Bizâncio, a imprensa e a marcha da história

A Parábola dos Cegos, de Bruegel

A Parábola dos Cegos, de Bruegel

por Theotonio de Paiva

Conta a lenda que Bizas, rei de Megara, cidade próxima a Atenas, havia consultado o oráculo de Delfos, para saber onde deveria construir uma nova cidade. O sacerdote fora inclemente na apresentação de seu enigma: Bizas deveria encontrar o lugar que fosse o lado oposto aos cegos.

E aconteceu que, enquanto navegava rumo ao nordeste do mar Egeu, ao chegar ao estreito de Bósforo, exatamente naquele lugar, o rei pôde entender o que o oráculo quisera dizer: na costa asiática havia uma cidade denominada Calcedônia, que pertencia ao mundo grego.

Excitado com a descoberta, ficou a cismar um bom tempo. De repente, uma compreensão completa daquela realidade lhe inundou a alma: os fundadores do lugar deveriam ser cegos, pois foram incapazes de avistar as terras do lado europeu, a menos de meia milha de distância. E inquestionavelmente elas eram muito melhores para a sua construção. Determinado, Bizas fundou ali sua cidade, e deu-lhe o nome de Byzantion, Bizâncio.

Perco-me nessa lenda tão arcaica enquanto volto às minhas modestas idiossincrasias e através delas começo a conjecturar sobre essa crise inominável da imprensa brasileira nos tempos que correm.

Diga-se de passagem, não são tempos funestos, principalmente quando se observa, como o antigo rei, a existência de um outro locus a partir do qual se possa ver e pensar o mundo. Fazemos parte de um país que se projeta a ponto de romper alguns velhos paradigmas e de se transformar paulatinamente em uma nação. Resulta daí que o princípio da coletividade começa a se dar em outros termos, inclusive naquele quesito – tosco para certos setores – no que diz respeito à auto-estima de um povo.

Distante vão os tempos em que o poeta sacramentava: “uma coisa é um país / outra um ajuntamento”. E vale a pena observar que não estamos tão longe assim de quando esses versos, publicados pela primeira vez, foram estampados no Caderno Especial, que saía sempre aos domingos, no Jornal do Brasil.

E não tenhamos ilusões. Embora fortemente dominado por diversas oligarquias, o que resulta ainda em perversas disparidades econômicas e sociais, é inquestionável que um novo projeto político se processa no país. Ainda que perdurem fortes concentrações de renda, uma estrutura fundiária pior do que aquela existente nos anos cinqüenta, e um sistema financeiro profundamente concentracionista.

Registre-se ainda que não se pode negar o significado de um grande número de cidadãos-eleitores terem deixado a pobreza absoluta. Não se pode negar também a ascensão de outros tantos à classe média, o registro de uma escolaridade maior, e, sobretudo, pelas falas das ruas, uma confiança de outra natureza, sem patriotadas, no país.

Não obstante, algo de anormal ocorre: tais temas não freqüentam as pautas das grandes mídias. É como se tais questões não existissem de fato, tampouco de direito.

Evidentemente pelos seus altos custos, a mídia faz parte da esfera do capital. Isso é irretocável. Mas é inquestionável o papel que ela passa a ocupar em nível mundial, nas últimas décadas do século XIX, e seus complexos desdobramentos como um projeto de poder, sobretudo a partir dos conflituosos anos 30.

Ao longo dessa transformação, a imprensa se distancia em ritmos intensos, espasmódicos, daquele ideal que a caracterizara inicialmente, quando seu objetivo maior era tornar público seu entendimento do mundo. Então, esse quadro é substituído por um outro, ainda mais complexo, em que os princípios da imprensa-comercial se sobrepõem à atuação política da própria imprensa.

Por conseguinte, alguns desses traços irão se diluir na concretização de uma esfera bastante original em que poderíamos observar uma espécie de luta simbólica dentro dos organismos midiáticos. Era a expressão por excelência de uma classe, sem dúvida, que se dissimulava enquanto opinião pública, assim como ocorre em várias outras práticas culturais, mas que, naquele jogo supremo comandado numa espécie de praça pública, apareciam as vozes discordantes, aqui e acolá.

Dessa maneira, seria comum percebermos, dentro de uma mesma publicação, uma espécie de jogo intelectual, em que jornalistas e pensadores de diversos calibres expressariam visões de mundo contrastantes e, mais ainda, nas próprias reportagens, seriam visíveis as elaborações de interesses e formulações distintas.

Estranhamente, há uma ruptura nesse processo na imprensa brasileira. Alguns autores e jornalistas divergem quanto ao seu momento mais exato, porém muitos deles compreendem que alguma alteração substantiva aconteceu. E é esse o quadro surpreendente que se tem hoje.

Praticamente sumiu aquele aspecto mediador, que enfeixava várias tendências políticas dentro do corpo de um jornal, por vezes, até mesmo dentro de uma emissora de televisão. Poderão arguir que outrora existiam aquelas publicações voltadas exclusivamente para um determinado segmento político-ideológico. Mas isso deixara de ser realidade há muito tempo. E sempre fora o particular dentro do geral, enquanto hoje parecemos estar diante de uma espécie de ocultação da diversidade do pensamento.

Assim é que nos aventuramos por outras regiões mais profundas, quando, ao percebermos que aqueles princípios ditados pela ordem dominante se confrontam com a constatação empírica da realidade, com novos atores sociais, grupos diversos de discussão, propostas ousadas de criação e desenvolvimento da sociedade e das mentalidades. Coincide, paradoxalmente, a despeito daquele velho processo de formação de consciência, que a antiga mídia conseguiu desenvolver sabiamente com o objetivo de atingir, em especial, as grandes massas urbanas.

Esse transcurso se desenvolveria sem que houvesse nenhum contraponto mais efetivo não fora a mídia alternativa presente na grande rede. Nela podemos constatar diversas forças a se mobilizarem com relação ao funcionamento de uma nova disposição no tabuleiro em que as representações dos atores sociais passam a ser capturadas simbolicamente de um modo diverso.

Por conta desse quadro bastante complexo, torna-se interessante especular sobre as motivações reais dos grandes donos da mídia, na construção e manutenção do seu projeto de supremacia nos nossos tempos.

Primeiramente somos levados a observar uma condição a merecer atenção redobrada. Embora procurem estabelecer uma espécie de ilusão platônica da realidade, ao se imaginarem empenhados desde tempos imemoriais pela liberdade de expressão, por que se esquivarem a ponto de suportar qualquer confronto de ideias, na medida em que se constituía um simulacro de hegemonia e indignação?

Poderíamos imaginar que um diálogo capaz de pavimentar um novo aporte discursivo, talvez fosse mais prudente. Em suma, um confronto digno do termo – o encontro face a face. Nele, a própria mídia poderia compreender dialeticamente e elaborar com mais sabedoria o choque inevitável com as novas tecnologias, as novas mídias, e conteúdos diversos. Notadamente poderia acomodar instâncias contrárias, através da percepção da outra volta do parafuso. No entanto, não é assim que se delineia um futuro de curto alcance. E quem chancela é exatamente um passado recente.

Ao se encaminharem por um quadrante norte de terríveis contradições, na base da exploração primária de denúncias que, muitas delas, não se comprovam, do enxovalhamento da vida e da honra de cidadãos dos mais diversos ofícios e lides, o que deverão supor? Que comprometimentos com a fortuna crítica conseguirão pavimentar daqui por diante? A resposta talvez seja que não há fortuna, nem virtú. E mais grave: talvez nenhum comprometimento com uma realidade plural e democrática.

Provavelmente deverão se mostrar satisfeitos com tais resultados. Caso contrário, não se comportariam reincidentemente com a virulência e a ignorância primária de determinadas assertivas desajeitadas, que somente conseguem sobreviver como moscas, em sua brevidade e insistência.

Por conseguinte, cabe aqui uma outra questão: quais os motivos mais subterrâneos desse ethos bélico?

Talvez os donos dos jornais e revistas – diria um personagem criado na escola do gosto sardônico – queiram simplesmente liquidar a fatura dos seus impérios midiáticos. Talvez até pudesse ser verdade. Mas qual a lógica por detrás desse desmonte? Apenas a queima de notas que julgam falsas? Não. Há uma outra questão cuja obviedade, aliás, como acontece frequentemente com as obviedades, nos escapa.

As perdas são evidentes. O número de cancelamentos de assinaturas, queda nas vendas e redução do market share, só são menos equivalentes ao descrédito. Como numa experiência mitológica, passou-se a discursar em meio a um labirinto, para uma audiência cada vez mais e mais restrita, apesar do seu fôlego de gato de sete vidas. E, então, o que resta como fator determinante, a gerar tão manifesto incômodo? Duas grandes vertentes se apresentam. A primeira delas é a possibilidade de uma reestruturação, através do Congresso, do papel das comunicações. Essa talvez seja a questão de fundo. Primordial.

A abertura do capital para grupos estrangeiros, o problema grave da distribuição das concessões de rádios e jornais, enfim, a discussão da concentração de poder midiático foram capazes de se tornar o eixo central, por vias transversas e em níveis tão letais, de uma campanha presidencial, que se desenvolve conjuntamente a uma série de renovações pelos estados, com a eleição de governadores, além da profunda transformação das duas casas legislativas. Por qual motivo isso veio a acontecer? E mais: o que essa representação nos informa? Tudo se passa como se a fala objetiva escondesse uma outra disputa em que estivesse em jogo, a bem da verdade, um cartório midiático que se mantém intocável, contrariando uma expectativa de modernidade e um outro projeto de nação.

No caso, pouco importa a explosão da bolsa de São Paulo, cujas negociações saltaram de R$ 200 bi, segundo os índices de 2003, para dois trilhões por ano. Isso não significa nada para a grande mídia se o eixo do atual (e muito provavelmente do futuro) governo apontarem para a democratização dos meios de comunicação.

Essa é a motivação suprema da fala imperial dos meios porquanto, diante de um quadro de melhor distribuição da verba publicitária federal, deixou de concentrar 90% da verba pública na maior rede de televisão do país, segundo dados oficiais, para algo próximo da metade.

Tal condicionante dramática opera quando o governo, no mesmo período, passa a anunciar em 5 mil veículos de comunicação, deixando para trás um espectro dez vezes menor, desobedecendo conscientemente às regras tradicionais de um mercado que vê a coisa pública exclusivamente como uma empresa, com dono e gerente.

Em termos concretos, isso equivale a pensar na reserva de R$ 700,4 milhões, o maior valor destinado a informar a sociedade sobre medidas adotadas pelos órgãos públicos nos últimos anos. Não faz parte do levantamento a previsão de despesas com publicidade das estatais e sociedades de economia mista, como Petrobras e Banco do Brasil, considerada mais volumosa. Em ordens de grandeza, é oportuno os termos comparativos, quando se sabe que os 15 maiores anunciantes privados investiram R$13,2 bilhões em publicidade em 2009.

Aquilo que até bem pouco tempo era compreendido dentro dos limites da academia extravasa e se democratiza, através de dezenas de blogs e portais, como uma discussão da ordem do dia. Ainda acham pouco? Ocorre ainda o devassamento da lógica das empresas jornalísticas muito além dos jardins frankfurtianos. Ela passa a ser objeto de observação, pelos próprios jornalistas, cujos dados impressionam pela objetividade e força de testemunho. Não se trata mais de uma percepção teórica, algumas notáveis, porém distantes daqueles elementos mais palpáveis de uma realidade específica.

Ora, dentro dessa nova ordem de coisas, o que acontece com os donos da mídia? Serão cegos? Cegos a guiar outros cegos, assim como na parábola?

Já que falamos, no início, de tempos pretéritos, a Idade Média, que nos brindou com essa imagem, magistralmente eternizada por Bruegel, nunca foi uma época apenas de trevas, a não ser aos olhos dos iluministas que desejavam execrar a Igreja e de alguns intelectuais ofuscados pela expressão clássica. O que quero dizer com isso? Cada período da humanidade possui o seu contraditório. Desprezar essa máxima, ainda que isso gere ganhos imediatos incalculáveis, provavelmente destruirá algumas das experiências mais significativas da modernidade.

Mas talvez seja isso mesmo. A história é maior do que os homens e a consciência gerada numa determinada época, em cada grupo social se manifesta de modo diverso, soa brilhantemente como um traço a dividir os homens entre aqueles que compreendem com maior ou menor lucidez a sua própria contemporaneidade.

Este artigo encontra-se publicado no portal Outras Palavras

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3 pensamentos sobre “Bizâncio, a imprensa e a marcha da história

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