Homer e a casca de noz

O texto a seguir, meu caro leitor,  é absolutamente chocante. Foi publicado há quase cinco anos na Carta Capital. E é capaz de embasbacar até o mais empedernido dos conservadores. Que isso! Digo mais: o mais crente dos homens! Daquela distinta linhagem que ainda observa  compungido a verdade sacrossanta que chega aos lares brasileiros, às 20h15 min, impreterivelmente.

De lá para cá, a presente análise, escrita pelo Prof. Laurindo Leal Filho, circulou nos principais portais, sites e blogs. Rodou através de e-mails,  foi discutida em pequenos grupos, a bocas escancaradas de bestificação. Esteve se insurgindo em salas de aula, em encontros pouco recomendáveis, até virar uma espécie de lugar comum junto a comentaristas dos mais variados pendores. E como todo lugar comum  também ele se torna perigoso, pois passa a ser sempre citado, mas jamais lido.

Além do mais, acontece que tem sempre gente nova chegando no pedaço.

Já dizia um velho filósofo: o que seriam das velhas piadas se não fossem os recém-nascidos. A frase é absolutamente manjada. Porém, se não a conhecia, leitor circunspecto, foi justamente pensando em você que esse post foi ao ar.

E o que ele nos informa? A bem da verdade, precisamos distinguir o seguinte: estamos diante de um breve “recorte”.  Uma pequena amostra da hidra de sete cabeças. E, assim, diz pouco. No entanto, mesmo em suas limitações, nos diz muito.

Apresenta de modo estarrecedor um relato aparentemente simples: uma visita de professores da mais importante universidade do país à maior rede de televisão do Brasil. E como se pauta e se constrói o Jornal Nacional.

Essa é a aventura.

Uma louca aventura? Não. A aventura de um desconhecimento, de uma inversão incondicional da sua própria função.

Aliás, diga-se de passagem, todo esse fenômeno se dá dentro de uma concessão pública. Que curioso, não é?

Ouço daqui uma objeção do leitor.

Ora, meu caro, é sempre bom recordar esse pequeno detalhe. Afinal, recordar é viver!

E quanto mais não seja,  a cantilena faz parte daquelas obviedades, e como toda a obviedade tende a ser esquecida.

Mas o que aflige tanto no texto? Do que ele fala?

Talvez nada.

Talvez seja uma pequena bobagem que passará despercebida dos seus lindos olhos, leitora.

Talvez não.

Mas procura reparar no seguinte: aquele que constrói um mundo acintosamente idiotizado carrega dentro de si um complexo de fantoche: pensa que pensa sobre o real a partir da sua privilegiada casca de noz.

Se tudo isso, ou apenas uma modesta parcela, te agradar,  fino leitor, pago-me da tarefa.

Boa leitura.

DE BONNER PARA HOMER
Por Laurindo Lalo Leal Filho*

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático ‘bom-dia’, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. ‘Essa o Homer não vai entender’, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos – atender ao Homer –, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas ‘praças’ (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela ‘praça’ de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da ‘oferta’ jornalística informa que a empresa venezuelana, ‘que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível’ para serem ‘vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano’. Uma notícia de impacto social e político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela ‘praça’ de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. ‘Esse juiz é um louco’, chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.

Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês – matéria oferecida por São Paulo –, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. ‘Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS’, ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre ‘a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública’. Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac – o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.

* Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP

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4 pensamentos sobre “Homer e a casca de noz

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  3. Como sempre vemos brotar, a nossos olhos, de Segunda a Sábado, aqueles que se dizem o “Olhar da Sociedade”. Infelizmente o Homer, da Globo, é o Pateta (FIÉL), da Record, e os “Merdas. Mais baixos na escala do trabalho”, como diz Bóris Casoy, da Band. Estamos cercados por um olibopólio noticioso que “tenta” pensar por nós. O que nos salva, atualmente, é a internet. Terra ainda não ocupada pela desrespeitada constituição Brasileira. Ótimo texto.

  4. a leitora conhecia o artigo já clássico do lalo… e gostou bastante da sua introdução, theo.
    a história se repete, se repete, se repete, né?
    poderiam ser, pelo menos, um cadinho imparciais… mas acho que seria pedir demais!

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