O encenador e o teatro do nosso tempo

Por Theotonio de Paiva

No início da semana passada, leio desolado comovente texto de Ulysses Cruz, publicado na Folha de São Paulo [disponível em Conteúdo Livre] sobre a morte do ator e diretor de teatro, Fernando Peixoto.

O encenador gaúcho, morto no dia 15 de janeiro, foi seguramente um dos mais importantes e atuantes pensadores do teatro brasileiro. Dotado de uma rara capacidade de se envolver com segurança e inteligência nos aspectos práticos e teóricos dessa atividade tão complexa, quanto multifacetada, Fernando Peixoto conseguiu, em seus artigos, ensaios e espetáculos, pesquisar e formular as mais representativas questões da cena contemporânea.

Nesse sentido, vale a pena recordar o quanto foi marcado por uma capacidade de pensar dialeticamente os diversos processos históricos. Assim, ao se constituir numa das maiores autoridades do teatro de Brecht, aqui no Brasil, sendo responsável por livros, encenações, artigos e um número incansável de traduções de peças e textos teóricos do dramaturgo alemão, diga-se de passagem, condição que lhe marcou indelevelmente a sensibilidade, Fernando Peixoto era incapaz de virar as costas para as demais experiências artísticas que se faziam. O contraditório de algum modo o fascinava.

Lembro de um pequeno texto introdutório sobre o teatro em que deslindava com maestria as assimilações e influências, geradas ao longo do século XX no universo das diversas pesquisas e propostas cênicas, tanto no campo da dramaturgia, encenação e trabalho do ator. Cabe salientar que parte significativa dessas experiências, como é natural dentro do conjunto de quaisquer trabalhos no campo da cultura, traziam, dentro da própria concepção inicial, o embrião do confronto.

Não é difícil entender essa dinâmica se nos ocorre que uma expressão artística se orienta como eixo antagônico a uma determinada linha de criação anteriormente constituída.

Ora, Fernando Peixoto conseguia entender esse processo como algo maior. E se desdobrava em análises meticulosas sobre o fenômeno teatral, suas peculiaridades e limites.

Notava que as fusões de linguagens, as experiências e propostas, seriam procedimentos encontráveis, por vezes, dentro de um projeto de teatro específico. E estariam presentes ora num grupo teatral, numa companhia de longa duração, ou ainda na assinatura de um encenador que, sem nenhuma redundância, se voltasse à construção de um projeto mais autoral. Mas não parava aí. Chamava-nos a atenção para uma outra particularidade dessa natureza da criação do espetáculo: a comunicação que se acentuara, na virada do século XIX para o seguinte, quando a roda do tempo giraria com muito mais furor.

Identificava que, por conta das viagens dos espetáculos, através de navios ou estradas de ferro, pela disseminação dos escritos de diretores, autores e dramaturgos, as influências díspares, presentes cada vez mais nas últimas décadas, seriam encontradas, em alguns casos, dentro de um mesmo e único espetáculo.

Desse modo, sentia-se estimulado a entender como princípios e técnicas poderiam ser visceralmente negados, quando pouco antes pareciam essenciais e indispensáveis. Movimentava-se para compreender essa arte em sua natureza autofágica. E assim frequentemente distinguia o quanto esse processo transformava a narrativa, as técnicas de interpretação e as formas de concepção e encenação do espetáculo.

Consciente de tais processos, não se deixava enredar por um possível reducionismo estético que renegaria parte considerável da dimensão da atividade teatral. E ia além. Procurava discernir e compreender as diversas transformações que o teatro vinha sofrendo ao longo de sua história e, em especial, nos últimos tempos, com as consequentes definições e redefinições de sua função social. Em resumo: se permitia compreender as alterações profundas que balizaram o teatro do seu tempo, cuja expressão mais definidora talvez tenha sido a transformação do significado mesmo da atividade teatral.

E especulava a partir de reflexões e conceitos complexos, apesar de conseguir traduzi-los de forma clara. Em diversas ocasiões, o seu texto soava impregnado de forte cunho pessoal. Ambas as características seriam condicionadas por uma militância artística que a sua geração conseguira ascender a uma ação intelectual profundamente comprometida com a transformação do mundo. Dessa maneira, não foi à toa a escolha de Ulysses Cruz para vê-lo interpretar Sartre, na sua encenação da peça Cerimônia do adeus, de Mauro Rasi. Segundo o próprio Cruz, a personagem exigia um ator com credibilidade intelectual. Entende-se melhor assim a própria subjetividade entranhada no ser político.

E essa qualidade da sua geração revela um aspecto decisivo para compreender a obra desse homem de teatro. Como alguns artistas do seu tempo, conseguia compreender a função social do teatro como algo que se apresenta de tempos em tempos a exigir um questionamento tão perturbador que se corre o risco do imobilismo e da resignação. Numa arte que jamais seria a mesma, pois determinada por um outro nível de consciência, esse aspecto foi observado de modo notável por Peixoto. Artistas e público se viram na condição de provocarem substanciais alterações na maneira de realizar (se entendermos o olhar, a leitura, como um ato de realização) e conceber o próprio teatro.

Plantado no chão do mundo sem esquecer as possibilidades reais que o imaginário lhe oferecia como matéria-prima da criação, esse artista e intelectual gaúcho, aliava a sua extrema capacidade de análise a um humor sutil e a uma escrita treinada em anos de jornalismo. Egresso do antigo Teatro Oficina, no qual participou intensamente de algumas das suas mais célebres montagens, Peixoto romperia com o grupo e se alinharia a um projeto de teatro cujo engajamento acreditava melhor orientado.

No entanto, uma grande generosidade parecia inspirar a sua capacidade de entender as matrizes paradoxais das nossas formações sociais e aqueles aspectos mais humanos. Num artigo sensível, se não me falha a memória, publicado por ocasião do retorno de Zé Celso ao Brasil, ou quando do lançamento do filme 25, do próprio Zé e Noilton Nunes, repensaria e se deixaria impressionar vivamente pelas admiráveis experiências que o antigo companheiro de grupo conseguira desenvolver fora do país. A história do outro passava a ser objeto de reflexão e sucessivos balizamentos da sua própria história.

Por último, lembro, quando ainda era ainda um estudante secundarista, sobre a expectativa que a cidade inteira parecia guardar com a estreia de Calabar, o elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra. A obra se pretendia de grande comunicação – a peça era um musical com uma irreverência típica do período, e algumas músicas vieram a fazer parte daquilo que de melhor aquela época produziu em termos de consciência política e artístico-musical. Calabar, como sabemos, foi vergonhosamente censurado, após o texto ter sido aprovado pela Censura Federal. A idéia era quebrar a espinha dorsal daqueles artistas e produtores que se aventuravam por um trabalho de resistência cultural, num país sob uma ditadura civil e militar. O diretor do espetáculo era Fernando Peixoto. Pois bem, no ano seguinte, estava ele em cena, dirigindo e atuando, num trabalho que marcou época: Um grito parado no ar. O texto de Gianfrancesco Guarnieri era uma espécie de autobiografia e reflexão coletiva de amplos setores artísticos, assim como uma metáfora do país, a partir dos termos em que era possível se expressar. E isso não era pouco.

Fernando Peixoto distinguia-se, pois, por uma capacidade inesgotável de se recriar e pensar por ângulos diferentes estratégias de construção de uma arte. A sua obra parece nos ajudar a compreender melhor os fios esgarçados do nosso tempo.

Resposta de um grego para um alemão pela crise

Um amigo deste blog encaminhou essa maravilha de troca de cartas entre um alemão e um grego. Ambos os textos propõem uma bela polêmica, mas o humor fino do grego é inquestionável. Boa leitura.

Estas cartas apareceram no jornal semanário alemão “STERN”
Foram duas cartas sobre os problemas reais da crise econômica na Grécia. A resposta ao alemão da primeira carta é sensacional.
Isto, sem levar em conta o fato de que, considerando a “dívida total” na zona do euro não é a Grécia a maior devedora. A Holanda excede em 234%, Irlanda com 222%, Bélgica com 219%, Espanha com 207%, Portugal com 197%, Itália com 194%, etc.

Há alguns meses atrás, foi publicada uma carta aberta dirigida ao “Prezado grego” por um cidadão alemão chamado Walter Wuellenweber cujo título era:

Caro grego:
Desde 1981 nós pertencemos à mesma família.
Nós, alemães, temos contribuído para o Fundo comum, com aproximadamente de 200 bilhões de euros, sendo que só a Grécia recebeu cerca de 100 bilhões desse montante, ou seja, a maior quantidade per capita que qualquer outro povo na UE. Nunca, ninguém, voluntariamente, ajudou a este ponto outro povo e por tanto tempo.
Vocês honestamente são os amigos mais caros que temos. O fato é que não só VOCÊS enganam a si mesmos, COMO A NÓS também. Em essência, nunca provaram serem dignos do nosso Euro. Desde a constituição da UE e a moeda única, que a Grécia, nunca conseguiu satisfazer os critérios de estabilidade.
Dentro U.E. vocês são as pessoas que gastam as maiores somas em bens de consumo. Através da vontade das pessoas que em última análise, tem a responsabilidade. Não digam, então, que os políticos são os responsáveis pelo desastre.
Ninguém os forçou a não pagar os impostos por anos; que se oponham a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e, ninguém os obrigou a escolher os líderes que tiveram e têm. Os gregos foram os que nos mostraram o caminho de Filosofia, Democracia e os primeiros conhecimentos da Economia. Agora, estão a nos mostrar o caminho errado e, onde não conseguiram chegar!
Na semana seguinte, o JORNAL “Stern” publicou uma carta aberta de um grego, dirigida ao Wuellenweber:

Caro Walter:
Meu nome é Georgios Psomas. Eu sou um servidor público e não “funcionário público” como desdenhosamente como um insulto, vocês se referem aos  meus compatriotas e seus conterrâneos. Meu salário é de 1.000 euros por mês hein? Não pense você que é por dia, como te querem fazer acreditar em teu país. Note que ganho uma cifra bem menor que isso, porque desconto impostos e, certamente, o meu salário é muito, mas muito menor que o seu.
Desde 1981, você está certo, pertencemos à mesma família. Só que temos lhes concedido exclusivamente para VOCÊS ALEMÃES um monte de privilégios, TAIS COMO: os principais fornecedores de tecnologia do povo grego, armas, infra-estrutura (rodovias e os dois principais aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, carros, etc. Se eu esqueci alguma coisa, me perdoe. Gostaria de lembrar que dentro da UE somos os maiores importadores de produtos de consumo produzidos pelas fábricas alemãs.
A verdade é que não são só os nossos políticos os responsáveis pelo desastre da Grécia. Também contribuiu muito para isso, algumas grandes empresas alemãs, que pagaram altos subornos para os nossos políticos a fim de conseguirem os contratos citados acima, para vender tudo, até mesmo uns submarinos, alguns fora de serviço, que  posicionados no mar, logo afundaram ou emborcaram.
Sei que ainda não deve estar dando crédito ao que eu estou escrevendo. Tenha paciência, espera, leia a carta inteira e se eu não o convencer, eu autorizo a você me colocar fora da zona do euro, este que é considerado o lugar da verdade, prosperidade, justiça e direito.
Walter, meu caro Walter, passou mais de meio século desde que a 2ª. Guerra Mundial terminou, é mais de 50 anos, que a Alemanha deveria ter cumprido as suas obrigações para com a Grécia. Essas dívidas, que até agora apenas a Alemanha está relutante em resolver com a Grécia, (a Bulgária e a Romênia reuniram-se para pagar a indenização), são:
1. A dívida de DM 80 milhões para indenizações, que não foi paga desde a Primeira Guerra Mundial.
2. Compensação de dívidas para as diferenças no período entre guerras, num total de US$ 593.873.000 a valores de hoje.
3. Empréstimos forçados que fez o Terceiro Reich em nome da Grécia durante a ocupação alemã, que totalizaram 3,5 trilhões de dólares durante todo o período de ocupação.
4. Reparos que devem para a Grécia, para os confiscos, perseguições, assassinatos e destruição de aldeias inteiras, estradas, pontes, ferrovias, portos, produzidos pelo Terceiro Reich, e, como foi estipulado pelos tribunais, equivale a hoje a 7,1 trilhões de dólares, dos quais a Grécia não viu um centavo até hoje.
5. As reparações incomensuráveis da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38.960 mortos por banalidades, 12.000 mortos como dano colateral, 70.000 mortes em combate, 105 mil mortes nos campos de concentração na Alemanha, 600.000 morreram de fome, e assim por diante. Etc.).
6. A lesão moral enorme e imensurável causadas ao povo grego e aos ideais humanistas da cultura grega.

Eu sei que você não deve estar gostando nada do que estou escrevendo. Sinto muito! Mas, me incomoda muito mais o que a Alemanha quer fazer comigo e com meus conterrâneos. Amigo, operam mais de 130 empresas Alemãs na Grécia, dentro destas estão incluídas todas as gigantes da indústria de seu país, algumas com faturamento anual de 6,5 bilhões de euros.
Logo, se as coisas continuarem assim, infelizmente, não poderei comprar mais produtos da Alemanha, porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e meus companheiros crescemos sempre com a privação, podemos viver sem BMW, Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Vamos parar de comprar produtos da Lidl, de Praktiker, de IKEA. Mas, vocês, Walter, como vão gerir os desempregados que gerará esta falta de consumo?  Até você mesmo pode  ter que diminuir o padrão de vida, teus carros de luxo, as tuas férias no exterior, as excursões sexuais para a Tailândia, etc.
Vocês, (alemães, suecos, holandeses, e “companheiros” de outras Eurozona) querem que a gente abandone a Zona do Euro, a Europa e lá sei onde mais. Acredito firmemente que temos que fazê-lo mesmo, para nos salvar de uma União formada por um bando de especuladores financeiros, uma equipe que somente nos valoriza se nós consumirmos produtos que oferecem tais como: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras monumentais, e assim por diante.
Walter, finalmente, é preciso “consertar” uma outra questão importante, já que você também está em dívida para com a Grécia: “EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM”!
* Queremos DE VOLTA NA GRÉCIA as obras imortais de nossos antepassados que, VOCÊS GUARDAM NOS MUSEUS  em Berlim, Munique, Paris, Roma e Londres.
* E EU EXIJO QUE SEJA JÁ, AGORA,  Porque, JÁ QUE eu estou morrendo de fome, eu quero morrer ao lado das obras de meus antepassados.
Cordialmente
Georgios Psomas

A última entrevista de Guimarães Rosa

Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido.

Arnaldo Saraiva

Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?

Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.

Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita­­bira de Drum­mond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de con­tar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses…
Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Ham­­burgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.

Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?

Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui­to do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Gui­marães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.

Mas não chegou a conhecer Aquilino?

Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi al­guns livros dele, o empregado per­guntou-me se eu queria co­nhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.

Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os “notáveis escritores e poetas” que estavam a “encostar a pena contra a lava” que ia no Brasil “sepultando prosódia e morfologia da língua-mater”? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal…

Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.

Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.

Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co­mo infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.

Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?

Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.

Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Gui­marães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado ne­nhum livro de ca­valaria, nem ne­nhuma novela bu­cólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Gran­de Sertão: Veredas”…

Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal…

… que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” – e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso – pelo campo da “invenção linguística?

Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca­derninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.

Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo:  “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Cor­po de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção…”.

Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.

Nota do Caderno ENSAiOS: Esta entrevista foi republicada recentemente no Jornal Opção e sugerida através do  Luis Nassif Online.