A queda de Allende

Caderno ENSAiOS publica o último discurso do presidente chileno Salvador Allende.

Entremeamos essa fala histórica com o documentário Salvador Allende – La caida de un Presidente, de Pablo García, que põe a nu a trama golpista iniciada muito antes que o presidente eleito tomasse posse efetiva do cargo.

Numa narrativa dramática, contada através de imagens da época, algumas delas bastante raras, o filme mostra-se capaz de promover ainda hoje um grande impacto.

Durante o seu desenrolar, podemos compreender melhor o significado, em 1970, da eleição do candidato socialista e todos os desdobramentos que um governo popular na América do Sul promoveria naquela situação histórica.

Mais ainda: fica evidente o quanto o golpe militar, implementado três anos após, em 11 de setembro de 1973, com a ascensão do General Augusto Pinochet à presidência, se reverteria numa tragédia sem precedentes para a  história daquele país.

Seguida de uma perseguição sem limites aos setores populares e tradicionais de esquerda, a frustração decorrente do suicídio de Allende, no Palacio de la Moneda, provocaria abalos profundos por todo o continente.

A ação da imprensa na época, aliada à orquestração política das oligarquias, com a assimilação desses vetores golpistas pelos setores médios da sociedade, produziriam um cenário vitorioso para um controle mais evidente dos Estados Unidos na condução do seu projeto imperial na geopolítica sul-americana.

Certamente esta é a última oportunidade em que me dirijo a vocês. A Força Aérea bombardeou as torres da Rádio Postales e Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas o castigo moral para aqueles que traíram o juramento que fizeram: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodenominou comandante da Armada, o Sr. Mendoza, general desprezível que somente ontem manifestara a sua lealdade ao Governo, e igualmente se autodenominou Diretor Geral da Polícia. Perante estes fatos, só posso dizer aos trabalhadores: eu não vou renunciar! Situado em uma transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E eu digo que tenho a certeza que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não será ceifada definitivamente. Eles têm o poder, eles podem nos dominar, porém não se detêm os processos sociais, nem com o crime, nem com a força. A história é nossa, e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra de que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez. Neste momento definitivo, o último em que eu posso me dirigir a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação, criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, aquela que lhes ensinou o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que agora estará em suas casas, esperando para tomar o poder a fim de seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me, acima de tudo, a mulher simples de nossa terra, a camponesa que acreditou em nós, a avó que trabalhava mais, a mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição patrocinada por associações profissionais, escolas de classes para defender igualmente as vantagens de uma sociedade capitalista de uns poucos.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo já se faz presente há muitas horas; nos atentados terroristas, explodindo pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A história vai julgá-los.

Provavelmente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará a vocês. Não importa. Continuem ouvindo. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal ao seu país.

O povo deve defender-se, mas não sacrificar-se. O povo não deve se deixar ser destruído ou crivado de balas, tampouco deve humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens superarão este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Tenham em mente que, mais cedo ou mais tarde, de novo se abrirão as grandes avenidas, por onde passam os homens livres, para construir uma sociedade melhor.

Viva Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

Tradução: Theotonio de Paiva

Após realizar essa postagem, li o belíssimo texto de Ildeber Avelar, 11 de setembro, 37 anos: Allende vive, cuja experiência pelo Chile emociona de um modo muito especial. Lá, você poderá encontrar ainda o vídeo La Batalla de Chile, de Patricio Guzmán.

Anúncios

2 pensamentos sobre “A queda de Allende

  1. Pingback: A queda de Allende « Caderno ENSAiOS | Info Brasil

  2. Pingback: A queda de Allende « Caderno ENSAiOS | Info Brasil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s