A força da arte e da imaginação

Recebo da Amelia Zaluar uma mensagem de crença no homem – como dizia um velho professor, contra a força só há resistência. Mas igualmente uma crença profunda na arte e em seu poder de gerar indignação. No vídeo, o rei Berlusconi é desafiado por Giuseppe Verdi …

Trata-se de um momento de performance musical e revolta cultural, diante dos desgovernos, da crise europeia, das perversões geradas pelo sistema econômico e político.

Assim, há cinco meses, a Itália festejava os 150 anos de sua criação, ocasião em que a Ópera de Roma apresentou a ópera Nabuco de Verdi, símbolo da unificação do país, que invocava a escravidão dos judeus na Babilônia. Trata-se de uma obra não só musical mas, inquestionavelmente, política à época em que a Itália estava sujeita ao império dos Habsburgos (1840).

Sylvio Berlusconi assistia, pessoalmente, à apresentação, que era dirigida pelo maestro Ricardo Mutti. Antes da apresentação o prefeito de Roma, Gianni Alemanno – ex-ministro do governo Berlusconi, discursou, protestando contra os cortes nas verbas da cultura, o que contribuiu para politizar o evento.

Como Mutti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira «noite de revolução» quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral « Va pensiero » o famoso hino contra a dominação.

Há situações que não se pode descrever, mas apenas sentir; o silêncio absoluto do público, na expectativa do hino; clima que se transforma em fervor aos seus primeiros acordes. A reação visceral do público quando o côro entoa – “Ó minha pátria, tão bela e perdida”.

Ao terminar o hino, os aplausos da plateia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de « bis », « viva Itália! », « viva Verdi! ». Das galerias são lançados papéis com mensagens políticas.

Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Mutti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro À La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse : «não cabia um simples bis; havia de ter um propósito particular». Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o público, e com ele o próprio Berlusconi.

Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de « longa vida à Itália » disse:

RICCARDO MUTTI :

« Sim, longa vida à Itália [aplausos] mas … não tenho mais 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquieço a vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que cantava ‘Ó meu pais, belo e perdido’, eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual se assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente bela e perdida [aplausos retumbantes, incluindo os artistas da peça].

Reina aqui um ‘clima italiano’ ; eu, Mutti me calei por longos anos. Gostaria agora… nós deveríamos dar sentido à este canto; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente, e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos.»

Foi assim que Mutti convidou o público a cantar o Côro dos Escravos. Pessoas se levantaram. Toda a ópera de Roma se levantou… O coral também se levantou. Foi um momento magnífico na ópera ! Vê-se, também, o pranto dos artistas.

Aquela noite não foi apenas uma apresentação do Nabuco mas, sobretudo, uma declaração da platéia do teatro da capital dirigida aos homens que governam o mundo.

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