Menos 20 é que é Mais

Por Spirito Santo*

Confesso que não curto muito esta onda de Rio +20.

Me lembro bem da euforia da Eco 92, aquela árvore de desejos em bilhetinhos tornados hipócritas pelo tempo que passou. Eu estava quase chegando de volta ao Brasil da espécie de exílio voluntário nas Oropa e nem de lá havia empolgado não. Aqueles tanques de guerra nas ruas me davam uma premonição bem ruim.

O ser humano é estúpido mesmo, sem jeito, já achava isto ali naquele tempo. Somos uma falha escrota natureza, um equívoco, uma doença, um câncer, uma praga destas aí que, mais cedo ou mais tarde nos leva para o buraco do “Deus me livre” ou os “Quintos do inferno”.

Me lembro que rolou na época a notícia chocante de um suposto estupro cometido por um líder indígena contra uma mocinha branca – adolescente ainda acho – com a ajuda da esposa do índio, um crime bárbaro e emblemático, já que a imagem do índio puro, amante da natureza, o índio ecologista era um símbolo caro aos ambientalistas em geral.

O ex-bom selvagem louco conspurcando a moça era uma imagem assustadora. Era o Macunaíma do mal, canibal real, seviciando, esculachando uma virgenzinha branca e pura, como mendigos ingratos barbarizando a Viridiana daquele filme do Luiz Buñuel.

O fato é que, à vera mesmo, de lá para cá o que fizemos foi fazer a roda do mundo andar para trás 20 anos. O planeta foi sendo carcomido por nós mesmos em dentadas e mordidas cada vez maiores e mais vorazes. Foi-nos entre devorando assim nestes… + 20 anos que chegamos até aqui, a bunda grande, mas o rosto fundo, cavado, cinzento, nesta situação deplorável, degradada pelas metástases daquele câncer diagnosticado lá atrás. Falsos gordos.

É óbvio que o que carcome o planeta é a insanidade do sistema. Nem era preciso um Karl Marx nos dizer. Quem nos consome é o capitalismo, que só existe a partir da lógica do mais e mais lucro, incessantemente, como uma máquina louca operada por um Rei Midas trágico, pirado que tocou na filha e transformou a pobre moça numa estátua morta de ouro.

Produz-se coisa não para nos dar bem estar, mas para nos obrigar a comprar mais e mais até que o vício nos mate. Claro que a saída não é encontrar novas formas de energia. Energia “limpa”, estes eufemísticos panos quentes recorrentes aí. Estamos viciados em energia. Piramos.

É por isto que sou do movimento do “Menos 20”.

Necessitar MENOS de energia, produzir MENOS, consumir MENOS, comprar e vender MENOS (principalmente, carros, estas coisas que existem energia combustível para funcionar). Crescer MENOS enfim é a única saída válida para nos livramos deste vício que está nos levando para o buraco sem fim.

Somos como qualquer crioulinho magricela destes aí da rua, com um saco preto gigante nas costas, catando latinhas na rua para vender um sacão a um real pra a comprar crack, fumar, cair numa sarjeta destas aí para, quando acordar catar mais latinhas, vender para comprar mais crack e daí, vender para comprar, vender para comprar, vender para… Assim até definhar e morrer, cair numa cova rasa destas aí, num buraco de esgoto aí qualquer, como um cachorro atropelado por uma Mac Laren de última geração.

Esta loucura pelo desenvolvimento industrial é predatória assim sim, porque cria esta necessidade absolutamente esquizofrênica de se produzir mais e mais energia, petróleo, álcool, calor, o que seja, produtos que se transformaram nesta espécie de crack aí no qual o planeta – que somos nós mesmos, lembram? – exaurido, está, talvez irremediavelmente dependente.

Estamos queimando os tacos e os móveis da casa para abastecer o fogo de churrasqueiras onde cozinhamos e comemos a nossa própria carne mal passada. Antropófagos suicidas.

É por isto que sou do movimento do “Menos 20”.

Menos… menos 20… devia ser o nosso refrão. Ao capitalismo devíamos dizer, definitivamente NÃO. Nem importa mais o que colocaríamos no lugar. Menos no nosso caso, seria Mais.

Antes que seja tarde demais.

* Spirito Santo é artista. Este texto pode ser encontrado em sua página no Facebook.

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