Aldir, Vidal e o uivo barroco da solidão de Ouro Preto

Caderno ENSAiOS publica o belíssimo texto do Aldir Blanc, lido por José Wilker, durante a cerimônia do Prêmio da Música Brasileira.

Mas, antes do texto de um dos nossos poetas mais lúcidos, o blog traz um pequeno comentário sobre a reflexão do Aldir. E ele é assinado pelo grande Vidal Assis, músico de uma nova geração da canção carioca.

O Prêmio da Música Brasileira traz gratas surpresas, como Zé Renato brilhando em “Bodas de Prata”, Ney Matogrosso revivendo “O Cavaleiro e os Moinhos”, Alcione interpretando “Quando o Amor Acontece”, o dueto de Mônica Salmaso e Renato Braz em “Sinhá”, além de outras interpretações importantes.

Entretanto, contrariando toda a fantasia de glamour da noite, eis que, em certo momento, salta o lúcido texto de Aldir Blanc, interpretado por José Wilker. O texto fala não só da parceria Bosco & Blanc, mas também dos retratos que os frutos dessa parceria trouxeram para a música brasileira: a escravidão, a inquisição, a violência urbana, as lutas inglórias. E, ao terminar o texto, Aldir quebra o último castiçal da ilusão daquela noite, escrevendo sobre o entretenimento barato disfarçado de arte; sobre as pontas dos arietes da massificação escondidas pelo brilho das telas; sobre a cultura “facilitada”, feita para adocicar, iludir, marginalizar, manter as relações de poder cristalizadas em nossa sociedade, vender e lucrar. E face a essa proposta de cultura, a resposta dada por Aldir continua sendo a mesma escrita por ele em Agnus Sei: NÃO!

Por seres humanos como Aldir Blanc, é que tenho orgulho de ainda ter as ruas do meu coração tingidas de verde-amarelo, como a bananeira.
Salve Aldir Blanc, poeta da lucidez, da lâmina, da realidade, da parcialidade necessária à mudança, da perspicácia, do incômodo, da emoção.

Em anexo, João Bosco interpretando Agnus Sei, e, abaixo, o texto de Aldir, na íntegra:

“Quando conheci João Bosco, fiquei fascinado com um ponto comum na imensa variedade de seu repertório ainda sem letra – sambas, toadas, canções, algumas cujo gênero não era, e não é até hoje, fácil de definir: havia nelas o uivo barroco da solidão de Ouro Preto, cidade onde João estudava engenharia e compunha, em silêncio, uma revolução musical. Acho que ouvi, na casa do amigo que nos apresentou, Pedro Lourenço, mais de 30 músicas pedindo palavras, e cada uma era mais bonita e original que a outra, um paraíso para letrista em início de carreira.

Começamos a trabalhar com fitas enviadas pelo correio. Nenhum problema. Já éramos, por temperamento e destino, uma parceria indissolúvel. Tínhamos, como nos orgulhamos de ter até hoje, inesgotável vontade de trabalhar. Lembro do João, começo dos anos 70, quando já morava no Rio, pegando o violão no começo da tarde. Muitas vezes outro dia raiaria, e apesar dos uísques e cervejas, nós estávamos inteirinhos, atentos, João tocando na pontinha da cadeira, eu em frente, ligadaço, como no minuto em que havíamos começado a canção, na tarde anterior, até ficarmos satisfeitos e trocarmos um sorriso cifrado: mais uma no balaio.

João é um forte. Sofreu incompreensões e até maldades difíceis de suportar, a menos que o artista tenha um objetivo implacável. Viajamos pelo Brasil todo, João mostrando as novas no palco, eu no roteiro, na luz, às vezes na tumbadora. Detestamos avião. Pegamos turbulências incríveis, ambulâncias na pista, o escambau. Compúnhamos em táxis, butecos, aviões e de madrugada, em hotéis, quando voltávamos dos shows, incansáveis. Fizemos músicas em pé, de ressaca, na beira da calçada (o João mandou parati…), fizemos música sonhando (Escadas da Penha), fizemos música sofrendo muito. Esse é o maior orgulho da parceria: sempre ralamos com afinco, com a maior garra.

Fico imaginando a cara dos que escreveram coisas como: “eles são obcecados por uma violência que não existe”. O grifo é meu. Ótimo terem nos chamado, ainda que a intenção fosse outra, de profetas – assim como, queiram ou não, profetizamos a reabilitação de João Cândido, a Anistia, influenciados pelo passado e pelo futuro, mas sabendo que a nossa cor era e será, sempre, verde e amarela como a bananeira.

Estivemos afastados vinte minutos, vinte séculos – e esse tempo foi igual a observar as mesmas estrelas de navios diferentes, sentindo a água e o vento que nos reuniria.

Se hoje, paradoxalmente, as dificuldades são maiores, também fomos claros sobre isso: “Glória a todas as lutas inglórias!”.

E quando tentarem, mais uma vez, o aliciamento de má-fé para “facilitar”, lembraremos que, atrás dessas propostas aparentemente generosas, está a ponta dos arietes, e responderemos, como há 40 anos atrás: NÃO!”

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