A década da América Latina

por Maurício Santoro

América Latina

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Chegou o momento da América Latina. Com cerca de 30% da reserva de água doce do planeta, 25% das terras cultiváveis, 15% do petróleo, crescimento econômico em ótimos níveis e políticas sociais que ajudaram 40 milhões de pessoas a saírem da pobreza nos últimos anos, a região se tornou uma excelente opção de investimento. A Economist publicou dias atrás um ótimo especial sobre a situação do continente, que destaca sobretudo os pontos positivos, embora chame também a atenção para os problemas mais sérios (instabilidade política, riscos à democracia, crime, baixa capacidade de inovação, péssimos serviços de educação e saúde). A revista prevê que os próximos dez anos serão a “década da América Latina”.

O Brasil representa, sozinho, em torno de 40% do PIB e 30% da população da América Latina. O país tem, de fato, particularidades muito pronunciadas com relação aos vizinhos: um Estado maior, mais forte e organizado, com diversos centros de excelência. Um conjunto significativo de empresas multinacionais. Pólos de tecnologia avançada. Dependência menos acentuada de recursos naturais (veja a tabela abaixo para conferir o quanto o problema é sério na região). Somemos a isso o idioma português e a história inusitada, por conta da transferência da monarquia portuguesa no início do século XIX. O Brasil é um global player, um BRIC, uma potência emergente, e ainda não está claro como será a relação do país com a integração latino-americana – seu comércio exterior, por exemplo, já é maior com a Ásia do que com a região.

Dito de outro modo, os demais países latino-americanos em geral enfrentam os desafios do desenvolvimento de maneira mais arriscada do que o Brasil, ainda que se possa argumentar que em muitos aspectos sociais, países menores como Chile, Costa Rica e Uruguai apresentam indicadores tão melhores que podemos especular se não estão a caminho de se tornarem nações desenvolvidas, com patamar que qualidade de vida semelhantes ao do sul da Europa.

A pergunta que mais me interessa é como serão organizadas as democracias latino-americanas. Existe, claro, um repertório de instituições e práticas que são parecidos no mundo todo: eleições, parlamentos, tribunais etc. Mas a região tem desigualdades étnicas e sociais muito grandes – as maiores do planeta, na realidade (abaixo). Historicamente esse tipo de configuração tem estimulado governos autoritários e personalistas, que não estão ausentes do continente, mas agora convivem com inovações e outras tradições, principalmente no âmbito de movimentos sociais de base, de organização comunitária.

Estou justamente envolvido numa série de pesquisas que dizem respeito, em maior ou menor grau, à democracia. Acredito que a América Latina virou uma espécie de laboratório a céu aberto de novas práticas democráticas, que complementam e reforçam as instituições representativas tradicionais, gestadas nos EUA e na Europa. Se vem por aí uma década latino-americana na economia, veremos também muitas novidades na política. Algumas delas, quem sabe, serão muito boas.

Fonte:  Todos os fogos o fogo

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