E se o Papa tiver de renunciar

O  artigo de Rui Martins é preciso naqueles pontos mais críticos pelos quais passa a Igreja Católica no mundo atual, na medida em que estabelece com inegável clareza a dimensão histórica do problema e alguns imperativos de poder que sustentam a medula da instituição.

Rui Martins

Berna (Suiça) – E se o Papa Bento XVI for obrigado a renunciar com esse tsunami que se chama pedofilia na Igreja ? Logo ele, o mais CDF , o apóstolo da reação, o Inácio de Loyola do Vaticano ?

Enquanto isso, vamos tomando conhecimento de que o Papa João Paulo II, prestes a ser beatificado, ignorava as denúncias que chegassem ao Vaticano. E, na verdade, a culpa nem era tanto do polonês mas do seu auxiliar imediato Joseph Ratzinger, que decidira centralizar no Vaticano todas as confissões de padres pedófilos, tirando dos padres locais a possibilidade de conceder a absolvição e de levar a questão à justiça comum, a justiça de todos nós.

E esse é o grande pecado da Igreja, que nem muitos padresnossos e avesmarias e salverainhas podem ser suficientes para obter o perdão. O pecado de se considerar numa outra esfera legal, sujeita a uma outra justiça, como nos tempos passados da teocracia, quando a Igreja mandava no poder temporal, tribunais inclusive, porque se acreditava ser a manifestação divina na Terra.

Assim, quando padres levantavam a batina para se masturbarem com as mãos de crianças ou penetrarem nos seus coroínhas e, em busca de um calmante para a má consciência, contavam para seu confessor, o máximo que podia acontecer era uma remoção da paróquia. Jamais uma entrega do padre à justiça como ocorre fora da recinto fechado das igrejas.

O escândalo dos padres pedófilos, num efeito dominó, que vem da Holanda para a Alemanha, Áustria e agora Suíça, com denúncias em cadeia de centenas de homens já idosos ou na quarentena mas marcados pelo abuso de que foram vítimas quando crianças, em troca de santinhos ou na hora do confessionário, mostra a grande responsabilidade da Igreja ao criar o celibato.

Se o apóstolo Paulo foi o responsável por essa exigência, ao fazer o elogio do celibato e da dedicação plena a Deus, ele próprio dizia na sua epístola ser melhor casar para os que não pudessem fazer o mesmo. Na verdade, ao proibir o casamento e os filhos dele decorrentes, a Igreja quis se preservar de um contato com a sociedade e, ao mesmo tempo, preservar suas riquezas e seu poder.

Criou-se uma sociedade à parte do mundo, fechada só para homens, com versão feminina nos conventos, estéril em decorrência mas com outras fórmulas de sucessão.

Seria de se prever as perversões decorrentes, desde o homossexualismo intra muros, aos abusos, aos delírios e histerias nos conventos femininos com suas aparições compensatórias, logo qualificadas de visões e mensagens divinas, quando não intepretadas como manifestações do demônio com a purificação pelo fogo das fogueiras, como se fazia na Idade Média.

Lembro-me de testemunhos de padres desesperados, tentados pela carne (na verdade nada mais que nosso instinto natural necessário à reprodução) que, no Canadá, chegavam a se emascular morrendo numa poça de sangue ou vivendo como castrados. No Brasil, a reação do clero não foi assim dramática. Nossa literatura está plena de padres com amantes e progenituras diversas, pois, ao perceberem ser impossível o celibato entre o equador e os trópicos, preferiram se adaptar sem os extremos dos canadenses.

Quando chefe de reportagem de um cotidiano paulistano, um dos repórteres, nordestino ex-seminarista católico, contava como seus colegas (e provavelmente ele também) distribuíam santinhos, dizendo às crianças para pegarem no bolso da batina – só que o bolso não tinha fôrro !

Aonde quer chegar essa Igreja que insiste em negar a essência dos humanos, forçando jovens normais a sequer se masturbarem, e condenando casais a treparem sem preservativo ou sem pílula, para que o prazer seja acompanhado de fecundação sem possibilidade de aborto. Na impossibilidade de se tornarem santos e de obterem a impotência por graça divina, muitos se tornam desprezíveis por abusarem de crianças.

Joseph Ratzinger foi um dos que impediram a modernização da Igreja no Concílio do Vaticano II, convocado por João XXIII. O Vaticano preferiu retornar aos tempos da tortura e da inquisição, quando Paulo VI enterrou o Concílio com sua encíclica Humanae Vitae. E, depois de um retrógrado João Paulo II, é a vez de um ultra conservador Bento XVI.

Conta o teólogo Hans Kung, marginalizado pelo Igreja, como os nossos padres defensores da extinta teologia da libertação, que existe uma semelhança entre a Primavera de Praga, o eclodir do socialismo democrático de Dubcek com o amordaçamento do Concílio do Vaticano II pela cúria romana do Vaticano. Sem tanques, sem mortes, mas com o aniquilamento de uma grande reforma, que teria evitado hoje o triste espetáculo de uma igreja doente do sexo.

Fonte: http://www.diretodaredacao.com/

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Um pensamento sobre “E se o Papa tiver de renunciar

  1. mas ele não renunciaria, não por causa destes “escândalos”, coisa tão antiga quanto a salve rainha!

    e não são apenas padres pedófilos, são padres promíscuos mesmo. com mulheres. e os casos são comuns. e nada a ver com o direito ao casamento de padres, homens comuns, mas a igreja rejeita pelo prejuizo ao patrimônino que decorreria desta decisão.

    e tem os outros escândalos, todos devidamente encobertos.

    a favor, pois, da fé de cada um, mas contra aquilo que as igreja, de todos os credos, alimentam como farsa.

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