede. E sua sombra se construirá como uma das grandes forças políticas do império, cuja ação contra todos os inimigos seculares, causará profundos sofrimentos e desgraças, e se revelará de modo inapelavelmente trágico.

Neste sentido, será exercida junto às nações mais fracas econômica e politicamente, no decorrer do século XX, e na pletora do atual, alternando-se entre diversas fases, ora com uma indisfarçável tolerância, ora como senhor de uma rigidez capaz de desencadear as ações mais violentas e perversas.

De todo modo, um aspecto sobressairá: jamais se deverão chamar pelo nome as ações imperiais. Na verdade, ela se construirá sob o princípio da negação. Assim, o pensamento colonizador se erige a partir de uma fortuita expressão de invisibilidade, numa negação sistemática de sua própria existência. Como as motivações mais profundas da peste.

A sua resolução é empreendida como uma condição natural. Avessa a uma expressão diversa, é concebida como um móvel que se ordena a partir de um escopo primordial em que se nota algo profundo, porém que se resguarda em termos multilaterais. Contudo, duas representações traem a sua retórica.

A primeira delas são os significados profundos, conforme assinalava David Harvey, em seu livro, O novo imperialismo, “sob uma incrível massa de retórica enganosa”, cuja desinformação sistemática precisa ser depurada como a ação do ácido sulfúrico na pedra. Vencidas algumas camadas, encontraremos as propagandas, os editoriais, as crônicas diligentemente escritas sob a inspiração da arte em estar de acordo.

Por conseguinte, é profundamente instigante notar como o discurso da globalização se prestou de um modo profundamente eficiente para deslocar a natureza do problema junto às esferas públicas, adernando junto aos meios de comunicação e se entretecendo no senso comum como uma cláusula inquestionável.

A outra representação, talvez mais sutil, precisa ser encarada pelo espelho reflexo, tanto pela sua forma de expressão, quanto pela terrível capacidade de cegar inapelavelmente aquele que se dispuser encará-la de frente. E ela se faz sentir e se traduz na aceitação passiva do problema, na assimilação da condição da vassalagem, cujo desdobramento mais grave é a contaminação de parte significativa da organização social, sustentada pela própria servidão voluntária.

Em seu paradoxo, a retórica do silêncio se inscreve na construção de uma esperança da liberdade, capaz de tirar povos inteiros da pobreza e da manipulação rasteira, apesar dessa mesma retórica caminhar como um espectro redivivo, tal como um antigo rei em sua armadura, de cuja viseira, quando aberta, proporciona a visão do inferno.

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

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