Morte incidental no trem subterrâneo

A narrativa a seguir, caro leitor, poderá ser compreendida como uma peça literária de ficção, tanto quanto um relato minucioso de um acontecimento real, ocorrido numa grande cidade. Assim é, se lhe parece. Na certeza de que é sempre melhor tomarmos algumas precauções, as referências objetivas foram devidamente alteradas a fim de se evitar uma identificação grotesca que pudesse atingir pessoas inocentes.

Por Theotonio de Paiva

Cidade de Mitra, hemisfério sul. Terça-feira, 16 de agosto de 2011, 14h40min. As luzes do vagão em que me encontro caem repentinamente. Resta ainda uma luminosidade baixa, quase neblínica. O carro parece que desliza por alguma inércia. Suponho que seja pelo feixe da última força de luz. Dessa forma, chegamos à Estação de Bernardone, a penúltima no sentido à zona das lembranças-mais-do-que-arcaicas.

Os passageiros ficam ansiosos. Uma jovem acompanhada pela mãe quer sair do carro a todo custo. Ela acabara de pôr o seu nome num caderno espiralado. Pergunto se seria a primeira aula de algum curso novo. A mãe comenta displicentemente que o interesse da menina não é na aula particular, dando a entender que a filha não suporta ambientes fechados. Mudamos de assunto. O que terá acontecido? Nada sabemos.

Na linha ao lado, um outro trem – é o que tudo indica – se encontra estacionado há algum tempo. Observamos distantes os seus passageiros que saem. Obedecem a um comando que muito em breve será empregado no veículo em que me encontro. As portas se abrem. Uma passageira traz a notícia captada pelo rádio ou algo assim: – Parece que um homem se matou.

Pela primeira vez, as vozes desencontradas começam a se firmar num registro mais ou menos compreensível. – Foi um senhor. – Teria se jogado em alguma estação. – As luzes foram desligadas para que realizassem o trabalho de recolhimento do corpo. – Foi suicídio mesmo ou terá se sentido mal? Às vezes se perde a consciência…

Insistentemente o comando central informa que a estação será fechada. Todos deverão se retirar daquele local. Esclarece ainda aquilo que os passageiros devem fazer e como se comportar. Há uma evidente preocupação em afastar de vez qualquer pânico. A voz martela: houve um problema com um cliente. Assim mesmo: anódino. Há a intenção manifesta de retirar, o que parece lógico, qualquer culpa da empresa.

Embarquei na estação anterior em direção à zona do futuro-do-presente-da-cidade. Pretendia convictamente chegar ao meu médico. Em vão. Encontro-me na estranha condição de testemunha ocular. Não é um trabalho agradável, embora fascinante.

Cruelmente a ordem urbana nos leva a uma dor cuja face deve permanecer oculta. Não há como escapar. A própria morte, na maioria dos seus termos, raramente rompe essa sinonímia. A solidão é a única companhia inevitável. Contrariando Bauman, a grita pelo processo identitário é quase nada frente ao anonimato urbano.

Tudo se desenrola muito rapidamente, apesar da lentidão que se nota na ação física das mulheres e homens que desembarcam da estação. Curiosamente a informação se estabiliza num patamar que antecede os temores. Nesse sentido, ela atende às expectativas do comando de voz quando registramos os comentários dos passageiros – às vezes os rancores e as ignorâncias – se cristalizando.

Uma senhora se irrita com o incidente. Ora, ela mesma testemunha provas de resistência. Graças ao seu deus, pôde encontrar a mais completa superação dos pesados sofrimentos. Portanto, como reconhecer, e, sobretudo, como aceitar aquilo impunemente? – Se matar?… Ela sinceramente não encontra razão.

Encaminhamo-nos para as roletas a fim de sermos ressarcidos do prejuízo causado por aquele ato extremado. Cada passageiro recebe o seu bilhete. Encontramo-nos numa espécie de dança macabra, cuja ritualística é percebida como uma oferenda às avessas: despojos fúnebres que confirmam, aos milhares, aquela experiência.

Do alto de um mezanino, distingue-se o carro da vítima. Funcionários do trem fazem uma espécie de cordão de isolamento impedindo o olhar de curiosos. Daquela distância, podemos observar com clareza a ação de alguns homens na plataforma. Dois deles se agacham junto ao terceiro vagão. Lá, provavelmente, deverá estar o corpo. E parece não restar dúvidas o quanto teria sido arrastado implacavelmente.

Pedem reforços, roupas adequadas e materiais para o resgate. Não há como permanecer mais tempo por ali. A hipótese do suicídio vai se revelando a mais plausível. Inclino-me por ela.

Encaminho-me para o nível do solo como se atravessasse uma época. Hesito em recorrer a uma imagem distante desse fato, mas muito próxima a mim afetivamente. Assim, me encontro quase na mesma medida daquele personagem do Jean-Louis Barrault, em Casanova e a Revolução [La Nuit de Varennes]. Ao final do filme, meio perplexo, meio resignado, ele avista a sua cidade. No entanto, ela ressurge outra: expressa o caos do nosso mundo contemporâneo, deixando para trás aquela densa história de dois séculos passados.

De minha parte, em minhas lembranças, perduram algumas sensações e experiências decorrentes daquilo tudo que se passou, mas encontro apenas ônibus cheios e a estação final fechada. A incredulidade dos rostos igualmente anônimos, que igualmente encontro, se reduz a uma expressão atônita a se perguntar: o que ocorreu?

Medito sobre aquele drama pessoal. Parece significar o fim de uma longa história, quem sabe, o seu trágico início, contada toda ela num flash-back. (Por sinal, espécie de recurso muito antigo na arte de narrar certos mitos.) E, então, o que esse drama quer nos dizer? Qual a sua medida de espanto? Em que medida o tabu que o cerca guarda o silêncio mais íntimo das civilizações? E mais: se pensarmos como se fôssemos movidos por aquela inércia que distinguimos frouxamente no deslocamento do carro, ainda assim poderemos nos indagar sobre o quanto esse mesmo drama nos comove?

Na página da imprensa do trem subterrâneo da Cidade de Mitra, vemos a seguinte nota, postada às 17h13min: “Todas as linhas operam normalmente na tarde desta terça-feira”.

Este texto foi publicado originalmente no Outras Palavras.

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