O que torna um país uma potência?

por Reginaldo Nasser*, da Carta Maior

O sistema internacional do pós guerra-fria ainda está em processo de construção. Embora os EUA continuem desfrutando de recursos, mais do que qualquer outro país, dependem da importação diária de petróleo, suas forças armadas estão imersas em conflitos que estão longe de serem resolvidos e, o que é mais grave, já não conseguem obter consenso político para manter sua posição de liderança.

As alianças entre os EUA, Europa ocidental, Japão, Coréia do Sul e Austrália – já não são adequadas para abordar grande parte dos problemas do mundo. Configura-se assim a necessidade de novos parceiros, e as potências emergentes como China, India, Brasil têm o potencial de suprir esta necessidade. Goldman Sachs cunhou o termo BRIC (Brasil, Russia, India e China) no final de 2001 para denominar os mercados dos países em ascensão. A proporção do PIB mundial representada por esses países passou de 16% em 2000 a 22% em 2008, representam 42% da população mundial e por volta de 35% do crescimento econômico mundial nos dez últimos anos.

A revista The Economist lembra que, quando foi criada a sigla BRIC, o Brasil era visto como um lugar de instabilidade política e econômica crônica e, portanto, não parecia caminhar junto a esses “titãs em ascensão”. Nove anos depois The Economist avalia que “sob certos aspectos” o Brasil começa a ser visto de forma diferente dos outros países: é uma democracia consolidada, não tem insurgentes, conflitos religiosos ou hostilidade com os vizinhos, os investidores estrangeiros o vêm com respeito.

O que torna um país uma potência? Tamanho de seu território, população, forças armadas, tecnologia, economia ou a inteligência no uso do poder se inserir no mundo? No Brasil há uma tradição que considera a política externa unicamente como um meio para obter acesso aos mercados e recursos essenciais para o desenvolvimento. Mas, como observou Perry Anderson atualmente existe espaço para países com algumas credenciais praticarem políticas de mobilidade, exigindo um novo arranjo na ordem mundial existente.

Estudos realizados pelo Instituto de Desenvolvimento do Canadá estimam que recursos de cooperação técnica do Brasil para os países pobres aumentaram quase vinte vezes nos três últimos anos já se aproximando dos tradicionais doadores como a Suécia e Canadá. (The Economist, 15/07/2010). De acordo com esses estudos, diferentemente do estilo ocidental de ajuda que impõe condições aos seus beneficiários, a ajuda brasileira se concentra mais em programas sociais que de outros países como a China que financia estradas, ferrovias e portos em troca de acesso a matérias-primas. São ações de cooperação internacional que se realizam por meio do fornecimento de tecnologia e treinamento para a produção de medicamentos genéricos para o tratamento da Aids, regimes de transferência condicional de renda como Bolsa Família, e outras questões realcionadas à agricultura, pecuária, educação e desenvolvimento social.

Evidentemente que empresas brasileiras adquirem vantagens por apresentarem credenciais que as aproximam de outros países menos desenvolvidos permitindo que as iniciativas de assistência externa brasileira apresentem maiores chances de serem eficazes quando aplicadas. O Brasil é o maior produtor mundial de etanol limpo e pretende criar um mercado global do combustível verde. A disseminação da tecnologia do etanol para os países pobres cria novos fornecedores, aumenta as chances de um mercado global e gera negócios para empresas brasileiras.

Pode-se especular à vontade qual seria a intenção principal por trás desta ação do governo Lula, mas o fato é que esse novo “soft power” é mais um fator que permite o Brasil ter uma posição de destaque no momento em que os regimes internacionais estão em questionamento. Para que essa audaciosa estratégia adotada pelo governo brasileiro se sustente, deve obter apoio em amplos setores socialmente significativos internamente e ampliar as parcerias com novos poderes, portadores de novos valores, que pleiteiam um novo status nas relações internacionais. Creio que o presidente do Banco Mundial Robert Zoellick acertou quando disse que “as placas tectônicas da economia e da política estão se deslocando. As categorias, desatualizadas do Primeiro e do Terceiro Mundo, doador e credor, líder e liderado, já não servem mais”.

* Professor de Relações Internacionais da PUC-SP

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