Vargas e o fio vermelho

Por Theotonio de Paiva

Da série Pequenos Apontamentos noturnos

Naquela hora em que acordei pela manhã, ele já estaria morto. Há muito tempo que me via realizando aquela ação. Sempre da mesma forma, como num ritual. Talvez fosse alguma forma concebida anteriormente de cumprir aquelas exéquias tardias. Precisava retornar ao quarto em que ele se matara. Um tiro. Um tiro no peito. A morte como um espírito de libertação. Mas o que isso efetivamente significa? Estou aqui em seu quarto. E isso remonta há um ano ou mais. Passeio os olhos pela carta. Não por aquela que se tornaria famosa, citada em diversas obras, algumas de significativa relevância, e mais ainda em livros escolares, páginas de jornais que se rendem a escandir (tortas) homenagens, e por aí vai sem mãos a medir. Porém, uma outra carta, escrita no início do ano de sua morte, em que ele legava aos trabalhadores a sua herança mais expressiva, espécie de resíduo de um petardo cuja contaminação iria se projetar longamente no tempo. Por qual motivo? Que intenção manifesta aquele homem se obrigara a escolher a fim de promover uma determinada qualidade de espólio político a ser transmitido a outras gerações? Mas quem escrevera aquilo comandara em outros tempos talvez a mais sangrenta ditadura do país. Graciliano deixaria um testemunho insofismável junto às gretas de sua cela. E o enigma se apresenta ainda mais difícil de interpretar. Quando parecia que a sua “maldita” herança estivesse morta, ela continuaria a se projetar na condição de um mito redivivo que a nação se apresenta ávida por escandir as palavras. Estas se deixam transparecer numa forma ambígua, como o seu personagem inspirador. Que mistérios rondaram afinal aquela noite? Que sentimentos notáveis foram capazes de promover? Aqueles homens que, durante a noite, enquanto se desenrolava a reunião no palácio, clamavam pela sua morte no lado de fora, iriam se desfazer em prantos como meninos diante de uma cena em que a morte do grande pai se desenharia integralmente. Que explicação pode ser oferecida a propósito? Infantilidade emocional, política, de um povo? Muito provavelmente. Mas restringir qualquer análise a esse princípio é enveredar por caminhos distantes daqueles que podem nos levar a conhecer a alma coletiva desse mesmo povo. Lembro de um relato que me marcara profundamente, cujo autor sabidamente a historiografia oficial tratou de esquecer. Em suas memórias, Uma vida em seis tempos, Leôncio Basbaum, médico de formação humanista e militante do velho PCB, ingresso no partido num período anterior à entrada de Prestes, revelava o seu espanto frente àquele acontecimento monstruoso que parecia ter revirado pelo avesso o sentimento coletivo de todo o país. E especialmente na cidade do Rio de Janeiro. Uma multidão incalculável acompanharia o féretro, visivelmente compungida pela morte de Vargas. Nada. Nada parecia ter condições de aplacar a dor. Talvez apenas aquelas palavras incrustadas na memória de uma gente que, por muito tempo ainda, viria a caminhar com o sentimento de orfandade, espectro de um mundo, quando esse mundo, já sendo um outro, pareceria então se reconstruir. E aí, não mais através daquela esperança mítica de redenção, porém a partir de uma tentativa de ação presente de um povo.

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