Resposta ao desafio Žižek

Por Alexandre Pilati*, via Outras Palavras

Em sua recente participação no movimento de ocupação de Wall Street, o filósofo esloveno Slavoj Žižek proferiu um discurso lúcido e agudo, do qual podemos extrair pelo menos uma frase marcante a respeito da relação entre a linguagem e a ideologia. Disse Žižek: “Nós nos ‘sentimos livres’ porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade”.

Para qualquer um que tenha como ofício refletir sobre a cultura e a arte contemporâneas, a frase de Žižek é uma pedra no sapato, um espinho na garganta. No atual estágio do capitalismo, a cultura e a arte em geral, e a literatura em particular, estariam conseguindo produzir formas capazes de articular a nossa “falta de liberdade”, a fim de torná-la inteligível? Quais seriam as possibilidades de a literatura e a crítica literária produzirem hoje uma consistência discursiva tão radical e dilacerada que pudesse romper com as mais fundamentais marcas ideológicas do mundo do espetáculo e da tecnologia que aprofunda a alienação?

Pensemos aqui especificamente na literatura. Quanto mais estudo literatura e produzo crítica literária, mais me sinto dividido a respeito das possibilidades da literatura no mundo contemporâneo. Em certo sentido, a literatura (e talvez de modo especial a poesia) é uma das formas mais contundentes de expor os nervos dos comprometimentos ideológicos que marcam o avanço planetário e irrefreável da lógica da mercadoria. Noutros termos, entretanto, parece que seu poder se dilui, especialmente pela forma restrita que assume em meio às estratégias de tecnologização da escrita e também pela maneira como ela tem se tornado uma matéria desprovida de sentido vital abrigada em redutos acadêmicos (cada vez mais anódinos) e nas resenhas mercadológicas da imprensa tradicional (cada vez mais intragáveis). Nesses dois casos, a literatura mostra a sua tendência quase irresistível à diluição em nichos ideológicos do capitalismo atual. Nem na academia contabilista, nem na novidadeira resenha do flébil jornal de domingo, a literatura demonstra o seu poder de favorecer a articulação de uma linguagem da liberdade. Pelo contrário, nesses dois casos, ela compactua com a impossibilidade de lacerar as camadas mais elementares da ideologia dominante. A literatura tem nisso também a sua atualidade: reforçar a mirada obtusa sobre a verdadeira dinâmica do mundo atual. E isso é mau.

Mas também tendo a acreditar que a literatura não é só isso. Quando nos sentamos e dedicamos algumas horas de nosso dia à atividade solitária de “manusear o que há de mais delicado” na escrita, como diria o filósofo alemão Theodor Adorno, creio que estamos diante de um processo insubstituível por qualquer outro trabalho humano e que consiste basicamente na reflexão profunda acerca da tensão entre subjetividades e objetividades. No ato de leitura literária, de resto sempre gratuito, dimensões do mundo subjetivo e do mundo objetivo entram em contato dinâmico e dialético, através da mediação do trabalho empreendido tanto para a montagem do texto quanto para a sua decodificação. Nesses termos, poderíamos dizer que o ato de leitura literária é um ato vital porque é capaz de nos conduzir pela via de um pensamento e de um sentimento em alerta para a contemplação do mundo reificado que é o do texto literário, o qual, por sua vez, reifica-se apenas para dar a ver o processo reificador em geral. Eis os laços de negatividade profunda que unem o literário — como força viva à altura da vida — à lógica da mercadoria. Citando o James Joyce de Ulisses: “…e isso é a inelutável modalidade do invisível.”

Quando lembramos esse laço entre o mundo literário e o mundo da mercadoria, pensamos imediatamente na literatura como trabalho, como processo formal. Daí que o conteúdo do texto não é o essencial em sua maneira de resistir ao mundo do capital, mas sim os modos formais de que o autor se vale para produzir uma interpretação do mundo, que rearticule este mesmo mundo num outro plano, onde seja possível entender de modo mais radical as contradições da realidade e do processo de representação dela. Maiakóvski já nos dera há muito tempo o recado, com a vantagem de não ser um fetichista da vanguarda: o que há de revolucionário na poesia é a forma e não o conteúdo. Por isso, posso pensar em um livro como Invenção de Orfeu, do grande poeta brasileiro Jorge de Lima, como um grande canto antiespetacular, um canto que faz da imagem e dos mitos uma leitura em negativo. Quando vejo pela Internet os jovens em Wall Street cantando algo em uma nova língua de um novo mundo, canto de cá, com Jorge de Lima: “Contemplar o jardim além do odor/ e a mulher silenciosa entre semblantes,/ e refazê-los todos, todos antes/ que o tempo condenado os atraiçoe.” A literatura refaz o mundo e nos refaz, revigorando-nos das traições de nosso tempo.

Se pudesse, iria a Wall Street ocupá-la com um pouco de poesia. E não poderia deixar de lembrar que, há mais de cem anos, um poeta maranhense, Joaquim de Sousândrade, cantou, num belíssimo e radical poema longo, as insânias de uma cidade-inferno. Em O guesa errante, Sousândrade cantava, numa forma poética revolucionária para o seu tempo, o espanto e o escândalo de Wall Street e de Nova Iorque no fim do século XIX. Eram tempos negros, que não passaram, mas que ganharam mais cor e impingiram ao mundo uma língua mercantil, cujos mecanismos nos impedem de ver os grilhões hodiernos. Tempos que Sousândrade viu iluminados talvez pelo sol negro da melancolia, do romântico Nerval: “Estrela de carvão, astro apagado/ Prende-se mal seguro, vivo e cego,/ Na abóbada dos céus, — negro morcego/ Estende as asas no ar equilibrado.” Não nos esqueçamos deste astro negro do Guesa. Enxergá-lo é resistir. É por isso que ler literatura atualmente é um ato de resistência à diluição das formas de reflexão e de crítica ao capitalismo. O literário ainda mantém a sua força utópica no mundo da velocidade da comunicação, uma vez que ele talvez seja uma das poucas fontes de reatividade negativa à fragmentação e à desumanização.

(*) Professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília, poeta e crítico literário. Autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009).

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