A ilusão e a política

Por Mauro Santayana

Como toda linguagem é imprecisa, e nos aproxima mais ou menos daquilo que pensamos, há vocábulos que podem ter dois ou mais significados. É esse o caso de ilusão. Em sua origem latina, ilusão é engano. Eu tanto iludo o outro, quanto o outro me ilude, mas – e isso é mais importante – também me iludo.

A vida é, como tantos já disseram, apenas ilusão, sonhos que se realizam ou não, mas, no intervalo entre o nascimento e a morte, um grande e único sonho. “La vida es sueño, y los sueños, sueños son” – assim medita Calderón de La Barca, pela boca de Segismundo, príncipe polonês.

Mas na grande ilusão, que é a vida, há ilusões menores. A ilusão do poder, a ilusão da riqueza, a ilusão da glória, ou de sua irmã mais pálida, a fama. Na base dessas ilusões há um sentimento respeitável, que é o da busca do reconhecimento. O mundo é cheio de pessoas iguais, e é aceitável que todos nós, diante da inevitabilidade da morte, aspiremos a nos destacar, sair da multidão, chegar à luz, mostrar quem somos. Uns, certos do Eterno, tornam-se santos, outros, mais práticos, buscam o enriquecimento, e há os que ambicionam o poder político.

A vida nos ensina que não é muito difícil construir destinos marcantes, desde que estejamos dispostos a alienar grande parte de nossa alma a esse objetivo. Isso tanto vale para os santos quanto para os gângsteres. Os eremitas ganham com a solidão, mas também perdem. Não conhecem as alegrias da amizade, nem as recompensas do amor. Os gângsteres não podem descuidar-se um segundo, prisioneiros que são do medo.

A política é o território preferido das ilusões. Como a loteria, ela se alimenta das caprichosas probabilidades. Alguns querem eleger-se pelo reconhecimento de que se julgam merecedores. Outros, pensando realmente em aproveitar a oportunidade de corromper-se e de extorquir. São os corruptos vocacionais. Muitos nisso fazem carreira, iniciando-se como modestos servidores e, de golpe em golpe, até chegar à cota mais alta do Estado. Essa ilusão perversa, felizmente, não ocupa todo o espaço da ambição política. Há outras ilusões, como a de realmente servir à sociedade com seu talento, seu trabalho, seu saber. Essa é a verdadeira política, a de, no exercício da ética, ser solidário, fazer do sonho, que é a vida, um sonho bom. E há a ilusão perdoável, que move muitos dos pretendentes, de sair do anonimato mediante a campanha: de ver seu próprio nome associado a dois ou três adjetivos lisonjeiros, de ver a sua imagem nos cartazes e na televisão e de ouvir a própria voz. Esses sabem que é improvável a vitória e se consolam com a efêmera glória da simples pretensão. No fundo, no entanto, há sempre o impulso da ilusão: os números finais podem combinar-se, como nos resultados da loteria.

Como todas as campanhas, esta é plena de ilusões perdidas, e elas são evidentes. O bom candidato é aquele que encabresta as suas esperanças, domina-as com ceticismo, a fim de conduzi-las pelo melhor caminho. Mas se as ilusões dos candidatos são perigosas, mais perigosas são as do eleitorado. Muitas vezes aqueles que nos encantam com seu proselitismo acabam por trair as esperanças nacionais – e os que não nos parecem os mais capazes despertam-nos para fazer pátria. Não é preciso recuar muito no tempo. Basta pensar nos últimos 20 anos – e nos quatro presidentes que tivemos. Em Collor e Fernando Henrique; em Itamar e em Lula.

Fonte: Jornal do Brasil

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