A Batalha de 5 de maio (*)

Seria provavelmente a maior injustiça que eu poderia cometer comigo mesmo: ignorar as imagens épicas sobre a batalha do Flamengo contra o Golias, numa crônica brilhante do Marcelo Salles. O texto é de um rigor e uma construção digna de um Nelson Rodrigues. A grande distinção em relação ao dramaturgo, tricolor fanático, é a modesta inversão de polaridade futebolística. Por sinal, acredito firmemente, Marcelo Salles leva a melhor.

por Marcelo Salles

Durante a semana não se falou de outra coisa. O jogo de volta entre Flamengo e Corinthians era motivo de comentário nos bares, nos escritórios, na imprensa e até nas igrejas do país inteiro. Com justiça. Divina.

Amigos, esta não foi apenas mais uma partida de futebol. Não foi mais um jogo entre dois times que lutam para avançar num dos campeonatos mais disputados do planeta. Não. Flamengo e Corinthians protagonizaram uma batalha épica, bíblica, que envolveu multidões na noite desta quarta-feira, o memorável 5 de maio de 2010.

O Corinthians começou no ataque. Precisava da vitória a qualquer custo, pois havia sido derrotado por 1 x 0 no jogo anterior. Até que no primeiro duelo entre David e Golias, prevaleceu o gigante. O zagueiro do Flamengo falhou e Ronaldo raspou a mão na bola para desviar do goleiro, sem que o juiz visse. 1 x 0 Corinthians. Minutos depois, o segundo duelo entre David e Golias. Ronaldo se posicionou melhor dentro da área, recebeu o cruzamento e cabeceou para marcar: 2 x 0 Corinthians.

A torcida corintiana não parava de cantar, era uma festa só. O grito constante, como não poderia deixar de ser numa batalha bíblica, tinha forte conotação religiosa: “Todo poderoso timão”, repetiam os torcedores, em voz grave e vagarosa, como a evocar os templos mais obscuros da Idade Média. O seu Golias era entoado em verso e prosa. Aquele que havia sido tão injustiçado, finalmente provara o seu valor, diziam os torcedores paulistas. Como um time que se classificou em primeiro poderia ser desclassificado pelo último lugar do campeonato?

A essa altura, amigos, os corintianos já comemoravam a classificação. Nas arquibancadas do Pacaembu, os apitos soavam. Eles, os apitos que a imprensa paulista apontava como a grande arma secreta da Batalha de 5 de maio. O Flamengo pegava a bola e 40 mil apitos ensurdeciam os jogadores rubro-negros. E assim terminou o primeiro tempo, como se o barulho pudesse vencer a harmonia.

O comentarista da TV Globo, Casagrande, bem que tentou avisar, sem disfarçar a torcida para os paulistas. “O Corinthians tem que aproveitar antes que dê o intervalo e o técnico do Flamengo conserte a equipe”.

Não deu outra.

O Flamengo voltou para o segundo tempo com o espírito da tempestade rubro-negra. Aquele espírito que baixou no primeiro jogo, com a enchente que alagou o Maracanã. Um espírito inexplicável para os simples mortais, um espírito que só quem tem sangue-rubro negro consegue entender.

E se vocês não acreditam que este foi um jogo bíblico, leiam a passagem 13.1-813 dos Coríntios: “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei”? É, amigos, pois vos digo que foi ele, Vágner Love, a personificação do amor, que invadiu a área pela ponta esquerda, como um raio celeste, e marcou o gol da classificação rubro-negra.

Ele, Vágner, que também tem nome de um dos maiores músicos do planeta. Ele, Vágner, que com sua maestria calou 40 mil apitos. O barulho vulgar, monótono e triste que emanava das arquibancadas deu lugar aos cantos da torcida mais espetacular do mundo. Vágner, com sua dança mágica, enraizada nas favelas do Rio de Janeiro, não elevou apenas a alma humana. Na Batalha de 5 de maio, Vágner elevou o time carioca às alturas, ao mesmo tempo em que entregou aos adversários a excomunhão do altar da arrogância.

O Flamengo, de novo, jogou como quem quer ser campeão.

(*) Dedico este artigo ao amigo, escrevinhador e grande Jornalista Rodrigo Vianna. Ah, e que por acaso é corintiano.

Publicado originalmente em seu site Fazendo Media.

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2 pensamentos sobre “A Batalha de 5 de maio (*)

  1. theo,
    me lembrei do livro do roland barthes, fragmentos do discurso amoroso.
    pois é… é isto… o amor pelo flamengo se encaixa neste discurso amoroso… um amor que tem explicação prá tudo… para a derrota… para a vitória… para a alegria… para a tristeza…

    é uma forma de amor que sempre, sempre vale a pena, ainda que, às vezes, as alegrias sejam adiadas… pelo adversário… uns arrogantes, eles! sempre!

    (já assinalei ali embaixo no comentário anterior e estou fazendo de novo)

  2. theo, theo…
    como é que vou te dizer… esta paixão pelo futebol, pelo flamengo, é uma coisa tão, mas tão épica, que não tem crônica capaz de traduzir esta paixão.

    por tradição paterna sou flamengo. não vi o jogo. mas haja paixão. em cada torcedor. de qualquer time. é algo tão forte que não tem explicação. nem para o mais fanático rubro-negro. ou corintiano. ou vascaino. são todos um só! nivelados pela paixão sem explicação.

    é a crônica de um homem apaixonado pelo futebol e louco desvairado na paixão pelo flamengo.

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