Memória: enchentes Rio 66

Essas são imagens raras da TV Globo. Expõem a cidade do Rio de Janeiro em meio às fortes enchentes de 66.

Naquela década, o Rio sofreu por dois anos seguidos, no período do alto verão, duas grandes enchentes.

A primeira está retratada nessas imagens. A outra viria a acontecer no ano seguinte.

Não havia áudio. Era tudo em película e o áudio era apenas dos comentários dos apresentadores ao vivo.

Os primeiros minutos mostram o Jardim Botânico e depois Santa Teresa.

Em seguida, o olhar de uma câmera muda, nos apresenta um morro. Nos parece aquele que fica na subida da Grajaú-Jacarepaguá, no outro lado da cidade.

Mais para a frente vemos um prédio antigo, provavelmente a abrigar alguma instância de governo.

Lembra algum palácio de governador, de alguma província da América Latina. Nele, cremos firmemente ter notado a presença de Porfírio Diaz.

Trata-se de uma cidade significativamente diferente. Não apenas pela própria transformação urbanística e histórica, mas igualmente pela atmosfera em que se vivia na época e se vive hoje.

Sob o impacto de uma tragédia, as imagens  nos ensinam bastante sobre o Rio de Janeiro.

São os seus carros antigos, lotações, seus bondes elétricos fechados, que circulavam em algumas ruas estreitas.

As roupas acanhadas das gentes afiguram-se como tímidas silhuetas de um tempo perdido.

E, acima de tudo, o arrasamento brutal de um grande parque ecológico que insiste em abrigar uma metrópole.

Ruas completamente enlameadas, casas destelhadas, prédios inteiros em escombros.

Áreas de risco que parecem emergir de um tempo arcaico, cuja dimensão histórica entretanto não vai além de algumas décadas.

E a força de uma solidariedade humana capaz de sobrepujar-se ao terrível, quando sob o aspecto de uma  situação intimidadora.

E sobretudo a memória afetiva de uma cidade com a sua dor e seus mortos.

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3 pensamentos sobre “Memória: enchentes Rio 66

  1. A Luzete disse bem quando emprega o termo poesia.
    A poesia retrata a dor, coloca entonação para impressões,abstrai o sentimento sobre o caos, neste caso aparentemente por força da natureza, mas revela o desprezo de quem deveria cuidar, prevenir.

    Theo, seu texto de memórias foi impactamente poético, pena ter sido verdadeiro, marcado pela dor de seus mortos.
    Abraço meu / lena

  2. ô Theo,
    incríveis imagens e texto que sabe extrair da tragédia da cidade, a poesia perdida.

    e agora, theo,como é que isto acontece? e fico me perguntando mesmo: poesia perdida, ou existem outras formas que custamos a captar?

    e vou assinalar aquela caixinha ali embaixo para me notificar de novas postagens suas. eu acho que fiz de uma vez anterior, quando deixei um comentário.

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