Biscoito fino: Vindicação de Joaquim Barbosa

Alvíssaras! O Caderno ENSAiOS se sente profundamente entusiasmado com a notícia da “reinauguração” do Blog O Biscoito fino e a Massa. Um dos melhores e mais antigos blogs de que tenho notícia. Para prestar a nossa homenagem, publicamos o texto de Idelber Avelar sobre a polêmica causada a partir de uma caganifância atribuída ao Ministro Joaquim Barbosa. Por qual motivo? Boa leitura!

por Idelber Avelar

Se você acha que a matéria do Estadão sobre o Ministro Joaquim Barbosa e a reação raivosa que ela estimulou em (felizmente limitadas) comarcas não tem absolutamente nada a ver com raça, nada a ver com o Ministro ser o primeiro negro da Suprema Corte deste país de negros e mestiços, se você realmente acha que o órgão de imprensa da família Mesquita–quero dizer, dos credores da família Mesquita–não estava mandando um recado, chamando a atenção do negro desobediente que ousou (em licença médica por não poder sentar-se) ser visto de pé num bar, se você, de verdade, acha que o episódio em nada se relaciona com nosso clássico racismo cordial, se você pensa que essa inédita invasão da privacidade de um ministro do STF não tem nada a ver com Barbosa ser negro, aí, caríssimo leitor, só resta a este blog pedir-lhe que pingue um colírio, esfregue os olhos e mire de novo o seu entorno. O episódio é o suprassumo do classismo racista de uma elite que esperneia de forma tão desproporcional à (infelizmente limitada) perda de privilégios que experimentou sob o governo Lula. Como o Deputado Brizola Neto já se fartou de demonstrar acerca de outras matérias neste ano de aposentadoria do Biscoito, a matéria do Estadão é mais um episódio de porcalismo feito sobre um factoide, um nada, mais um capítulo da putrefação desse lixo que ainda responde pelo nome de “os três jornalões”.

A matéria do Estadão foi publicada sem que o jornalista ouvisse o Ministro ou entrevistasse fontes ligadas a ele, coisa que eu pude fazer em questão de minutos, sem estar vinculado a qualquer grupo de mídia, munido só de internet e fone, a milhares de quilômetros do Brasil. O problema médico do Ministro Barbosa o impede de sentar-se, posição em que sente muita dor. Ele foi visto em pé, num bar, e a fotografia mal intencionada não conseguiu sequer registrar o acompanhamento da cachacinha que permitiria à reporcagem aludir ainda mais diretamente ao mito racista que a sustenta, o do neguinho rebelde e indolente que ousa tirar uma folga médica, que tem a petulância de viver sua vida enquanto se trata.

Joaquim Barbosa é aquele que disse algumas verdades a Gilmar Mendes, e é também o relator do processo do chamado mensalão, condição na qual chegou a ser incensado pela insuspeita Veja. Nem o mais delirante pefelê diria que não tem sido um magistrado rigoroso. Agora, que a estratégia já não é incensá-lo, mas fritá-lo, o jornalismo do Estadão descobre que há casos acumulados com juízes do Supremo, que há lentidão no Poder Judiciário brasileiro, que existem–oh, céus!–processos na gaveta. É uma piada pronta comparável a um adversário de Sarney ser condenado no Maranhão por abuso de poder econômico.

Na nota de Joaquim Barbosa à imprensa, ele foi menos incisivo do que poderia ter sido, a exemplo do histórico mas tímido direito de resposta do PT à Veja. Ambos se limitaram à defesa, quando poderiam (até juridicamente falando) ter atacado. Nenhum dos dois, evidentemente, chegou aos calcanhares do melhor direito de resposta de todos os tempos. Este blog não os culpa por isso. A conjuntura hoje é diferente da época em que Brizola conseguiu fazer valer o direito de enfiar a verdade goela abaixo da Globo.

Curiosamente, não há nenhum jornalista brasileiro que tenha feito o levantamento de quantos processos estão parados nas gavetas dos outros nove membros do STF, já que o grande escândalo era o backlog de Barbosa. Mas o texto do Ministro Joaquim é suficiente para que confiemos: ele não vai se calar. Ele sabe que seu papel é epocal. Este blog, que tem longo histórico de dar seus pitacos não-especialistas sobre matérias referentes a Direito e Justiça, presta ao Ministro Barbosa sua solidariedade e convida o jornal da família Mesquita–digo, dos credores da família Mesquita–a considerar a possibilidade de que um pedido de desculpas, em editorial, esteja na ordem do dia.

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