Hexecontalito

Da série Pequenos apontamentos noturnos.

Por Theotonio de Paiva

Mário de Andrade anotou num exemplar do livro de poemas Le départ sous la pluie, escrito pelo poeta e crítico Sérgio Milliet, o significado de uma palavra rara e sonora: “Hexecontalito: pedra preciosa antiga hoje desconhecida, da qual se dizia que tinha sessenta cores”.

Na primeira folha em branco, Mário deixava uma impressão curiosa. Ao dar voltas naquele signo, como se estivesse plantado frente a um enigma, o escritor provocava o significante.

A partir daí, Antonio Candido, num belíssimo ensaio, O ato crítico, especula que essa anotação misteriosa é sugestiva. Assim, ao pensar sobre a obra do modernista, Candido sugere que o volteio crítico de Sérgio Milliet desnudaria um pensamento especialmente perplexo. Provocador, Millet surge como alguém que se apresentasse ensaiando sempre, expressão de um fluxo contínuo de peça inacabada, de obra cheia de incompletudes.

Às vezes, gerando a graciosa impressão de ser determinado, movido mesmo pela convicção de que a obra é um hexecontalito. As  sessenta cores não lhe cabe e é preciso de algum modo supor que se possa captar todas as sete mil faces do poema, as rubricas não escritas do drama, a metáfora insurgente do romance.

Num movimento singular, vê-se aquele leitor especialíssimo rodeando a escritura. E como um amante tímido, aceitando as suas contradições, recebe o  pedido lacônico para ficar na ante-sala, enquanto a conversa com o outro acontece mais dura. Sentado, se vê aflito, enquanto as tolas representações escorrem pelas frestas da porta e se permitem compreender insidiosamente.

Ao desconhecer o medo de se corrigir, como diz Candido, Milliet tracejava os planos de suas leituras, de suas criticas, como alguém que olha e refaz o próprio olhar sobre a obra e sobre si mesmo.

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