O cárcere de “Infância”

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

O texto a seguir nos provoca ao tocar nas lembranças interditas, presentes na obra de Graciliano Ramos: um documento de terrores e inibições no contexto do patriarcado rural nordestino, flagrado por uma mente extremamente sensível. 

Por Priscila Figueiredo*, no Outras Palavras.

No artigo anterior [“A testa enrugada da lei e o olho da rua“], sobre Robert Walser, observei que seu romance Jacob von Gunten seria, como nenhum outro de que me lembrava, “um catálogo de apreensões e profundas inseguranças”. Enquanto escrevia isso ocorreu-me que, entre nós, Infância, de Graciliano Ramos, não ficava, a esse respeito, mal situado. Não o mencionei logo porque isso implicava cruzar outra sintonia, muito distinta, o que daria trabalho suplementar e não era o caso. Então o faço agora porque nestes últimos dias a ideia de comparação cresceu, obrigou-me a retomar as memórias nada elegíacas do escritor alagoano e quer ser tranquilizada de alguma forma. Na verdade, o único ponto que julgo mais pertinente reter é o de que Infância constitui a seu modo um documento de terrores e inibições, no contexto do patriarcado rural nordestino, aqui flagrado no período pós-Abolição.

O modo metonímico como ele se refere à mãe e ao pai no começo, mãos finas, mãos grossas, tem a ver com o tipo de memória, voluntária, mais que isso, voluntariosa, que vai puxando com dificuldade, como de um mar genesíaco, primordial, anterior à autoconsciência do eu-narrador, seres, coisas, paisagens, primeiro formas inacabadas, indecisas, entre as quais não se adivinham ainda as relações. Os fatos, as ações encadeadas mal se esboçam nesse momento, são retalhos. O elemento anedótico, o caso, o propriamente narrável adquire mais firmeza só depois de alguns capítulos — eu diria que especialmente a partir do conto “O cinturão”, sobre uma surra só não tão traumática porque está narrada. Enfim narrada (deve ter pensado a vítima, já adulta), diretamente, com a pessoa real apontada sem desvios e mediações ficcionais, como na Carta ao pai de Kafka.

“As letras do alfabeto podem adquirir o aspecto de entidades implacáveis, ou uma concreticidade
que as aparenta ao pedaço de madeira com que o pai o ameaça a cada hesitação na leitura,
como se cada uma delas fosse o punho fechado da autoridade insensível a apelos”

Provavelmente e conforme a data de nascimento do escritor, estaríamos nesse ponto em 1894, 1895 (“Pelas contas de minha mãe, andava em dois ou três anos”). O livro cobre uma década mais ou menos, até 1905. Desde as primeiras páginas, porém, a violência e as caretas primitivas do medo formam um alto relevo sobre o fundo amorfo e escuro da memória mais remota: “Bem e mal ainda não existiam, faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos”. Isto é, as pancadas e gritos estão desde sempre, antes de qualquer senso moral, que, presume-se, não é incutido tão facilmente por eles porque lhes faltam bons motivos. Como são muito freqüentes, o arroz diário daquela vida, as justificativas de peso que lhe dão sustentação se revezam com as triviais, e a criança, não podendo distinguir uma da outra, também não discrimina de início as ações corretas das más, ambas dissolvidas pelo cantochão de ofensas e bordoadas. O passo seguinte, à medida que se desenvolve, é interiorizar noções de dever, mas um tanto desastradamente, isto é, automutilando-se, inibindo a própria espontaneidade de maneira bem mais impiedosa do que a “normalmente” prevista na formação da personalidade (as aspas pedem relativização e consideração do padrão de repressão geral de determinado contexto histórico-cultural). O resultado, como ele mesmo dá a conhecer, é timidez excessiva, medo permanente de tudo e de todos (germe de angústia, livro e sintoma), um embotamento dos sentidos e de certos aspectos da capacidade cognitiva que beira a deficiência. A cegueira efetiva num determinado período e a dificuldade que teve com o aprendizado da escrita, o qual toma dimensão verdadeiramente vexaminosa, parecem ser antes conseqüências do referido processo que manifestações do gene ou do azar. Não por acaso as letras do alfabeto podem adquirir o aspecto de entidades implacáveis (“Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas ou manuscritas”), ou mesmo uma concreticidade que as aparenta ao pedaço de madeira com que o pai o ameaça a cada hesitação na leitura, como se cada uma delas fosse o punho fechado da autoridade insensível a apelos.

Como quase tudo que faz, movimento de vida e curiosidade, é invariavelmente interditado, o menino passa à suposição de que todas as suas ações devem ser erradas e, mais, que ele mesmo é um grande erro. Num episódio o vemos interessado no significado da palavra inferno (a mesma palavra que encanta o filho de Fabiano em Vidas secas, obra anterior a Infância), sobre a qual entrevista a mãe. No entanto as explicações dadas pouco o convencem e tranqüilizam, antes pelo contrário lhe dão ânimo argumentativo, inquiridor, o que a mãe –não propriamente maternal, cuidadora, mais próxima, diz ele, de uma criança irritadiça, com a qual era preciso ter cautela – interpreta como insolência e abuso. Ele até preferiria acreditar no que lhe era contado, mas havia incongruências no relato e era preciso corrigi-las para que pudesse receber um esclarecimento mais satisfatório, mais amarrado logicamente: “Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas”. O que se mostrava nele sinal evidente de inteligência e autonomia é abruptamente classificado como o seu contrário (“minha mãe irritou-se, achou-me leviano e estúpido”). No entanto, conseguindo fazer avançar a curiosidade além de todo constrangimento, ao menos nesse caso, ele ainda ousa cometer um último ato de rebeldia: “Não há nada disso”, desfazendo das chamas e suplícios eternos. O ponto final da discussão é conhecido dele e não tarda: várias chineladas.

Estaria tudo muito bem se então ele, ao fim e ao cabo, ao menos aprendesse que não se devem interpelar os dogmas religiosos, os quais estão aí para ser aceitos e temidos. Isso é o que os pais têm para lhe passar, dentro da cultura de superstição a que estão presos. Se ele aprendesse que a curiosidade matou o gato e que por vezes é bom limitá-la, haveria alguma coerência no ensinamento. Ocorre que às vezes o peso e a medida são outros para julgar a insolência daquele que ousa ultrapassar certos limites. Como se nota mais adiante, “acertávamos ou falhávamos como se jogássemos o cara-ou-cunho”. Ser pego em erro ou acerto depende do humor de quem o avalia, tão inconstante como um jogo de azar, e não de parâmetros claros. Poucas páginas adiante topamos com duas narrativas que se revelarão fundamentais no conjunto, “O moleque José” e “Um incêndio”. No primeiro, a visão do suplício de um negro, companheiro do menino Graciliano, que o admirava e mesmo o invejava pela superioridade, manifesta no conhecimento de bichos, lugares, plantas, na sua maior liberdade de ação e linguagem e na capacidade de agüentar firme, sem chorar, as mesmas pancadas e cóleras que seu senhor infligia ao filho. Como este e os cachorros, os moleques José e Maria (a irmã) são os “viventes miúdos”, constantemente ameaçados e aterrorizados pelas mudanças de humor de seu padrinho, ante o qual cada um deles desenvolve uma forma específica de comportamento: a aparente resignação, com fuga no momento propício (caso de Maria), o trato mais manhoso, “suave e persuasivo” (o de José) e a renúncia à auto-afirmação, a hipertrofia do medo com o fim de garantir uma mínima autoconservação física. Seja qual for a estratégia adotada, menos ou mais consciente, ela sempre produz alguma deformação, menos ou mais devastadora, em quem a pratica. Um exemplo disso aparece no capítulo citado e é a incapacidade de manter a aliança com um igual em humilhação, mas não em situação de classe, quando vem a se manifestar o pior de uma autoridade exercida sem limite, embora esta já não esteja no topo da ordem social –Sebastião Ramos não é mais um grande proprietário, e sua instabilidade econômica agrava a instabilidade de déspota que não deixa de ser, o qual ainda se serve das regalias deixadas pelo sistema escravista.

“O peso e a medida moral agora mudaram: não há o que lamentar,
pois você viu o resto de quem foi preto, pobre, insignificante. Logo, você praticamente não viu nada. Por que se culpa? A criança agora está confusa”

A impossibilidade desse tipo de aliança tinha sido exemplarmente tratada por Machado de Assis num conto como “O caso da vara”: na hora H, ou quando o pau come, ou um interesse mais específico está para ser alcançado, o jovem ainda impedido de ter opinião própria, mas socialmente mais bem colocado, não sai em auxílio, para sua própria decepção, da mucama que vê ser maltratada pela madrinha. Por sua vez e em nível mais grave, o memorialista Graciliano constata com horror como fora tomado de uma poderosa excitação, “uma viva sede de justiça. Nenhuma simpatia ao companheiro desgraçado, que se agoniava no pelourinho, aguardando a tortura (…). Conservei-me perto da lei”, torcendo pela punição de José, seu igual no entanto nos castigos, nos medos, na insignificância. Do gozo voyerístico ele passa à ação sádica e, tal como o estranho Fortunato, personagem de outro conto de Machado, “A causa secreta”, segura um rato por um barbante e lhe corta lentamente uma das patas, aproximando-o da chama, ele, aproveitando que o pai suspendia o rapazinho negro pelas orelhas e como que oferecendo seus préstimos, retira uma pequena acha do fogão a lenha e a encosta a um dos pés que se agitavam sobre sua cabeça.

Na narrativa seguinte, verdadeiramente tenebrosa, “Um incêndio”, o sentido da visão, e da visão indecorosa, continua a se destacar, mas aqui ela conduz o personagem ao reino de Medusa. O impossível moleque José o convida a ir ver o estrago causado pelo fogo num grupo de ranchos habitados por ex-escravos e descendentes. Em princípio, Graciliano tem o interesse despertado por duas coisas: por labaredas capazes de devastação maior que as da fogueira de São João e por conhecer finalmente as misteriosas cabanas, zona quase proscrita e mágica, onde moravam “diabinhos maliciosos”. Uma vez lá, horrorizado com os relatos e os tormentos dos sobreviventes, é pressionado por desejos contraditórios, abandonar de vez o lugar ou ir mais a fundo na pesquisa, que agora lhe parece mórbida. A última inclinação vence e o arrasta a contemplar o cadáver de uma moça esturricada por insistir em voltar à casa e apanhar uma litografia de Nossa Senhora. O que vê é o inominável: como o que uma vez fora humano pôde se reduzir àquilo, menos que animal, um barrote sem sexo, cabelo, pele, braços, pernas? O espanto talvez seja pelo que revela do próprio humano, da extrema fragilidade dessa organização chamada “humana”. Até esta altura, tão habituado com podas, inibições de todo tipo, suplícios físicos, não imaginara uma mutilação dessa ordem. Sentindo-se profanador, profundamente culpado por ter infringido um tabu que compreende agora como mais que necessário, favorável à própria vida, corre aos pais, aos quais não para de repetir o acontecimento, na espera ansiosa por um interdito, por uma punição dolorosa, que o ajudasse a silenciar em sua mente, pelo desvio de tônus, o desfile de imagens compulsivamente desatadas, além do princípio do prazer, como diria Freud. O castigo não vem, nem mesmo uma repreensão verbal, e é isso o mais assombroso para ele e para nós. Os pais retiram sem esforço a relevância do ocorrido, pois este se dera com uma preta anônima, que ao contrário do que parecia tivera sorte: por sua teimosia de última hora, ia agora saltar a etapa do purgatório e ir direto para o céu. A curiosidade do menino, que extrapolara o tolerável, com possíveis prejuízos para sua integridade psíquica, não é castrada como foram outros interesses — tão mais saudáveis para ele –, como aquele de saber se quem descreve o inferno cristão descreve o que viu efetivamente. O peso e a medida moral agora mudaram: não há o que lamentar, pois você viu o resto de quem foi preto, pobre, insignificante. Logo, você praticamente não viu nada. Por que se culpa? A criança agora está confusa.

Quando escreveu Infância e o publicou, já no fim da ditadura de Vargas, o autor já tinha passado pelo inferno da prisão em que foi metido sem processo e acusação formal, na onda de reações histéricas à Intentona Comunista. É bem possível que essa experiência tenha sobredeterminado a visão de seus primeiros anos, não propriamente a deturpando, mas colaborando para selecionar as situações e ajustar melhor, tornando-o mais aguilhoado, o vocabulário do terror, a meu ver a qualidade mais importante desse livro.


Priscila Figueiredo é poeta e ensaísta. Tem graduação em alemão e português na USP, onde faz o pós-doutorado na área de Teoria Literária. É autora de Em busca do inespecífico (ed. Nankin, 2001)Mateus (editora Bem-te-vi). Colaboradora de Outras Palavras.

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